quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

XII ANTOLOGIA VIRTUAL CEN COM ILUSTRES AUTORES



XII Antologia Virtual CEN
Com Ilustres Autores

É um trabalho intenso da Organizadora Maria Beatriz Silva com bela Formatação de IARA MELO
E com Divulgação internacional e direta "Cá Estamos Nós" (como mais nenhuma outra organização consegue ter!)

Gostava de ver expressa a sua opinião sobre
 o trabalho da Beatriz e da Iara
No nosso LIVRO de VISITAS (no link em baixo)
Essencial para quem trabalha gratuitamente e por Amor à Literatura

NOTA: Está em laboração outra Antologia, com limite de entregas de Trabalhos Literários até 12 de Janeiro de 2013




domingo, 6 de janeiro de 2013

HOJE É DIA DE REIS... (TRADIÇÃO PORTUGUESA)


Vamos cantar as Janeiras



(Tradição Portuguesa): (Dia de Reis,
 bolo de rei e cantar as Janeiras)

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro

Formatação de Maria Beatriz Silva


Esta adorável tradição portuguesa vem do tempo dos romanos, que festejavam o deus Janos,o porteiro do Olimpo, o senhor das Entradas, que podia nos proporcionar um ano venturoso, exorcizando as energias impuras. Passaram os romanos, o deus Janos ficou relegado ao esquecimento, mas, ainda hoje é costume se desejar as “Boas entradas” entre amigos e conhecidos.

Os dicionários definem normalmente as Janeiras como “Cantigas de boas-festas por ocasião do Ano Novo”. Assim sendo, não podemos deixar de relacioná-las, com Janeiro, o primeiro mês do ano, assim chamado em honra do deus Jano (de janua = porta, entrada). Este deus ocupava um lugar muito importante na mitologia romana, sendo o seu nome invocado antes de Júpiter. Jano era o porteiro celestial, e, consequentemente, o deus das portas, que as abria e fechava, esperando-se a sua proteção na partida e no regresso. Considerado um deus dos começos, Jano era invocado para afastar das casas os espíritos funestos e não podia deixar de ser invocado no mês de Janeiro, começo do novo ano. Em sua honra aproveitariam os romanos para se saudarem uns aos outros. Parece, portanto, que as Janeiras, transmitidas de geração em geração, têm origem nesses cultos pagãos, que mais uma vez o cristianismo não conseguiu apagar, mas sim, assimilou nos seus ritos.

Esta tradição é antiquíssima e bem portuguesa. Ocorre em Janeiro, o primeiro mês do ano, daí o seu nome. Este mês era o mês do deus Jano, o deus das portas e da entrada e porteiro dos céus. Os Romanos ambicionavam que ele os protegesse e repelisse os maus espíritos e invocavam-no especialmente nas alturas de Janeiro. Então, o Imperador Caio Júlio César  estabeleceu as datas limites deste mês e que o ano deveria começar nesta época. A partir desta altura tornou-se tradição os Romanos saudarem o início de um novo ano e aclamarem Jano com festejos, aproveitando também para se cumprimentarem uns aos outros, daí surgiu a tradição das "Janeiras". Foi esta tradição que o Cristianismo, não a conseguindo eliminar, adaptou-a acrescentando-lhe os autos pastoris que evocam a cena do nascimento de Jesus e episódios a ele ligados:  Nossa Senhora e S. José; os anjos anunciadores da "Boa Nova"; a vaca e o burrinho; os pastores.
A tradição é que vizinhos, amigos, familiares, normalmente jovens e daí alguns não tão jovens se agrupem e, na noite de Reis (6 de Janeiro), por vezes alastrando-se a outros dias do início do ano, andem pelas ruas da terra, cantando de «porta em porta» e desejem às pessoas um próspero ano novo. Habitualmente, alguns elementos tocam instrumentos normalmente tradicionais e folclóricos, como a pandeireta, os ferrinhos (triângulo), o tambor, a zabumba, o bombo, a flauta, a viola, o cavaquinho, o acordeão, mais raramente a gaita-de-foles, etc. As músicas utilizadas são tradicionais, embora a letra possa variar de terra para terra e também conforme o grupo. Previamente, a música e a letra são estudados, mas o grupo pode levar papéis para auxílio, nomeadamente o solista que cantará as quadras para além do refrão, enquanto que o coro o cantará. Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos ofereçam as chamadas janeiras: castanhas, nozes, alguns frutos, enchidos, vinho, doces da época natalícia, etc. Por comodidade, atualmente é costume dar-se chocolates e dinheiro, embora isto seja considerado uma destradicionalização. No final do percurso, o grupo reúne-se e faz um convívio onde todos juntos comem aquilo que conseguiram, ou então, divide-se por todos e cada um segue o seu caminho. Nas aldeias mais pequenas era, e nalgumas ainda é, costume a divisão do grupo em grupos mais pequenos e como toda a gente se conhecia, em função dos moradores de determinada casa, eram escolhidas as quadras a cantar nesta.
 Fontes Diversas

As Janeiras ou cantar as Janeiras é uma tradição em Portugal que consiste na reunião de grupos que se passeiam pelas ruas no início do ano, cantando de porta em porta e desejando às pessoas um feliz ano novo.

Ocorrem em Janeiro, o primeiro mês do ano. Este mês era o mês do deus Jano, o deus das portas e da entrada. Era o porteiro dos Céus e por isso muito importante para os romanos que esperavam a sua proteção. Era-lhe pedido que afastasse das casas os espíritos maus, sendo especialmente invocado no mês de Janeiro.

Era tradição que os romanos se saudassem em sua honra no começar de um novo ano e daí derivam as Janeiras. A tradição geral e mais acentuada, é que grupos de amigos ou vizinhos se juntem, com ou sem instrumentos (no caso de os haver são mais comuns os folclóricos: pandeireta, bombo, flauta, viola, etc.). Depois do grupo feito, e de distribuídas as letras e os instrumentos, vão cantar de porta em porta pela vizinhança.
Terminada a canção numa casa, espera-se que os donos tragam as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, chouriço, morcela, etc. Por comodidade, é hoje costume dar-se chocolates e dinheiro, embora não seja essa a tradição).
No fim da caminhada, o grupo reúne-se e divide o resultado, ou então, comem todos juntos aquilo que receberam.
As músicas utilizadas, são por norma já conhecidas, embora a letra seja diferente em cada terra.




Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas


Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro 
Marinha Grande – Portugal

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

OS CÁTAROS



OS CÁTAROS
TRABALHO E PESQUISA
 DE CARLOS LEITE RIBEIRO

1ª PARTE

Membros de uma seita religiosa de origem cristã que acreditam que o mundo visível e tudo que ele encerra são obra do diabo, ser supremo maléfico, rival de um Deus, ser Supremo e bondoso.
Na realidade, esta divisão entre os dois princípios, primeiro, pode ser moderada ou absoluta. Uns acreditam no Deus único, bom e eterno que permitiu que Satanás organizasse o mundo; os outros acreditam em dois princípios absolutos e rivais, igualmente criadores e eternos, perpetuamente em luta um contra o outro.
Como principal texto doutrinário utilizavam o Evangelho de São João e o chamado “Evangelho do Amor”, texto não reconhecido pela Igreja Cristã. Realizavam obras sociais concretas, ajudando os necessitados de diversas maneiras, pois acreditavam que a fé só seria uma experiência válida se exercida na prática. Investiam, por exemplo, em campanhas de promoção à saúde e educação, sempre gratuitas. Neste ponto percebemos que a preocupação com a filantropia, tão em voga atualmente, já existia nesta época. Seria uma forma de busca da perfeição com ser humano, ou de aproximação com o divino.
O catarismo, ao que se julga, nasceu em Constantinopla e teria sido trazido para a Europa Ocidental na sequência da segunda cruzada. Uma assembleia de cátaros albinenses e italianos reúne-se no castelo de Saint-Félix de Caraman, próximo de Toulouse, por volta de 1176. Estão aí representadas seis Igrejas, a do Norte Loire, de Albi, de Toulouse, de Carcassone, de Agen e da Lombardia. Nomeiam-se os bispos e fixam-se os limites das dioceses. No Languedoc, os cátaros viverão relativamente em paz entre si, ao passo que se produzem divisões em Itália.
O catarismo, que encontrou no Languedoc (França), no século Xl, uma terra de eleição, pretendia ser um retorno à pureza dos primeiros tempos do cristianismo. Surgiu no Limousin, no fim do século Xl e estendeu-se pela região francesa do Midi: Toulouse, Carcassonne, Narbonne, Foix e Béziers, foram os seus principais centros.
Esta doutina baseia-se num dualismo que afirma a existência de dois princípios fundamentais antagónicos, o do Bem, criador do mundo espiritual, e o do mal, criador do mundo material. O homem, despegando-se da matéria, escapa ao domínio de Satan, o deus do Mal, e une-se ao bom Deus. A vida dos cátaros, austera e impregnada de caridade evangélica, valeu-lhe numerosos adeptos, mas a Igreja dominante viu no catarismo um perigo para a sua unidade, doutrina e dogmas. A cruzada contra os albigenses, entre 1209 e 1229, pregada pelo papa Inocêncio 3º e levada a cabo por Simon de Montfort, em benefício dos Capetos, desorganizou o movimento cátaro, protegido pelos senhores feudais do Sul. A cristandade nada lucrou com a repressão exercida contra os heréticos e o património cultural francês, com efeito, viu-se empobrecido
O catarismo, do grego katharos, que significa puro, foi uma seita cristã da Idade Média surgida no Limousin (França) ao final do século XI, a qual praticava um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, manifestado num extremo ascetismo. Concebia a dualidade entre o espírito e a matéria, assim como, respectivamente, o bem e o mal. Os cátaros foram condenados pelo 4º Concílio Lateranense em 1215 pelo Papa Inocêncio III, e foram aniquilados por uma cruzada e pelas ações da Inquisição, tornada oficial em 1233.
Os cátaros, também chamados de albigenses, rejeitavam os sacramentos católicos. Aqueles que recebiam o batismo de espírito, consolamentum, eram considerados os perfeitos e levavam uma vida de castidade e austeridade e podiam ser tanto homens quanto mulheres. Os crentes apenas eram os homens bons e tinham obrigações menores; recebiam o consolamentum na hora da morte.
Apesar desta hierarquia, os cátaros não restringiam a experiência transcendental, e/ou divina (no caso, também gnóstica) aos mais graduados, mas a qualquer um que assim desejasse e experimentasse estados alterados de consciência.
Essa conceção sem hierarquia da espiritualidade foi considerada pela igreja católica uma ameaça para a fé e a unidade cristã, já que atraiu numerosos adeptos. Assim sendo, o catarismo foi considerado herético e contra ele foi estabelecida a Cruzada albigense (1209-1229). A cruzada teve parte de interesses políticos, já que as localidades onde se praticavam o catarismo (nota: esta seita era conhecida por sua tolerância religiosa ao passo que conviviam, nos mesmos reinados, judeus, pagãos, e até mesmo católicos) encontravam-se ligadas ao reino da França, porém independentes do mesmo.
No início do século XII, a Igreja católica presenciará a difusão da heresia dos cátaros ("Kataroi", puro em grego) ou albigenses (nome derivado da cidade de "Albi", na qual vivia um certo número de heréticos) que se propagará no território do Languedoc, sudoeste da França (da língua occitâna da região - "Língua do Oc"; Oc= "Sim", em oposição à "Langue d'Oui", do norte da França). Também se designava frequentemente esta região por "Occitânia", que advém das mesmas raízes linguísticas.
Antes de tudo, é conveniente ressaltar que o catarismo não pertence exclusivamente ao Languedoc, nem o Languedoc deve ser visto exclusivamente sobre o prisma do catarismo. Aderentes à doutrina cátara recebem diferentes nomes no país em que se inserem: Na Itália, eram conhecidos como "patarinos", na Alemanha como "ketzers"; na Bulgária, como "bogomils". Existiram cátaros na França, na Catalunha, na Itália, na Alemanha e, ao que parece, na Inglaterra.
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material e mal. Não concebiam a ideia de inferno, pois no fim o deus do bem triunfaria sobre o deus do mal todos seriam salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, não prestavam juramento, base das relações feudais na sociedade medieval, nem matavam qualquer espécie animal.
Os cátaros organizaram uma igreja e seus membros estavam divididos em crentes, perfeitos e bispos. As pessoas se tornavam perfeitos (homens bons) pelo "ritual do consolament" (esta cerimónia consistia na oração do Pai Nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição. Tocava-se a cabeça do iniciante com o Evangelho de são João, e o ritual terminava com o beijo da paz). Os crentes podiam abandonar a comunidade quando quisessem, frequentavam a Igreja Católica, eram casados e podiam ter filhos. Dessa forma, eles poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.
Durante o período das perseguições as igrejas cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.
Devido à propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combate-la, sendo que no início tentava os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando trágicas medidas, pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo. Vemos aqui um motivo político para investidas contra as comunidades cátaras e sua doutrina. Poderia haver outros motivos para tais investidas?
A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia à província de Narbona, somente a região de Albi ligada à província de Bourges. O Languedoc é anexado a França em 1229 pelo Tratado de Meaux. O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc pode ser explicado pela situação política da região, independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.
O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo).
Os cátaros a exemplo dos primeiros cristãos levavam vida ascética de alta espiritualidade, vivenciando na prática um cristianismo puro, numa total alta-renúncia a tudo o que era deste mundo, eram conhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo, a serviço do mundo e da humanidade, um verdadeiro exemplo de amor ao próximo.
Os cátaros galgavam o caminho da transformação ou da transfiguração.
Paz inverencial.
Nos meados do século XII, iniciou-se na Itália um movimento religioso denominado Cátarismo (Albigenses), a doutrina dos cátaros era nitidamente diferente da Igreja Católica, numa reação à Igreja Católica e suas práticas, como a venda de indulgências, e a soberba vida dos padres e bispos da época.
Eles eram extremamente radicais e dualistas como os maniqueístas, acreditavam que a salvação vinha em seguir o exemplo da vida de Jesus, negavam que o mundo físico imperfeito pudesse ser obra de Deus, acreditavam ser o mundo criação do príncipe das trevas, rejeitavam a versão bíblica da criação do mundo e todo o antigo testamento, acreditavam na reencarnação, não aceitavam a cruz, a confissão e todos os ornamentos religiosos.
Com medo da repressão da Igreja, os Cátaros mantiveram sua fé em segredo, porém em pouco tempo esta seita atraiu muitos seguidores. Cresceram bastante no sul da França e se estenderam a região do Flandres e da Catalunha, funcionaram abertamente com a proteção dos poderosos senhores feudais, capazes de desafiar até mesmo o Papa.
O chamado "Pays Cathare" (País Cátaro) se estendia pela zona chamada Occitania , atual Languedoc, em uma extensão fronteiriça com Toulouse até o oeste, nos Pireneus até o sul, e no Mediterrâneo até o leste. Em definitivo, uma área política que, durante o século XIII, limitava-se com a Coroa de Aragão, França e condados independentes como o de Foix e Toulouse.
O mais curioso nesta cultura é a cautela por construir seus castelos e abadias em cima de precipícios e inacessíveis colinas, as mais elevadas possíveis, razão pela qual, na atualidade, os fazem muito atrativos por suas inabarcáveis vistas sobre o horizonte e pela observação de paisagens impressionantes.
Realizavam cerimónias de iniciação, suas cerimónias eram muito simples, consistia basicamente em um sermão breve, uma bênção e uma oração ao Senhor, essa simplicidade influenciou posteriormente uma gama de seguimentos protestantes. Possuíam duas classes ou graus.
Os leigos eram conhecidos como crentes, e a esses não eram exigidos seguir suas regras de abstinência reservada aos perfecti, ou bonhomes eleitos, que formavam a mais alta hierarquia do catarismo. Para ser um perfecti tinham que tanto homem quanto mulher, passar por um período de provas nunca inferior a 2 anos, e durante esse tempo, faziam a renúncia de todos os bens terrenos, abstinham de carne e vinho, não poderiam Ter contacto com o sexo oposto, e nem dormirem nus. Depois deste período o candidato recebia sua iniciação conhecida com o nome de Consolamentum que era realizada em público. Essa cerimónia parecia com o batismo e continha também uma confirmação e uma ordenação.
Na idade média, marcada pela violência e pela sede de poder da igreja Católica Romana, o Catarismo chocou-se frontalmente com o dogmatismo da Igreja. A religião cátara propunha, como aspectos básicos, a reencarnação do espírito, a conceção da terra como materialização do Mal, por encher a alma de desejos e prende-la às coisas efémeras do mundo, e do céu como a do Bem, numa conceção dualista do mundo. Mas o principal ponto de discordância, e talvez o mais original, tenha sido a de que os cátaros não admitiam qualquer tipo de intermediação entre o homem e Deus.
Esta crença chocou-se frontalmente com a religião hegemónica em toda Europa, a base da estrutura social, cultural económica e religiosa do Feudalismo. Durante muito tempo os cátaros foram relativamente poucos, com o tempo, começou a entender-se pela Occitania, até chegar a um ponto cujo resultado era demasiado incómodo tanto para Roma como para a França.
Um bastião religioso no centro da Europa não fazia mais que estorvar a cristalização do cristianismo de Roma no continente, e um território não católico era um pretexto ideal da Coroa da França para anexar as terras do Languedoc e expandir-se.
Por esta razão, e também pela força que assumiu o catarismo, a Igreja Católica fez tudo para combater sua expansão, clarificando o movimento como heresia, em 1209, o infalível Papa Inocêncio II estimulou os fiéis a ir para as cruzadas contra os hereges, com cerca de 20.000 cavaleiros os cruzados massacraram o povo, muitos morreram torturados ou na fogueira, sendo esta a primeira cruzada feita contra cristãos e em território franco. O presente que o santo Papa prometeu em compensação para aqueles que participaram da campanha era a partilha e doação das terras aos barões que as conquistassem, ou seja, converter-se-iam em senhores feudais.
A Cruzada Albigesa (devido à cidade de Albi), comandada por Simon de Montfort (1209 - 1224) e pelo Rei Luís VIII (1226-1229) durou 40 anos. A perseguição arrasou a região dos Cátaros, a resistência teve que enfrentar-se com duas forças enormes, o poder militar do Rei de França e o poder espiritual da Igreja Católica.
Na primeira fase da cruzada, foi destruída a cidades de Béziers (1209), onde 60.000 pessoas morreram. Destruída a cidade, os cruzados marcham para Carcassone, onde Simon de Montfort se apossa dos condados de Trencavel (carcassone, Béziers), conquistando também Alzonne, Franjeaux, Castres, Mirepoix, Pamiera e Albi.
Em 1216, ouve outra investida contra os cátaros. Simon morre em 1218, acabando também a cruzada, sem, entretanto, extinguir a heresia. Amaury, filho de Montfort, oferece as terras conquistadas por seu pai a Felipe Augusto, rei da França que as recusa, seu filho Luís VIII acabará aceitando as terras.
Em 1224 Luís VIII liderando os barões do norte, empreendeu uma nova cruzada que durou cerca de três anos alcançando muitas conquistas até chegar a Avignon, onde termina o cerco contra os hereges. O resultado dessa disputa foi um acordo imposto pelo rei da França aos Senhores feudais das áreas conquistadas e consequentemente os domínios disputados passariam para a coroa da França (Tratado de Meaux, 1229).
Militarmente, apesar de terem o apoio de pequenos condados, os cátaros não conseguiram resistir ao genocídio das cruzadas, mas elas não conseguiram erradicar o Catarismo de forma definitiva. Foi a Inquisição, a instituição que realmente conseguiu exterminar definitivamente o catarismo.
No chamado País Cátaro viviam outras pessoas cuja religião era o catolicismo, Perguntado sobre como distinguir entre os hereges e os outros, o legado papal (inquisidor) respondeu: "Matem-nos a todos. Deus se encarregará dos seus".
Quarta-feira, 16 de Março de 1244, aos pés de um penhasco da região de Ariège (Midi-Pyrenees) nos Pirenéus, 225 homens e mulheres são entregues à fogueira. O seu crime? Eram Cátaros. Entrincheirados na povoação fortificada de Montségur, a 1.200 metros de altitude, e capturados após dez meses de cerco tinham-se recusado a abjurar a sua fé.
O fenómeno Cátaro estendeu-se por toda a Europa Ocidental desde o Norte da Itália até à Borgonha, à Champagne, à Renânia, à Flandres e até mesmo à Inglaterra. No Norte a repressão foi tão rápida e violenta que nem deu tempo para que se implantasse qualquer tipo de organização. Em Itália, em contrapartida, o movimento desenvolveu-se durante muito tempo em total liberdade. O mesmo se passou no Languedoc, mas aí a aventura Cátara haveria de desembocar no maior drama jamais conhecido por estas partes da Europa.
A sociedade feudal é uma sociedade em pirâmide. Divide-se em três ordens e na base estão os que trabalham, todo o povo de camponeses e artesãos. Na ordem imediatamente acima ficam os que combatem, guerreiros e nobreza. No topo os que rezam: o clero. Esta sociedade foi abalada, ao longo dos séculos XII e XIII por surtos de dissidência religiosa e contestação que, conscientemente ou não, faziam perigar esta ordem tradicional. Fogueiras e forcas tentaram em vão erradicar as heresias, nomeadamente a mais importante de todas, a dos Cátaros.
A igreja de Roma não podia aceitar que se rejeitasse a autoridade do seu clero, especialmente numa altura em que essa autoridade ainda se estava a afirmar: o valor dos seus sacramentos e os artigos fundamentais do Dogma respeitantes à criação, a Cristo e à Salvação. Por mais de dois séculos a Santa Sé empenhou-se na luta contra a Hydra Innumera: o dragão da heresia Cátara.
Para os Cátaros Deus era a origem de todas as coisas. Mas, ao contrário dos católicos que entendiam a dualidade Bem e Mal como algo externo a Deus, sendo este a fonte do Bem, os Cátaros entendiam que ambos, Bem e Mal, emanavam de Deus. Deus era o criador de todas as coisas e como tal não se devia procurar a origem do Mal numa outra entidade. Rejeitavam assim o conceito de satanismo ou a existência de entidades de onde emanasse o mal. Os Cátaros, de qualquer forma, dissociam o Bem do Mal, o material do espiritual. E toda a sua crença gira em torno desta dualidade entre espírito e matéria.
Os Cátaros chamavam a si próprios "bons cristãos" ou "bons homens". Existia uma distinção entre aqueles que recebiam o Consolamentum, uma espécie de ordenação, e os cristãos normais. O grupo dos "ordenados" constituía a hierarquia cátara onde se incluíam os prefeitos que, usualmente, pregavam aos pares: o "filho mais novo" e o decano. Havia um ou vários "filhos mais novos" que se tornavam prefeitos itinerantes e coordenados por um bispo que tinha à sua responsabilidade uma determinada área geográfica restrita. Nas vésperas da cruzada anti-cátara havia seis bispados: Agen, Lombers, Saint-Paul, Cabaret, Servian et Montsegur. Entre as "decanonis" mais importantes havia Moissac, Cordes, Toulouse, Puylaurens, Avignonet, Fanjeaux, Montréal, Carcassonne, Mirepoix, Le Bézu, Puilaurens, Peyrepertuse, Quéribus, Tarascon-sur-Ariège.
Os Cátaros não admitiam que o mundo visível, por muito belo que pudesse parecer, tivesse sido criado por um bom Deus. Se a Igreja de Roma podia considerar-se satisfeita pela maneira como a repressão fora conduzida nos países do Norte aqui tinha pela Frente um grave problema. A sólida implantação da heresia cátara em França e nas cidades italianas. No fim do séc. XII e início do XII a base social do catarismo é já muito vasta. Toca já todos os sexos e classes sociais inclusivamente os grandes senhores rurais. O catarismo era um grande fenómeno social na nobreza local. Uma vez que o papa tinha ordenado a confiscação de todos os bens e a morte dos heréticos e dos seus cúmplices, esta só era possível com uma grande cumplicidade social.
O Conde de Toulouse era então Raimundo VI. Era um grande senhor na medida em que administrava territórios mais vastos que muitos reinos da época. Possuía terras mais vastas que o próprio rei de França. Mas Raimundo VI tinha um carácter pacífico e tolerante o que na época não era considerado uma virtude num nobre especialmente pela Igreja. A Igreja pensa que um senhor deve saber impor a sua autoridade e a sua fé a todos os homens e mulheres que vivem sob a sua autoridade. Mas Raimundo é um homem que respeita a fé dos outros e que sente pelos cátaros alguma simpatia, mesmo não sendo cátaro e acreditando mesmo em ideias muito contrárias ao que os cátaros pregam. É um homem que gosta do amor e das mulheres. Teve várias mulheres. Por morte de algumas e porque abandonou outras, tinha amantes, filhos legítimos e ilegítimos. Se isto era escandaloso aos olhos da Igreja, aos olhos dos cátaros o seu comportamento era uma abominação. Mas, apesar de tudo, ele respeitava-os e protegia-os.

2ª PARTE



2ª PARTE

Houve, entretanto, um homem que tinha tentado combater pacificamente os cátaros e a sua religião dualista: um jovem cónego castelhano, o futuro S. Domingos. Alguns anos antes, Domingos obtivera do papa o reconhecimento da Ordem dos Frades Pregadores. S. Domingos nas suas viagens pela Europa fica tão chocado com a falta de liberdade de expressão como com a forma como o verbo é usado pelos vários povos europeus: com a espada. Defendia que a melhor forma de converter as pessoas ao catolicismo era pela força da palavra, pelo poder da expressão. E é assim também que encara as cruzadas e a luta contra a heresia, nomeadamente a cátara. Os êxitos de S. Domingos no combate à heresia cátara foram reais mas limitados. E, seja como for, não impediram a cruzada.

Esta guerra, contra os cátaros, que o rei de França não queria ver ser os barões do Norte a fazê-la. Normandos, flamengos, da liga de França, da Borgonha, Champagne e ainda alemães, bávaros e austríacos. Um exército maravilhoso e grande, como cantava um poeta da época. No comando um chefe temível: Simon de Monfort. Simon de Monfort é um guerreiro, um homem vigoroso que tem o sentido da batalha e o sentido estratégico mas é um Senhor modesto que possui apenas algumas propriedades na zona de Paris. Um homem com uma fé profunda mas também um homem demasiado brutal. Ora, acontece que uma lei papal dizia que a terra conquistada pertencia a quem a conquistasse (pagando alguns tributos à Igreja) e as terras cátaras eram muito interessantes devido às construções aí edificadas e ao comércio mediterrânico a que davam acesso. Eram por isso terras ricas e cultivadas, terras que fascinam potenciais senhores. Para além do desejo natural que Simon de Monfort poderia ter tem uma outra coisa que outros não possuíam para o colocar na posição de escolhido para tomar as terras do Sul de França: a bênção da Igreja.
Mais tarde Simon de Monfort exorta os católicos da região a abandonarem a sua terra, abandonarem os heréticos antes que o seu exército avance. O conselho da terra reúne e os habitantes da região decidem - católicos e cátaros - que não abandonam as suas terras e que, sobretudo, não estão interessados em mudar de senhor.
A guerra vai infligir um rude golpe à sociedade cátara mas também à sociedade da Aquitânia e do Languedoc no seu conjunto: católicos e cátaros à mistura. Não será apenas em Béziers que será massacrada gente que se calhar nunca tinha ouvido falar da heresia. Promovido a Visconde de Carcassonne três semanas depois do massacre de Béziers, Simon de Monfort consegue em apenas três anos isolar completamente Toulouse. Em 1215, o IV Concelho Ecuménico do Latrão, a maior assembleia reunida até então pela cristandade romana renova solenemente a condenação da heresia cátara, reforça o direito repressivo, destitui Raimundo VI e outorga os respectivos títulos e domínios a Simon de Monfort. Será, no entanto, preciso muito mais que a guerra e os concílios para restaurar a unidade da Igreja, impor a todos o batismo católico e acabar com o batismo de espírito dos heréticos. Os cátaros diziam que Cristo se ensombrou, escondeu a sua luz celeste à sombra da forma humana: "Senhor não tenhas piedade da carne mas sim da alma que ela retém como prisioneira".
Num belo dia de 1217, passando a vau o Garona, Raimundo VI consegue reentrar em Toulouse. Congrega em seu redor uma população numerosa que se subleva imediatamente e reconstrói as muralhas arrasadas pelos franceses. Nove meses mais tarde, ao cercar a cidade rebelde, Simon de Monfort tomba para sempre com a cabeça esmagada por uma bala de catapulta disparada por mulheres. "E a pedra caiu a direito onde devia cair. Em cheio no elmo de aço do conde acertou. E os olhos, miolos, dentes, fronte e queixada, tudo num ápice saltou. Caiu por terra. Morto. Lívido. Ensanguentado". O grande poema da Aquitânia, a canção da cruzada, retrata a alegria que se apossou da população de Toulouse e a dor que se abateu sobre o campo dos cruzados. A morte de Simon de Monfort é o sinal que faz disparar a guerra de libertação.
Os atores que sobram são Raimundo VI, o velho conde, Raimundo VII, seu filho e o jovem conde de Toulouse, e o filho de Simon de Monfort: Amouris de Monfort. Há uma diferença enorme de personalidades entre Raimundo VII e Amouris. Raimundo VII era muito combativo, enérgico e tinha sido o primeiro homem a provocar uma derrota a Simon de Monfort enquanto que Amouris de Monfort era um homem sem a capacidade militar de seu pai. Numa determinada altura Amouris encontra-se com o rei de França e devolve todos os títulos e propriedades recebidas do rei. E, nessa altura, a guerra muda de natureza. Nos próximos anos a guerra de libertação religiosa transforma-se numa guerra de conquista de bens e propriedades para a coroa francesa.
Mas, por enquanto, a contraofensiva do Sul marca pontos. E a igreja cátara levanta de novo a cabeça por todo o lado. O quotidiano dos prefeitos cátaros é uma vida comunitária, não encerrada em claustros mas vivida em casas situadas no coração das vilas e aldeias. À imagem dos apóstolos trabalham mesmo quando são de nascimento nobre o que entra em rutura total com a sociedade feudal. O prefeito cátaro é um religioso que observa uma regra mas que também tem almas a seu cargo. É ao mesmo tempo um monge e um cura de paróquia.
Tal como na Quaresma católica, o peixe ficava de fora das proibições alimentares. Acreditava-se então que nascia dentro de água por geração espontânea. Os cátaros rejeitavam o sacramento da Eucaristia. Para eles a hóstia não passava de um simples pedaço de pão. Jamais poderia ser o corpo de Cristo. No entanto, em memória da última ceia abençoavam ritualmente o pão quando o partilhavam.
À data da morte de S. Domingos, em 1221, os conventos Dominicanos já se tinham multiplicado por toda a Europa Ocidental. De Toulouse a Paris, de Valência a Bolonha.
Em 1227, a cruzada real está em marcha e pela frente encontram um país exangue devido a dezassete anos de guerra. Imediatamente a seguir à derrota da Aquitânia, em 1229, a Igreja Católica faz o balanço. Era necessária uma instituição que se encarregasse sistematicamente de reprimir e suprimir os heréticos. É a Inquisição que passa a exercer funções desde 1233 e que se encarrega desta missão. A Inquisição não só será totalmente independente do poder militar e político como também é totalmente independente das arquidioceses locais. Não depende senão do Papa e de si mesma. A Inquisição é entregue aos Dominicanos pois estes são opositores teológicos dos cátaros.
O catarismo não era a primeira heresia que atacava a Igreja. A Igreja sempre tinha sabido desenvolver novos anticorpos. O trabalho da Inquisição vai ser o de um confessionário obrigatório itinerante. Os inquisidores não são muito numerosos e a inquisição não é uma instituição rica, sobretudo no seu inicio. Os inquisidores têm diante de si uma tarefa imensa. Têm que passar por todas as localidades, cidades, vilas e aldeias e interrogar as pessoas. Assim, a Inquisição terá que funcionar como um tribunal itinerante. Todas as confissões eram tratadas como confissões em sede de justiça. Os documentos eram devidamente preservados, e por vezes copiados ou recopiados para serem enviados para outro local onde teriam melhor guarda ou onde se poderia dar seguimento com celeridade ao processo. Todo o trabalho tinha como objetivo conseguir descobrir quem eram os ministros heréticos de qualquer seita e afastá-los.
Mas no Languedoc a tarefa da Inquisição não foi fácil pois as populações eram particularmente hostis ao seu trabalho. A violência das populações reflete a vontade existente de fazer surtidas para roubar os documentos conseguidos pelos Inquisidores. Foi o que aconteceu em Avignonet durante a noite da Ascensão de 1242. Era de Montségur o comando que tinha descido para assassinar os inquisidores em Avignonet. Alpendurado a 1.200m de altitude sobre um esporão dos Pirenéus, Montségur é, por excelência, o símbolo emblemático do drama cátaro. Pequena localidade fortificada erguida à medida das necessidades da igreja cátara servia de refúgio à hierarquia que fugia da cruzada e da Inquisição. Mais de 200 prefeitos e perfeitas e outros tantos laicos, entre os quais uma guarnição de uma centena de homens, tinham-se aí instalado.
Um ano após o massacre de Avignonet, o exército real, apostado em cortar a cabeça do dragão apertava o cerco a este sítio. A praça-forte não se rendeu senão ao fim de dez meses. Após o massacre das duzentas pessoas em Montségur, há registos de cátaros, fossem da hierarquia ou laicos, que fogem e se refugiam na Itália, sobretudo na Lombardia. A paz que aí encontram não dura muito.
As hierarquias cátaras acabam por se verem constrangidas ao reduto fortificado de Cirlien. Cirlien será um novo Montségur. Assediada a praça rendeu-se a 1276 e duzentos prefeitos e prefeitas foram queimados. Nos Balcãs, em contrapartida, a heresia dualista, transformada em religião de Estado na Bósnia mantém-se até à conquista turca no século XV. Recusando aliar-se, tanto à Igreja de Roma como à Igreja Ortodoxa, os bósnios, se bem que de etnia eslava, passam para o Islão. Os seus descendentes são os atuais muçulmanos da Bósnia.
O exílio, a prisão, a morte. A Inquisição no Languedoc quase conseguiu atingir inteiramente o seu objetivo. Podia julgar-se a heresia cátara completamente erradicada quando em 1300 aparece no condado de Fois um prefeito de verbo afiado, Pierre Auhtier.
"As igrejas são as casas dos ídolos porque as estátuas dos santos que lá existem são apenas ídolos e todos aqueles que adoram ídolos são idiotas pois foram eles próprios que os modelaram com uma chave e outros utensílios de ferro".
Em 1300 qualquer coisa tinha mudado. A pregação de Pierre Authier já não alcançava êxito junto dos nobres e dos burgueses. Nesta altura, ao invés do que se passava nos primeiros tempos do catarismo, a heresia dualista colhe mais adeptos junto dos camponeses e das massas de trabalhadores. O catarismo torna-se uma religião popular. Pierre Authier, em 1284 é um homem sem problemas. Trabalhava para o Conde de Fois e tinha uma carreira promissora. Um dia, após uma conversa com o seu irmão Guillaume sobre a heresia descobre em si uma vocação cátara e resolve partir da região para a Lombardia onde encontra comunidades cátaras. Durante quatro anos fica na Lombardia a estudar o catarismo e ao fim desse tempo torna-se prefeito. Poderia ter ficado na Lombardia e continuar aí a sua pregação. Mas decide voltar à região de Fois. Durante dez anos quase não vê a luz do dia uma vez que vive escondido em caves e grutas. Anda um pouco a pé apenas durante a noite e é à noite que faz os seus percursos das viagens que precisa fazer. Isto leva-o a ficar doente e fraco. E, no entanto, executa a sua decisão de voltar a Fois com uma força e uma fé extraordinárias. É verdadeiramente o último grande personagem do catarismo antes de Bernard Guy, o grande inquisidor tomar em mãos a tarefa de exterminar a heresia dualista.
Graças aos registos de Jacques Fournier, os registos da vida de certas aldeias é conhecida em todos os seus pormenores quase diários. Este cisterciense, bispo de Parmier foi um inquisidor fora do vulgar com uma paciência e uma curiosidade sem limites.
No início do século XII, a Igreja Católica presenciará a difusão da heresia dos cátaros (kataroi, puro em grego) ou albigenses (nome derivado da cidade de Albi, na qual vivia um certo números de heréticos) que se propagará no território do Languedoc, sul da França.
Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar. Eram dualistas acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material e mal. Não concebiam a ideia de inferno, pois no fim o deus do Bem triunfará sobre o deus do Mal e todos serão salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação. Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, não prestavam juramento, base das relações feudais na sociedade medieval, nem matavam qualquer espécie animal.
Os cátaros organizaram uma Igreja e seus membros estavam divididos em Crentes, Perfeitos e Bispos. As pessoas se tornavam Perfeitos (homens bons), pelo ritual do congelamento ( esta cerimonia consistia na oração do pai nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição. Tocava-se a cabeça do iniciante com o  Evangelho de S. João , o ritual terminava com o beijo da paz), faziam voto de castidade, cabendo-lhes a guarda, a transmissão e a vivência da fé cátara. Os Crentes participavam do ofício divino, escutando o sermão de um Perfeito, dividiam o pão entre si que não era considerado o corpo de Cristo. Os Crentes podiam abandonar a comunidade quando quisessem, frequentavam a Igreja Católica, eram casados e podiam ter filhos, contribuíam para a sobrevivência dos Perfeitos, recebiam o consolament nas vésperas de sua morte. Desta forma, eles poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.
Cada Igreja Cátara tinha um bispo, o primeiro se estabeleceu no Norte da França por volta de 1149. O voto de pobreza ficou ameaçado pelo desenvolvimento de igrejas e bens materiais. Em 1167, realizou-se o Concílio de Saint-Felix de Caraman, no Languedoc, presidido pelo bispo Nicetas de Constantinopla (hierarca bogomilo), que exortou os heréticos a adotar um dualismo absoluto, organizando os bispados do Ocidente.
Durante o período das perseguições as Igrejas Cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de Crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.
Devido a propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combatê-la, sendo que no início tentava converter os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando medidas trágicas pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo.
A Igreja Católica estabeleceu a repressão as heresias por meio de concílios, exigindo que o poder secular participasse do processo. Desta forma, através do estudo do cânone 27 do III Concílio de Latrão (1179) e do cânone 3 do IV Concílio de Latrão (1215), verificar-se-á os princípios adotados pela Igreja Católica para reprimir a doutrina cátara. Embora o conteúdo desses cânones não tenha sido inteiramente obedecidos, percebe-se a necessidade que a Igreja Católica tinha de eliminar a heresia cátara, pois esta ameaçava seu poder. A Igreja só poderia manter-se no poder com a certeza de que era a verdadeira herdeira de Cristo e de que passavam por ela os caminhos que levavam a salvação.
A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia á província de Narbona, somente a região de Albi estava ligada a província de Bourges. O Languedoc é anexado a França em 1229 pelo Tratado de Meaux.
O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc, pode ser explicado pela situação política da região, independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.
O arcebispo Berengário de Narbona, da família real de Aragão, descuidará dos assuntos espirituais em favor de questões políticas. A justiça só era executada mediante pagamento e o clero permitia que os padres trabalhassem ou casassem.
Isto propiciou a difusão do catarismo, que clamava pela castidade absoluta, repelindo a autoridade papal, a culto às imagens e ao sacramento. Censuravam os poderes públicos e o direito de julgar e ordenar. Possuíam um ideal de Igreja Santa, com um sacerdócio purificado, vivendo em pobreza evangélica.
O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo). Henrique foi preso, porém , as maiores ameaças a Igreja se situavam em outras esferas. Os maiores aliados dos heréticos pareciam ser os cavaleiros, que os protegiam contra os ataques, da mesma forma agiam a maioria das casas nobres da região. A transmissão da heresia fazia-se de uma domus (casa) a outra, através da palavra falada. A palavra escrita era o meio mais elitista portanto de alcance reduzido.
Esta heresia foi extirpada com dificuldade, devido as relações de poder. As estruturas sociais e a cultura laica aceitavam as doutrinas propagadas pelos Perfeitos e os protegiam da repressão.
No início da repressão a Igreja lançava a excomunhão (pena espiritual que a Igreja aplicava ao pecado mortal da contumácia e da desobediência ao direito e ao juiz), como meio de  induzir  o poder secular a participar da perseguição e do combate aos hereges. Recorrendo mais tarde ao uso da violência, instituindo o Tribunal da Inquisição.    Os cátaros foram acusados de abalarem a ordem social existente, e de aspirarem a destruição da sociedade medieval e da humanidade. Pois condenavam o casamento, que teria como objetivo a procriação, porém os crentes podiam casar e ter filhos. Os padres não eram necessários, qualquer leigo poderia realizar um batismo. Acreditavam na existência de dois deuses (um do Bem, outro do Mal), sendo que a Igreja Católica era monoteísta. Renunciavam aos bens materiais, pregando o retorno ao cristianismo primitivo, estas divergências levaram a Igreja Católica a combater os cátaros.    A repressão as heresias foi estabelecida através de concílios, será abordado neste trabalho o III Concílio de Latrão (1179), e o IV Concílio de Latrão (1215), pois ambos excomungaram os cátaros.    O III Concílio de Latrão, foi convocado pelo papa Alexandre III, tendo como objetivo principal por fim a dissidência dentro da Igreja e a briga entre o imperador Frederico I (Barbaroxa) e o papado. O acordo firmado em Veneza (1177), finalizou o conflito que durou quase 20 anos. Este concílio surgiu após a morte do papa Adriano IV (1159), pois os cardeais haviam nomeado dois papas (Alexandre III e Victor IV). O imperador Frederico I, apoiou o papa Victor IV, declarando guerra aos estados italianos e especialmente a Igreja Romana que desfrutava de grande autoridade. Alexandre III, acabou vencendo o conflito e convoca um concílio para estabelecer a conclusão da paz.    Além de resolver a dissidência entre o papado e o imperador, o concílio também reforçou a unidade e o poder da Igreja. O cânone 27 desse concílio excomunga os hereges chamados cátaros, patarinos e publicanos e faz um apelo aos príncipes para que defendam a fé cristã. Os cátaros e seus seguidores estavam sob anátema, ninguém poderia ajudá-los ou abrigá-los em suas terras, pois alguns senhores feudais os protegiam. Se alguma pessoa morresse como herege não poderia ser recebido ou enterrado entre os cristãos, os bens dos hereges serão confiscados. Porém os hereges que se arrependessem obteriam o perdão e a recompensa eterna, sendo concedido indulgências para quem colaborasse na descoberta de hereges. Os bispos e padres que não combaterem os hereges e seus erros, seriam punidos com a perda de seus cargos, até obterem o perdão.    Neste concílio, também são excomungados no mesmo cânone os bandidos e mercenários que devastavam a província de Narbona, desrespeitando igrejas, maltratando crianças, viúvas e órfãos, como se fossem pagãos.    Mesmo que este concílio não tivesse a intenção da repressão armada contra os heréticos, estes são excomungados e deveriam receber o mesmo tratamento dispensado aos mercenários, pois ambos interferiam no poder da Igreja. Contudo, as decisões tomadas durante este concílio não são aplicadas e os legados do papa não conseguem impedir os progressos do catarismo no Languedoc.    Com a queda de Jerusalém em 1187, que passou as mãos dos infiéis, a heresia no Languedoc foi um pouco esquecida. Contudo, quando Inocêncio III assume em 1198 o trono pontifical enviaria novos legados a província de Narbona, recomeçando a repressão.    Em 1215, realiza-se o IV Concílio de Latrão, presidido pelo papa Inocêncio III. Neste concílio, são anatematizados novamente todos os hereges, os condenados serão entregues as regras seculares, e confiscadas suas propriedades. Os suspeitos de heresias a menos que provassem sua inocência através de uma defesa, serão anatematizados e evitados por todos até se justificarem, mas se estiverem sob excomunhão por um ano serão condenados como hereges. Autoridades seculares deveriam combater a heresia, caso contrário poderiam ser excomungados pelo bispo da província e se não se justificassem no prazo de um ano, o problema passaria ao supremo pontífice, que poderá oferecer o território para ser administrado por católicos fiéis. Os acusados de heresia não poderão tomar parte da vida pública, nem julgar ou herdar, nem eleger pessoas ou dar testemunhos em um tribunal de justiça. Este concílio acabará confirmando o que já havia sido proposto no III Concílio de Latrão, tentara repreender os hereges, através da exclusão da sociedade, instigando seus membros a participarem da repressão em nome da fé cristã, a excomunhão seria o princípio de um processo que se tornaria violento. Um processo que eliminará qualquer tentativa de fé que diferencie dos dogmas instituídos pela Igreja Católica.



3ª PARTE



3ª PARTE

Em 1206, chegaram ao Languedoc o bispo espanhol Diego de Osma, acompanhado pelo subprior Domingos de Guzman, estes pretendiam instruir as massas ignorantes no catolicismo através da pregação. Obtiveram alguns êxitos, porém o assassinato de Pierre de Casstelnau (legado do papa), em 1208, precipitou uma mudança na condução política da Igreja.

O conde Raimundo de Toulouse, era suspeito do assassinato, sendo excomungado pelo papa Inocêncio III, que escreveu ao rei da França, Filipe Augusto, para  expulsar o acusado dos Estados do Languedoc, ordenando uma cruzada contra Raimundo VI.
O novo legado do papa, Amaury, anunciou a cruzada contra os cátaros e contra os senhores que os protegiam. Um exército mercenário comandado por Simão de Montfort, declarou guerra ao vice condado de Trencavel, que estava sob protecção de Raimundo VI e Rogério de Trencavel. Raimundo VI, teve que se humilhar ante a Igreja, e acabou perdendo seus domínios. 
Na primeira fase da cruzada, foram destruídas as cidades de Béziers (1209), onde 60.000 pessoas morreram. Destruída a cidade, os cruzados, marcham papa Carcassone, onde Raimundo VI foi preso, acabando por morrer na prisão. Simão de Montfort, se apossa dos condados de Trencavel (Carcassone, Béziers), conquistando também Alzonne, Franjeaux, Castres, Mirepoix, Pamiera e Albi. Minerve, foi sitiada em 1210,sendo queimadas 140 pessoas. A próxima conquista seria Corbiéres, chegando até a cidade de Puivert.
O conde de Toulouse, tinha como aliado o conde de Foix, o conde de Comminges e o visconde de Béarn. Em 1212, estabelece-se uma coligação entre Pedro de Aragão e Raimundo VI, Simão de Montfort derrotou-os na batalha de Muret (1213), onde Pedro acabou morrendo.
O IV Concílio de Latrão, confirmou as possessões de Montfort, além de propiciar a conciliação dos senhores do Sul com a Igreja, com o compromisso de perseguirem a heresia.
Em 1216, a Provença subleva-se e Montfort trava nova batalha contra os hereges. Com a morte de Inocêncio III, coube a Honório III, lançar uma nova cruzada. Raimundo VII, filho de Raimundo VI, obteve vitória sobre Montfort, na batalha de Beaucaire. Simão morre em 1218, acabando também a cruzada, sem entretanto extinguir a heresia. Amaury, filho de Montfort, oferece as terras conquistadas por seu pai a Filipe Augusto, rei da França que as recusa, seu filho Luís VIII acabará aceitando as terras.
Porém, Raimundo VII, entra em luta com Amaury, para retomar o seu feudo no Languedoc. Em 1224, Luís VIII, liderando os barões do Norte, empreendeu uma nova cruzada que durou cerca de três anos alcançando muitas conquistas até chegar a Avignon, onde termina o cerco contra os hereges. O resultado dessa disputa foi um acordo entre o rei da França e Raimundo VII, pelo qual a filha de Raimundo se casaria com um irmão do rei, consequentemente os domínios disputados passariam para a Coroa da França (tratado de Meaux, 1229). Raimundo VII, teve que se submeter ao rei da França, sendo coagido a reconhecer a vontade da Igreja e atacar a heresia.
A partir de 1240, verifica-se novas revoltas no Midi. Numa revolta em Avignoret, alguns inquisidores são assassinados, como consequência a cidade foi conquistada, e retomada a cruzada.
Montségur, o grande reduto dos cátaros, é atacado e tomado de assalto em 1243. Durante o ataque os cátaros, conseguiram retirar seu "tesouro" do castelo e escondê-lo (alguns acreditam que se tratava de riquezas, outros que o tesouro eram livros ou então apenas alusão a sabedoria dos Perfeitos). A queda de Montségur marca o fim da Igreja Cátara organizada. Alguns sobreviventes se refugiaram na Catalunha e na Itália. Uma outra fortaleza a de Quéribus, caíra em 1255.
Pierre Authié, adepto do catarismo, continua a divulgar a doutrina, sendo preso em 1310, quando se dirigia a Castelnaudary e condenado a morte na fogueira. Guillaume Bélibaste e Philippe d’Alayrac, ambos cátaros, fogem da prisão em Carcassone. Philippe acaba sendo capturado e queimado. Bélibaste refugia-se em Mosella, nas montanhas de Valença, e acaba sendo traído por Arnaud Sicre (de família cátara), que tentava reconquistar os bens de sua família, espionando para a Inquisição. O último ministro cátaro, fora queimado em Villerouge-Termenès, em Corbiéres, por ordem do arcebispo de Narbone, em 1321.
A instauração da Inquisição, está ligado ao momento em que a Igreja se torna parte de um sistema institucionalizado de dominação feudal. Com o triunfo do catolicismo no Baixo-império Romano, no século IV, a Igreja e o Estado se estabelecem com identidade de interesses, a heresia passa a identificar-se como crime político. Entre os séculos V e IX, a Igreja foi consolidando sua hegemonia, impondo uma unidade ritual, buscando unir as diversidades religiosas.     Em 1216, institui-se a ordem mendicante dos pregadores de S. Domingos. Com o objetivo de não só pregar a fé católica, mas de agir em sua defesa. Pouco depois, nasceria a ideia de um tribunal organizado no combate as dissidências religiosas. A heresia cátara fornece ao papado a oportunidade de transformar em realidade o seu poder político repressivo. No ano de 1233, o papa Gregório IX, promulga duas bulas, nas quais decide mandar monges dominicanos aos locais onde havia focos heréticos. E em 1252, uma bula do papa Inocêncio IV, completará o processo de institucionalização da Inquisição como tribunal.
Durante os processos inquisitórios, não era permitido a defesa legal, sendo proibido o apelo à sentença. A tortura seria aplicada não só aos acusados, mas também aos que os acobertassem. S. Agostinho, considerava a tortura um meio útil para devolver ao rebanho as ovelhas desgarradas, já que estas só causariam dano a sociedade.
O papa era o inquisidor-mor, lhe cabendo a incumbência de designar inquisidores. Os inquisidores dominicanos, chegaram a França, em 1233, onde foi instalado o primeiro tribunal permanente da Inquisição. As violências e perseguições se salientaram entre os anos de 1277-1278, os inquisidores chegaram a ser repelidos em Béziers e Carcassone (1296), pelo povo e pelas autoridades municipais, havendo uma queda na simpatia popular da Inquisição.
O catarismo desaparecerá completamente do território francês, após ter sido extirpada de Montaillou, última aldeia francesa que ainda sustentava esta heresia no início do século XIV.
A Igreja Católica usou de vários meios para eliminar a heresia, no início tentou converter os hereges pela pregação dos monges, depois através da excomunhão dos pecadores, e finalmente o que obteve maior resultado a Inquisição. As heresias acabaram por alertar a Igreja para seus problemas espirituais e de que seria necessário uma reforma, principalmente no que se refere a corrupção do clero. Porém a maior crítica à Igreja da Idade Média, centrasse no abuso de seu poder, a opressão  à liberdade religiosa, à liberdade de consciência, ao direito de escolher.
O movimento herético cátaro (séc. XII-XIV), é importante para se compreender os processos utilizados pela Igreja na repressão. A instauração da Inquisição que ocorre nesse período, perpetua-se até o século XIX.
Durante o período das perseguições as igrejas cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de crentes. A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.
Devido à propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combate-la, sendo que no início tentava os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando trágicas medidas, pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo. Vemos aqui um motivo político para investidas contra as comunidades cátaras e sua doutrina. Poderia haver outros motivos para tais investidas? 
A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia à província de Narbona, somente a região de Albi ligada à província de Bourges. O Languedoc é anexado a França em 1229 pelo Tratado de Meaux. O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc pode ser explicado pela situação política da região, independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.
O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo).
De acordo com este cenário, temos um motivo político para que a Igreja promova mais uma cruzada. Compondo as “Cruzadas do Ocidente”, a Cruzada Albigense vem por objetivo acabar com a heresia cátara no sul da França.
Em 1206, chegou ao Languedoc o bispo espanhol Diego de Osma, acompanhado pelo superior Domingos de Guzman, estes pretendiam instruir as massas ignorantes no catolicismo através da pregação. Obtiveram alguns êxitos, porém o assassinato de Pierre de Castelnau (legado do papa), em 1208, precipitou uma mudança na condução política da Igreja. Qual seria o motivo do assassinato? Seria os bispos apenas um ardil para um plano já definido de repressão violenta? Qual seria o real objetivo desta cruzada?
O conde Raimundo de Toulouse era o suspeito do assassinato, sendo excomungado pelo papa Inocêncio III, que escreveu ao rei da França, Felipe Augusto, para expulsar o acusado dos estados do Languedoc, ordenando uma cruzada contra Raimundo VI.
O novo legado do papa, Amaury, anunciou a cruzada contra os cátaros e contra os senhores que os protegiam. Um exército mercenário comandado por Simão de Montfort declarou guerra ao vice condado de Trencavel, que estava sob proteção de Raimundo VI e Rogério de Trencavel. Raimundo VI teve que se humilhar ante a igreja, e acabou perdendo seus domínios. 
Na primeira fase da cruzada, foram destruídas as cidades de Béziers (1209), onde 60.000 pessoas morreram. Destruída a cidade, os cruzados marcham para Carcassonne, onde Raimundo VI foi preso, acabando por morrer na prisão. Simão de Montfort se apossa dos condados de Trencavel (carcassone, Béziers), conquistando também Alzonne, Franjeaux, Castres, Mirepoix, Pamiera e Albi.
Em 1216, ouve outra investida contra os cátaros. Desta vez, Raimundo VII, filho de Raimundo VI, obtém vitória contra Montfort, na batalha de Beaucaire. Simão morre em 1218, acabando também a cruzada, sem, entretanto, extinguir a heresia. Amaury, filho de Montfort, oferece as terras conquistadas por seu pai a Felipe Augusto, rei da França que as recusa, seu filho Luís VIII acabará aceitando as terras. Raimundo VII entra em luta com Amaury para retomar seu feudo em Languedoc. Em 1224 Luís VIII liderando os barões do norte, empreendeu uma nova cruzada que durou cerca de três anos alcançando muitas conquistas até chegar a Avignon, onde termina o cerco contra os hereges. O resultado dessa disputa foi um acordo entre o rei da França e consequentemente que os domínios disputados passariam para a coroa da França (Tratado de Meaux, 1229). Raimundo VII teve que se submeter ao rei da França, sendo coagido a reconhecer a vontade da Igreja e atacar a heresia. 
As cruzadas contra os albigenses duraram cerca de 50 anos.




ERASMO



ERASMO

Desiderius Erasmus Roterodamus, conhecido como Erasmo de Roterdão ou Erasmo de Roterdão, (nascido provavelmente a 27 de Outubro de 1466 em Roterdão e falecido a 12 de Julho de 1536 em Basileia) foi um teólogo e um humanista neerlandês.

Ele nasceu em Geert Geertsen, em Roterdão, Holanda do Sul, Países Baixos. Ele acreditava (erroneamente) que a raiz da palavra "Geert" tivesse origem em begeren (desejar) e traduziu isto para o latim e para o grego. A informação sobre a sua família e sobre a sua juventude é vagamente referida nos seus escritos. Ele era quase seguramente filho ilegítimo. O seu pai foi um padre chamado Gerard. Pouco se sabe sobre a sua mãe para além do nome: Margarete. Apesar de ilegítimo, os seus pais tomaram conta dele até às suas mortes prematuras, com a peste negra, em 1483. Nessa altura a sua educação ficou a cargo de uma série de mosteiros, e foi uma educação exemplar, a melhor possível a um jovem do seu tempo.
Realizou os votos monásticos aos 25 anos, aproximadamente. Contudo, diz-se que nunca viveu como tal, sendo inclusive um grande crítico da vida monástica e das características que julgava negativas na Igreja.
Frequentou o Collège Montaigu em Paris e continuou os seus estudos na Universidade de Paris, então o principal centro da escolástica, apesar da influência crescente do Renascimento da cultura clássica, que chegava de Itália. Erasmo optou por uma vida de académico independente, independente de país, independente de laços académicos, de lealdade religiosa, e de tudo que pudesse interferir com a sua liberdade intelectual e a sua expressão literária.
Os principais centros da sua atividade foram Paris, Louvain, Inglaterra e Basileia. No entanto, nunca pertenceu firmemente a nenhum destes sítios. O seu tempo em Inglaterra foi frutuoso, tendo feito amizades para a vida com os líderes ingleses, mesmo nos dias tumultuosos do rei Henrique VIII: John Colet, Thomas More, Thomas Linacre e Willian Grocyn. Na Universidade de Cambridge foi o professor da divindade de Lady Margaret e teve a opção de passar o resto de sua vida como professor de inglês. Ele esteve no Queens' College, em Cambridge e é possível que tenha sido alumnus.
Foram-lhe oferecidas várias posições de honra e proveito através do mundo académico, mas ele declinou-as todas, preferindo a incerteza, tendo no entanto receitas suficientes da sua atividade literária independente.
Entre 1506 e 1509 esteve em Itália. Passou ali uma parte do seu tempo na casa editorial de Aldus Manatius em Veneza. Apesar disto, teve uma associação com académicos italianos menos ativa do que se esperava.
A sua residência em Louvain expôs Erasmo a muitas críticas mesquinhas por parte daqueles que eram hostis aos princípios do progresso literário e religioso aos quais ele devotava a vida. Ele interpretava esta falta de simpatia como uma perseguição e procurou refúgio em Basileia, onde, sob abrigo de hospitalidade suíça, pôde expressar-se livremente e onde estava rodeado de amigos. Foi lá que ele esteve associado por muitos anos com o grande editor Froben, e aonde uma multidão de admiradores de (quase) todos os cantos da Europa o veio visitar.
A produtividade literária de Erasmo começou relativamente tarde na sua vida. Apenas quando ele dominou o Latim é que começou a escrever sobre grandes temas contemporâneos em Literatura e em Religião.
A sua revolta contra as formas de vida da igreja não resultou tanto de dúvidas quanto à verdade da doutrina tradicional, nem de alguma hostilidade para com a organização da Igreja. Sentiu antes a necessidade de aplicar os seus conhecimentos na purificação da doutrina e na liberalização das instituições do cristianismo.
Como académico, tentou libertar os métodos da Escolástica da rigidez e do formalismo das tradições medievais, mas não ficou satisfeito. Ele viu-se como o pregador da retidão. A sua convicção em toda a vida foi que o que era necessário para regenerar a Europa era uma aprendizagem sã, aplicada liberalmente e sem receios pela administração de assuntos públicos da Igreja e do Estado. Esta convicção confere unidade e consistência a uma vida que, de outra forma, pode parecer plena de contradições. Erasmo viu-se livre e distante de quaisquer obrigações comprometedoras; no entanto Erasmo foi, num sentido singularmente verdadeiro, o centro do movimento literário do seu tempo. Ele correspondeu com mais de quinhentos homens da maior importância no mundo da política e do pensamento, e o seu conselho em vários assuntos era procurado avidamente, se bem que nem sempre seguido.
Aquando da sua estadia em Inglaterra, Erasmo iniciou a examinação sistemática dos manuscritos do Novo Testamento, por forma a preparar uma nova edição e uma tradução para Latim. Esta edição foi publicada por Froben de Basileia em 1516 e foi a base da maioria dos estudos científicos da Bíblia durante o período da Reforma.
Ele publicou uma edição crítica do Novo Testamento Grego em 1516 - Novum Instrumentum omne, diligenter ab Erasmo Rot. Recognitum et Emendatum. A edição incluiu uma tradução em Latim e anotações. Baseou-se também em manuscritos adicionais recentemente descobertos.
Na segunda edição, o termo mais familiar "Testamentum" foi usado em vez de "Instrumentum". Esta edição foi usada pelos tradutores da versão da Bíblia do Rei Jaime I de Inglaterra. O texto ficou conhecido mais tarde como o textus receptus. Erasmo publicou mais três edições - 1522, 1527 e 1535. Foi a primeira tentativa por parte de um académico competente e liberal de averiguar aquilo que os escritores do Novo Testamento tinham efetivamente dito. Erasmo dedicou o seu trabalho ao Papa Leão X, como patrono da aprendizagem, e considerou o seu trabalho como o seu principal serviço à causa do Cristianismo. Imediatamente depois, começou a publicação das suas paráfrases do Novo Testamento, uma apresentação popular do conteúdo de vários livros. Este, como todos os seus livros, foi publicado em Latim, mas as suas obras eram imediatamente traduzidas noutras línguas, com o seu encorajamento.  

LUTERO



LUTERO

Lutero Precursor da Reforma Protestante na Europa, Lutero nasceu na Alemanha no ano de 1483 e fez parte da ordem agostiniana. Em 1507, ele foi ordenado padre, mas devido as suas ideias que eram contrárias as pregadas pela igreja católica, ele foi excomungado. 
Sua doutrina, salvação pela fé, foi considerada desafiadora pelo clero católico, pois abordava assuntos considerados até então pertencentes somente ao papado. Contudo, esta foi plenamente espalhada, e suas inúmeras formas de divulgação não caíram no esquecimento, ao contrário, suas ideias foram levadas adiante e a partir do século XVI, foram criadas as primeiras igrejas luteranas.  

Apesar do resultado, inicialmente o reformador não teve a pretensão de dividir o povo cristão, mas devido à proporção que suas 95 teses adquiriram, este fato foi inevitável. Para que todos tivessem acesso as escrituras que, até então, encontravam-se somente em latim, ele traduziu a Bíblia para o idioma alemão, permitindo a todos um conhecimento que durante muito tempo foi guardado somente pela igreja.  
Com um número maior de leitores do livro sagrado, a quantidade de protestantes aumentou consideravelmente e entre eles, encontravam-se muitos radicais. Precisou ser protegido durante 25 anos. Para sua proteção, ele contava com o apoio do Sábio Frederico, da Saxónia.  
Foi responsável pela organização de muitas comunidades evangélicas e, durante este período, percebeu que seus ensinamentos conduziam a divisão. Casou-se com a monja Katharina Von Bora, no ano de 1525, e teve seis filhos. 
A Igreja Católica vinha, desde o final da Idade Média, perdendo sua identidade. Gastos com luxo e preocupações materiais estavam tirando o objetivo católico dos trilhos. Muitos elementos do clero estavam desrespeitando as regras religiosas, principalmente o que diz respeito ao celibato. Padres que mal sabiam rezar uma missa e comandar os rituais, deixavam a população insatisfeita.
A burguesia comercial, em plena expansão no século XVI, estava cada vez mais inconformada, pois os clérigos católicos estavam condenando seu trabalho. O lucro e os juros, típicos de um capitalismo emergente, eram vistos como práticas condenáveis pelos religiosos.
Por outro lado, o papa arrecadava dinheiro para a construção da basílica de São Pedro em Roma, com a venda das indulgências (venda do perdão).
No campo político, os reis estavam descontentes com o papa, pois este interferia muito nos comandos que eram próprios da realeza.
O novo pensamento renascentista também fazia oposição aos preceitos da Igreja. O homem renascentista, começava a ler mais e formar uma opinião cada vez mais crítica. Trabalhadores urbanos, com mais acesso a livros, começaram a discutir e a pensar sobre as coisas do mundo. Um pensamento baseado na ciência e na busca da verdade através de experiências e da razão. 
A Reforma Luterana
O monge alemão Martinho Lutero foi um dos primeiros a contestar fortemente os dogmas da Igreja Católica. Afixou na porta da Igreja de Wittenberg as 95 teses que criticavam vários pontos da doutrina católica.
As 95 teses de Martinho Lutero condenava a venda de indulgências e propunha a fundação do luteranismo (religião luterana). De acordo com Lutero, a salvação do homem ocorria pelos atos praticados em vida e pela fé. Embora tenha sido contrário ao comércio, teve grande apoio dos reis e príncipes da época. Nas suas teses, condenou o culto à imagens e revogou o celibato. 
Na França, João Calvino começou a Reforma Luterana no ano de 1534. De acordo com Calvino a salvação da alma ocorria pelo trabalho justo e honesto. Essa ideia calvinista, atraiu muitos burgueses e banqueiros para o calvinismo. Muitos trabalhadores também viram nesta nova religião uma forma de ficar em paz com sua religiosidade. Calvino também defendeu a ideia da predestinação.
Na Inglaterra, o rei Henrique VIII rompeu com o papado, após este se recusar a cancelar o casamento do rei. Henrique VIII funda o anglicanismo e aumenta seu poder e suas posses, já que retirou da Igreja Católica uma grande quantidade de terras.
Preocupados com os avanços do protestantismo e com a perda de fiéis, bispos e papas reúnem-se na cidade italiana de Trento ( Concílio de Trento ) com o objetivo de traçar um plano de reação. No Concílio de Trento ficou definido: 
- Catequização dos habitantes de terras descobertas, através da ação dos jesuítas;
- Retomada do Tribunal do Santo Ofício - Inquisição : punir e condenar os acusados de heresias
- Criação do Index Librorium Proibitorium ( Índice de Livros Proibidos ) : evitar a propagação de ideias contrárias à Igreja Católica.
Intolerância
Em muitos países europeus as minorias religiosas foram perseguidas e muitas guerras religiosas ocorreram, frutos do radicalismo. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), por exemplo, colocou católicos e protestantes em guerra por motivos puramente religiosos. Na França, o rei mandou assassinar milhares de calvinistas na chamada Noite de São Bartolomeu.

DAMIÃO DE GÓIS



DAMIÃO DE GÓIS

Escritor, humanista português - 1502-1574 - obra de várias Fontes.

Em 1502: Nasce Damião de Góis, em Alenquer. - 1511: Entra para o Paço da Ribeira como pajem do rei D. Manuel. - 1523: É mandado para a Flandres como escrivão da Feitoria; visita Friburgo para conhecer Erasmo - 1529: Parte em missão de D. João III para Dantzig, Vilna, Posen e Cracóvia: - 1531: De novo em missão real vai à Dinamarca; passa por Witemberg onde conhece Lutero e Melanchton; regressa a Antuérpia e fixa-se depois em Lovaina. - 1532: Publica em latim Legation Magni Indoru. - 1533: É chamado a Lisboa, convidado para tesoureiro da Casa da India, recusa o cargo e vai em peregrinação a Santiago de Compostela. - 1534: Viaja a Estrasburgo e depois a Friburgo onde é hóspede de Erasmo durante quatro meses; inscreve-se como estudante na Universidade de Pádua. - 1538: Publica em Veneza o Livro de Marco Tulio Cícero, em latim. - 1539: Casa em Lovaina com Joana van Hargen; matricula-se na Universidade de Lovaina; publica os Comentari Rerum Gestarum in India. - 1540: Publica Fides, Religio Moresque Aethiopum - 1541: Sai em Lovaina Hispaniae Urbis Ubertia et Potentia. - 1542: Lovaina é atacada pelos franceses; Damião de Góis é um dos que mais se distingue na defesa da cidade; é feito prisioneiro e libertado após intervenção de D. João III. - 1544: Publica Aliquot Opuscula. - 1545: Regressa a Portugal. - 1546: Sai em Lisboa, Urbis Lovaniensis Obsidio. - 1548: É nomeado guarda-mor da torre do Tombo. - 1554: Publica, em Évora, Urbis Olisiponensis Descriptio - 1559: O regente cardeal D. Henrique encarrega-o de escrever a Crónica de D. Manuel. - 1566: Saem, em português, a 1ª e a 2ª Partes da Crónica de D. Manuel. - 1567: Saem as 3ª e 4ª Partes da Crónica de D. Manuel e a Crónica do Príncipe D. João. - 1571: É preso pela Inquisição. - 1572: Em Outubro é condenado a prisão perpétua no mosteiro da Batalha. - 1574: Morre em sua casa de Alenquer, segundo parece, assassinado.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro
 Marinha Grande – Portugal



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

“AMOR, SONHO & EROTISMO”- (Coscuvilhices)


AMOR, SONHO  &  EROTISMO” (Coscuvilhices) 
de Carlos Leite Ribeiro


“Minha querida amiga!

Ainda bem que te encontro, pois, tenho andado abafada e desejosa de desabafar com alguém, de confiança!

Ai, mas deixa-me abanar-me, abana-me com este meu abano, pois estou cheia de calor...
Vê lá tu, minha querida que dantes o “monumento”, que lá tenho em casa (o meu marido), cada vez repara menos em mim.

Dantes, ainda era assim, como de género de coelho: rápido, não eficiente e, a cair logo para o lado. Mas agora, nem isso!

Desde há meses que sai todas as noites, alegando que vai fazer “umas novenas”; mas devem ser “novenas” muito contínuas, para a paz no mundo (segundo ele diz).

Se todos fizerem como ele, o que podem originar essas “novenas” é uma guerra sem quartel entre as mulheres, que pretendem a paz, e outras coisas mais – compreendes, não compreendes, minha querida amiga?
Chega a casa de madrugada.

Chego-me para ele, logo me diz que estou fria. Acendo a luz, diz que precisa de descansar e dormir, com a luz apagada. Tento dar-lhe beijos, diz que eu não lavei os dentes; mexo-lhe nos mamilos, diz que tem cócegas; toque-lhe abaixo do umbigo, diz que fico com as mãos sujas; se lhe digo que tenho “um buraquinho”, diz para o tapar com a roupa pois está sentindo frio.

Nem sei o que lhe hei-de fazer, para ele compreender que sou saudável e carente.

Ai que vida esta, a minha...
Ai, deixa-me abanar, que calores, que falta de ar...
Já tentei ir ao cabeleireiro, fazer uma linda permanente, toda aos caracolinhos. Quando na cama me cheguei mais a ele, logo me disse :

- Ó mulher, chega-te para lá que cheiras a óleo e a laca para o cabelo.

Outro dia, fiz uma depilação total (estava linda!), mas, quando lhe mostrei meu corpo, logo ele me disse, escondendo a cabeça entre os lençóis:

- Tapa-te e sai rapidamente daqui, pois, ainda posso vir a ser considerado pedófilo!

 Isto que me está a acontecer, nem dá para acreditar “!

Que calor... Que falta de ar...
Só sabe dizer que, para se considerar realizado, só lhe falta escrever um livro, pois, já plantou uma árvore e já foi pai  (ele diz isto cá com uma certeza…mas eu tenho certas dúvidas...).
Sabes minha querida amiga: - Já tentei arranjar “algo” que fosse bom para a minha estabilidade psicológica. Conheci um moço que era de “tirar a ceia” a qualquer mulher, que andava ultimamente muito triste. Logo pensei que teria problemas com a mulher... 

Aproximei-me dele e, secretamente, combinámos irmos a uma prainha deserta para “falarmos” das nossas vidas. Fomos, numa noite linda com um lindo luar. Falei-lhe da minha vida conjugal (com todos os pormenores); e não é que, quando lhe pedi para ele falar da vida dele, começou a chorar e a soluçar em altos berros, clamando:

- “Sou um desgraçado, pois, o meu “namorado Quim”, casou com uma mulher!

Imagina, querida amiga, eu a pensar que tinha arranjado uma “coisa boa” , para acalmar estes calores, (mais reais do que psicológicos), fui-me meter com a “concorrência!
Ai, deixa-me abanar pois cada vez tenho mais calor...
Mas eu ando cá desconfiada com uma coisa: A Micas, aconselhou-me a comprar uma bateria quadrada e, durante a noite enquanto ele dormia, a esfregar a tal bateria pelas costas e partes mais sensíveis, que, segundo ela, dar-lhe-ia muita força e vitalidade, capaz de levantar o “termómetro” até rebentar...

Claro que naquela noite, tentei fazer esta experiência.

Sabes o que aconteceu?

Depois de ter esfregado a tal bateria pelo peito, ele virou-se de costas, perguntando se a bateria era redonda. Disse-lhe que era quadrada. Logo respondeu:

- Então não serve!
Minha querida amiga, deixa-me abanar, abanar, pois estes calores dão cabo de mim...


Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande
  Portugal