segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

VAMOS FALAR DE DINOSSAUROS?



Vamos falar de Dinossauros? - de Carlos Leite Ribeiro 

É um sketches radiofónico que passou em várias Rádios portuguesas, com êxito. Foi para o ar em 86 ou em 87. Calhou a um feriado de uma noite muito chuvosa e na rádio onde trabalhava, a colaboração dos ouvintes foi mesmo fora de série. O sonoplasta ia dando em doido com tantos telefonemas com as mais variadas e engraçadas opiniões. Uma noite bem divertida. Uns colegas de uma rádio de Leiria, vieram para a rua fazer uma reportagem entre os transeuntes e uma ouvinte afirmou perentoriamente que foi casada (com ele) e que a D. Fúfia era uma simples amante!
Velhos tempos!...

O nome Dinossauros (do grego "deinos" ou seja terrível e sauro e "lagarto") é na realidade uma denominação abrangente que envolve cerca de sete "grupos" de répteis fósseis. Os saurópodes eram animais frequentemente de grande porte, quadrúpedes e herbívoros possuindo um longo pescoço e uma cabeça comparativamente pequena, enquanto os terópodes eram répteis bípedes, predominantemente carnívoros, com membros anteriores curtos e dotados de garras e cabeça avantajada com número considerável de dentes afiados.
E posto isto, vamos começar com a nossa história...

ACHADO ARQUEOLÓGICO

Num dia de sol ardente, estava o José Pinoca a fazer umas escavações numa terra em Riba d` Aves, para a construção de uma casa; (Riba d`Aves, para aqueles que não sabem, fica a cerca de 10 km da cidade de Leiria).
.A certa altura das escavações, o Pinoca começou a encontrar uns ossos, e pensou para si:
- Olha que engraçado encontrei uns ossos. Mas eles têm formas esquisitas.
Voltando-se para os trabalhadores que o estavam a ajudar nas escavações, disse-lhes: "
- Amigos, por hoje chega. Podem ir para as vossas casas descansar!
Muito intrigado com o achado, o Pinoca dirigiu-se rapidamente a casa para ir contar a sua mulher, a D. Piquita, a boa nova, pois, se fosse aquilo que ele julgava ser, ia-lhe dar uns dinheiritos na sua exploração.
- Piquita, Piquita ... Ó mulher, estás aí?
A mulher quando o ouviu falar assim tão alto e aflito, começou logo a descer as escadas e por fim respondeu-lhe:
- Sim homem, estou aqui. Aonde é que querias que eu estivesse?
Ó mulher, tu nem calculas o que é que eu encontrei nas escavações que estou a fazer, ali na charneca.
Tentando dizer alguma coisa com graça, a Piquita respondeu-lhe:

- Pela tua cara, deixa cá ver, deixa cá ver: já sei, encontraste uma cobra! - Disse-lhe a mulher em tom de gozo.
- Qual cobra qual carapuça! Encontrei uns ossos que não sei de quem poderão ser. Percebeste agora, mulher?
- Ó homem, eu não sou estúpida de todo e já compreendi há muito tempo o que tu encontraste. Mas diz-me uma coisa: já foste falar com o coveiro do cemitério?
José Pinoca, antes de responder à mulher, sentou-se num banco e só depois lhe respondeu:

- Minha esperta esposa, é lógico que não fui falar com o coveiro, pois vim logo para casa e além disso, estou muito cansado. Talvez amanhã vá. Entretanto, estava a esquecer de algo muito importante. Peço à minha querida "comandante - esposa" que não vá contar isto a ninguém.
A D.Piquita tirou o avental, compôs o cabelo a pôs-se em posição de sentido, respondendo ao marido:
- Muito bem. O meu excelentíssimo e digníssimo “comandante e marido” quer que eu guarde mais alguma coisa, ou esta novidade chega?
O Pinoca sorriu.
No outro dia logo pela manhã, o José Pinoca foi ter com o seu compadre Malaquias, que ao avistá-lo, logo o saudou:
- Olha o compadre José Pinoca! Então o que o trás por cá?
- Compadre, nem sei como hei-de começar...
O Malaquias começou a ficar muito curioso e desconfiado com aquela visita do Pinoca e, em determinada altura disse-lhe:
- Não sei o que me quer, mas desde já lhe digo que esteja à vontade comigo. Vá lá, diga-me lá o que me quer me dizer.
- Então aqui vai. Sabe, eu tenho andado a fazer uns alicerces para uma casa e, qual o meu espanto quando em determinada altura encontrei uns ossos algo esquisitos. Ora, como você é perito nesta matéria de ossos (pois é coveiro), gostava de saber se aqueles ossos são ou não humanos.
Embora algo admirado, o Malaquias não "desarmou" e com uma certa vaidade, respondeu ao Tinoca:
- Fez muito bem em vir ter comigo, pois como diz (e muito bem) eu sou um grande especialista em ossos. Vamos então lá ver esse seu achado.
E lá foram os dois compadres a caminho das fundações para a tal casa. Ao chegar ao local, logo o Malaquias se meteu na vala para melhor examinar os ossos. Depois de um demorado exame, saltou da vala, encarou o compadre, tossiu, piscou os olhos e com ar de pessoa "muito entendida no assunto" expressou-lhe a sua avalizada opinião:
- Compadre... São ossadas de dinossauro!".
- Ó compadre, estou tão nervoso que nem sei se chore se me ria. Olhe lá, e se fossemos contar o sucedido à D. Fúfia?".
- Sou da sua opinião, amigo Pinoca!
E os dois compadres dirigiram-se a casa da D.Fúfia, uma senhora de certa idade, que não era nada bonita, mas que há muito tinha aprendido a comer com faca e garfo. Chegaram e logo bateram à porta. Do outro lado respondeu-lhes uma voz muito rouca e autoritária:
- Quem é?
Depois dos compadres se terem identificado, a D.Fúfia veio abrir-lhes a porta com o seu ar quase marcial, olhando-os por cima dos seus óculos encarrapitados no seu quase adunco nariz.
- Olá. Entrem, entrem e ponham-se à vontade. Querem um chazinho? Pelas vossas caras estou mesmo a ver o que vocês queriam era aquilo que eu, para o conseguir beber, tenho sempre que fechar os olhos, ou seja, um bom vinho. Mas infelizmente bebi ainda há pouco a última pinguinha que tinha cá em casa.
- D.Fúfia, por favor não se incomode "cá com a gente – respondeu-lhe o Malaquias, e logo o Pinoca concluiu:

- Para não maçar muito a senhora, podemos ir já direitos à questão que cá nos trouxe.
A senhora mais uma vez os convidou a sentarem-se, sentando-se em seguida, tirando antes de um cesto a sua enorme jiboia de estimação que a pôs ao pescoço.
- Digam-me lá então que questão é essa. Será para pedir dinheiro?
Os compadres sorriram e o Pinoca adiantou-se:
- " A questão, desta vez, não é de pedir dinheiro emprestado. É o seguinte, eu estava a fazer um buraco numa construção que ando a fazer perto da Lameira, e qual o meu espanto que em determinada altura encontrei umas ossadas, que aqui o nosso distinto coveiro diz que são ossos de dinossauro.

Ao ouvir isso, a D.Fúfia quase que deu um pulo na cadeira e, agarrando a jiboia com a mão esquerda e espetando o dedo indicador em direção dos compadres, logo deu a sua opinião:
- Ó gentes! Vocês tomem muito cuidado, pois o que encontraram pode ser uma manobra política/desportiva. Tomem muito cuidado, com essas máfias de por aí andam!”
O Pinoca ficou um tanto ou quanto atrapalhado e foi o seu compadre Malaquias que ousou perguntar à D.Fúfia:
- Então o que é que podemos fazer com as ossadas?
- Pois é... Deixem-me cá ver, deixem-me cá ver... Há já sei. Vocês vão já falar com o diretor do Museu de Arte Natural de Riba d` Aves, e apresentem-lhe este caso.
Em princípio, o Pinoca não estava nada, mas mesmo nada disposto a ir falar com o diretor do Museu, pois chegou a pensar que aquelas ossadas de dinossauro lhe podiam dar-lhe umas boas coroas (notas, cacau, pilim). Mas por fim e aproveitando a sugestão da D.Fúfia, lá foram os compadres falar com o tal diretor.
Algum tempo depois vieram uns técnicos de Lisboa e, ao fim de alguns meses o enorme esqueleto já se encontrava montado.
No dia da exposição para a apresentação ao público das ossadas do dinossauro, a D.Fúfia, embrulhada na sua enorme echarpe bolorenta e já com alguns buracos de traça e com a jiboia enrolada ao pescoço, orgulhosamente dizia a toda a gente que tinha sido dela a iniciativa para que as ossadas fossem entregues ao Museu.
Nisto aproximou-se mais do esqueleto para o melhor poder admirar, quando perante a estufacção geral deu um enorme grito e exclamou:
- Mas... Mas estas ossadas, são do meu querido e único namorado que tive e que morreu há mais de 60 anos!
E dizendo isto, caiu redondamente no chão.

Carlos Leite Ribeiro – Marinha Grande - Portugal

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O CIGARRO


O CIGARRO– de Carlos Leite Ribeiro


Maldito cigarro! Odeio-te!

Este descarado até parece que está a gozar comigo... Descarado!...
Tu bem sabes que és imundo; és porco, és malcheiroso - és nauseabundo!
Olha lá, cigarro: por acaso sabes a quantos milhões de pessoas já fizeste mal? E continuas a fazer?
Pois tu és um maldito!
E continuas impávido e sereno a prejudicar as pessoas. És cruel, impiedoso e asqueroso...
Eu, podia destruir-te neste momento - mas não o faço, pois, quero ver-te arder, destruindo-te como tu fazes aos teus apreciadores e a quem tem o desprivilegio de ter que de conviver com eles!
Há, lembrei-me agora de uma frase que já ouvi a alguns anos:
" Se Deus tivesse dimensionado o Homem para ser fumador, teria colocado uma chaminé na cabeça!"
Tu, cigarro, és um vaidoso, um pedante com a mania que és o melhor.
Passas a vida nos lábios de qualquer um, mas sempre, sempre a fazeres mal!
Tens uma vida sem glória, pois, ao fim de seres consumido, não és mais do que um monte de cinzas, e ninguém mais se lembrará mais de ti.
A tua vida é efémera, mas durante o teu curto reinado, podes provocar milhares de cancros (câncer).

Tu, cigarro, és um destruidor, um sádico, um paranoico: sinto-me nauseado com o teu sabor e com o teu cheiro:

Por isso vou dar-te o fim mais digno de ti:

"VOU ESMAGAR-TE DEBAIXO DOS MEUS PÉS !!!"

Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande  - Portugal 


S O L I D Ã O


S O L I D Ã O - Carlos Leite Ribeiro


Bem cedo habituei-me a estar só.
Já várias vezes tentei descrever a palavra "solidão" por gestos.
Fingi que chorava, assumi um ar desamparado e até murmurei o que pensei que fossem sons solitários. Mas a definição "solitário" é muito difícil de descrever - é mais fácil senti-la.
Saber distinguir entre sozinho e o solitário, pode ser importante, mas eu encontro alívio e paz na solidão.
Habituei-me à solidão.
Um escritor gosta de estar só, escrever como se tivesse a falar consigo próprio, sem precisar de gente para arrumar as cenas.
A solidão na juventude é triste porque até então não se aprendeu a arte de viver confortavelmente com ela. Em geral, só na maturidade é que a solidão se torna deliciosa.

Hoje, quando me sinto perplexo, procuro na solidão, na eloquência do silêncio, e espero que as respostas cheguem. E elas chegam ...
O escritor - um eremita na caverna da sua mente - muitas vezes é uma pessoa solitária. Mas a solidão também pode ser um doce sofrimento, ao que dizem, torna-nos mais sinceros.
Ao passarmos por uma rua movimentada, em geral passamos pelas pessoas sem olhar para elas. Porém, numa rua tranquila, quando nos aproximamos de uma pessoa sozinha, a cumprimentamos, e até falamos com ela. É um acto estranho, provocado pelo magnetismo inexplicável de duas pessoas que se sentem sós.
A ideia que eu tenho de um lugar perfeito para morar, é uma casa no meio dum pinhal, à beira de um lago, com muitos animais em redor, e da qual eu não pudesse ver outra qualquer. Nem mesmo uma chaminé distante, para não destruir a minha sensação de tranquilidade. De noite, as janelas iluminadas, são olhos curiosos que me espreitam.
Aqueles que vivem compreensivamente com a solidão, acham-na uma companheira tolerável, simpática e até empolgante.
Para quem gosta, a solidão tem os seus encantos.
Hoje, na minha idade, se eu fosse representar a solidão,
 havia de sorrir e fazer um ar satisfeito.