quarta-feira, 2 de novembro de 2016

ANTOLOGIA VIRTUAL OUTUBRO DE 2016. PORTAL CEN - "CÁ ESTAMOS NÓS"


ANTOLOGIA VIRTUAL OUTUBRO DE 2016. PORTAL CEN - "CÁ ESTAMOS NÓS"
XIX EDIÇÃO. TEMA LIVRE.
Parceria Portal CEN e Centro Cultural Maria Beatriz

Organização: Maria Beatriz Silva
(Assessora do Intercâmbio Cultural CEN - Brasil/Portugal)
Idealizador: Carlos Leite Ribeiro
(Presidente do Portal CEN – Portugal)

REALIZAÇÃO PORTAL CEN - "CÁ ESTAMOS NÓS"

Cumprindo com mais um dos nossos compromissos com os ilustres autores e colaboradores do CEN, concluímos a XIX edição da Antologia Virtual.

Com grande orgulho apresentamos aos inúmeros leitores desse majestoso Portal a grandiosa Coletânea Virtual do mês de outubro composta por renomados autores. Uma produção literária de talento, oferecendo uma leitura diversificada mostrando o “belo” que cada um tem para compartilhar. Adentre em cada página, desfrute de todo o conteúdo.

 Parabéns poetas e Escritores, que através de suas palavras em prosas e versos difundem pelo mundo o perfume do amor! Feliz caminhar!

AGRADECIMENTO:
Agradecemos imenso a todos que colaboraram para mais esse projeto de “divulgação internacional e direta.” Portal CEN – “Cá Estamos Nós”, Centro Cultural Maria Beatriz e seus Assessores.


AUTORES E COLABORADORES CEN


PARCEIRO: CCMB (Centro Cultural Maria Beatriz) de Laje do Muriaé (RJ) - Brasil


ADÉLIA EINSFELDT


Porto Alegre (RS) Brasil

CONSTRUÇÃO

Crio invento uma obra
em versos construo
pensamentos ao vento
elevam pontes

misturo sentimentos
amarro letras
rejunto palavras
edifico poesia

a estrada percorro
afasto entulhos

acima do telhado
pássaros reconstroem
destroçados ninhos.

Adélia Einsfeldt




ADRIANO COELHO PEIXOTO
Laje do Muriaé - RJ/Brasil

RELATO


Quem se esquece da morada
A destrói e destrói a si
Não se esqueça da sua amada
A natureza que aos poucos se esvai.

Homem tolo, acha que compra tudo
Destrói e reboca tudo de cimento e tristeza
Ao olhar por trás desse muro
Está ali clamando a mãe natureza.

Homem de pedra e cimento
Onde está seu sentimento?
Deixa-me adivinhar:
Ficou entre os rebocos e ranúnculos
do que eram árvores, a clamar.

Agora resta o brilho do sol no amanhecer
A vida brilha nesse feixe de viver
Agora resta à esperança de um novo despertar
Onde o ser humano acordasse, visse a obra de Deus, e se pusesse a respeitar.

Pois a vida tem valor e não preço
Tem um ciclo: término, meio e começo
Quem valoriza a vida, dela recebe apreço.
E deixa para as gerações futuras a esperança do recomeço.

Adriano Coelho Peixoto


AGAMENON ALMEIDA

NOVA HISTÓRIA NA PERIFERIA
 
 
Que é isso mano meu
Pra que arma na mão
Será que não percebe
Que não é a solução
Tu só faz papel de trouxa
Não faz esse papelão
Para os caras que te manda
Tu é bucha de canhão
Muda a vibe te enxerga
Isso não é vida não
O barato só te mata
Tu vai ser só um mermão
A vida não é fácil
Não a como não dizer
Mas se tu vai pelo mal
Pobre mano, vai morrer
Deixa disso vem pra cá
Banca o lado do bem
Te garanto, no final
Tu vai ser nosso também
Vem fazer um funk novo
Pra galera arrepiar
Nós queremos viver bem
Mas também queremos paz
As minas se divertem
No abraço, na alegria
Fazendo nova história
Aqui na periferia.

​Agamenon Almeida



AMÁLIA GRIMALDI
Brasil

O mogno e o vidro
E a coroa de Ciro
Velhas hierarquias
(Adornos de ocasião).
E do vil contemporâneo
Esse Marrano banido
Essa perversa aleivosia
Que tem no caído inútil fadiga
Toda essa descrença
Essa grande colina erodida
Que traz no semelhante
Humor e fúria. E músculos
Contrações contraditórias.

Ah, conheço bem essa dor!
A lordose do tempo
E a dor nas costas
– A marca da paixão.
E no facão do homem
Ira incontida. Árvore tombada.
Alguém se importa?
Existe uma floresta ao meu redor

Palmeiral de muitos cocos
Sabiás e fartas mangueiras
Arcanjos flamejantes
Alucinações ilusórias
Pitangas maduras
Primavera de orgasmos.

Acredito no riso da criança
E no canto de ave livre
E nesse meu poema outonal
O renascer da mulher que sou.
Louvado seja essa festiva estação
Pitangas maduras. Primavera de orgasmos.
Abençoado gozo. Rosa benevolente
Banquete de cópulas férteis.
E no transbordamento da taça
Louvado seja este vinho da raça
A carne e a cachaça
E decantado resquício.

Ah, essa cachaça esse fogo
Fogo animal!
Essa mania tropical
Esse cheiro que arreganha
Gosto que entranha
Naquilo que permanece
Rapadura e alfenim

Caldo de cana sublimado
Urina... Saliva... Suor...
Homens suados carregam seus fardos.

Acredito naquilo que fede
E naquilo que permanece
O beco e a urina
E o rabo torto do diabo porco
Cheiro, suor e lascívia
Ah, esse pedaço de terreno feliz

Alegria aos adorados
Louvada festa
Alvíssaras aos pequenos micos
Sabiá e bem-te-vi

Vertente incerta. Cinza e espuma.
Saliva e enzima. Polêmica e riso
Surpresa breve, o aperto de mão
Ouro e carvão
Necessário argumento.
Ah, essa fraqueza que dói
Espasmo de cio
Esse vício que traz
Ah, esse cheiro da gente!
Cachaça, rapadura e alfenim
Caldo de cana sublimado
E tudo o que resiste no mito
- A raça e a pitanga.


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Uma longa avenida de acasos  (Cidade do Salvador). Alas arborizadas. Árvores gigantes e seus galhos generosos. Pés de oiti fazem pouso de livre de pardal.  Já vestia o dia pesado o inverno naquela sua cor de chumbo. Pingos caíam sobre meu rosto. Bênção de águas. Breve consolo. Já sentia o cheiro bom do bairro. O cheiro de casa. Quanto prazer à volta da escola. Final dos anos cinquenta, cursava o ensino primário no colégio das freiras Sacramentinas. 

Cansada, e com muita fome, já a imaginar o que iria comer no almoço.

 Geralmente havia ensopado de abóbora. Às vezes de maxixe. Arroz com feijão, certamente não faltaria. Reclamava da comida.

– Todo dia a mesma coisa!  Só tem isso?!
– Ah, já sei, comeu quebra-queixo, não é mesmo? 

Tia Fernanda costumava dizer que o melhor tempero da comida é a fome. E eu, consentida, me calava então.  No almoço gostava mesmo era daqueles bifes à milanesa, sequinhos e douradinhos.  Amélia, a nossa dedicada companheira de muitos anos, sabia fazê-los como ninguém mais. Aliás, Amélia nem sabia que Milão existia!

Uma longa avenida de casos. Os cheiros dos becos eram bem conhecidos. Da Avenida Leovigildo Filgueiras, no Garcia, seguia eu e minhas irmãs menores bem contentes naqueles longínquos ensolarados finais de semana. Algumas moedas na mão já bastavam, as que seriam para o chocolate no baleiro. Havia ainda a mentira desculpável, não se importando com possíveis castigos. Passeios e paqueras, furtivos encontros, acenos de mão e sorrisos de longe, tudo isto valia uma escapada até a Praça do Campo Grande. 

Marco de súbitos encontros, ao dobrar-se a esquina do Garcia, lá estaria o imponente prédio: o Teatro Castro Alves. Orgulho dos moradores daquela área, um dia pegou fogo. Fui testemunha. Era de manhã ainda bem cedinho e tentava entender a razão de tanto burburinho que vinha lá da rua. Esfregava os olhos ainda com sono.  O alarido crescente me chamaria atenção. É ali, não está vendo?! Da janela do sobrado, ainda meio desperta, procurava esticar o pescoço a fim de ver melhor. Labaredas lambiam o ar. Morava perto, no andar superior do antigo sobrado da Padaria Moderna, bem em frente ao Colégio Antônio Vieira. Episódio espetacular, de certa maneira, pelo contexto que abraçava.

Obra grandiosa enchia de orgulho os moradores daquela área. 

O Teatro Castro Alves, monumental, arquitetura moderna de linhas retas, tendo casas em estilo colonial português à sua volta, assim logo se destacava.  Para lamento geral, às vésperas da inauguração virou monturo de cinzas. Mais tarde, por ordem do governador, o prédio foi reconstruído. E um dia, ressurgido das cinzas, virou realidade, muito embora envolvido numa mitologia popular, não a da Fênix, mas a que ainda persiste: a do disse-que-me-disse.  Eu tinha apenas dez anos de idade e ainda usava botas ortopédicas. 

Salvador, calçamentos de pedra lisa. Escorregões e derrapadas. Drama de meus dias chuvosos. Belíssimo pano de fundo, colinas e ladeiras, bordado em graciosas casinhas. Neste presente enredo, uma longa avenida de acasos.

Amália Grimaldi



AMÉLIA LUZ
Pirapetinga (MG) - Brasil

A   CASA   DE   BRAGANÇA

Findou-se a cláusula pétrea, cem anos de silêncio sobre o Regime Imperial. Mesmo assim, escondida em terra fértil a semente vigorosa da monarquia não morreu. A presença do rei está guardada entre nós como uma lembrança saudável, na dinastia da Casa de Bragança. A imagem do Imperador continua cunhada nos nossos corações, herança histórica e cultural que não se apaga.

 Nenhum povo das Américas teve em suas páginas história semelhante a nossa, considerando-se a riqueza lusa, trazida pela coroa portuguesa.

Lamentamos que muitos brasileiros não consigam alcançar o valor de uma monarquia moderna, confundindo-a com a monarquia absolutista do passado, quando nesta o rei distanciava-se do povo ocupando um trono, desfrutando privilégios, vivendo o espaço restrito da corte para a corte.

Temos consciência de que hoje os países mais prósperos e desenvolvidos do primeiro mundo europeu são de regime monárquico. O monarca é o funcionário público número um da nação. É ele o protetor e o defensor dos direitos do cidadão, exercendo o poder moderador em benefício do povo, garantindo-lhe tranqüilidade constitucional, institucional e democrática. Por permanecer no mandato ao longo dos anos ele tem maior visão da problemática do país, tornando-se um guardião da nacionalidade.

Guardamos no imaginário coletivo a presença simbólica do rei que perdemos, quer seja na inspiração do poeta ou na beleza do nosso cancioneiro popular.
Manuel Bandeira desabafou em seus versos: “Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei”. Chico Buarque de Holanda no mesmo tema cantou: “Quem tiver sorriso/Fique lá na frente/Pois vendo valente/Tão leal seu povo/O rei fica contente/Porque é ano novo.”

Se o rei ainda vive nas nossas manifestações literárias e populares, esperamos ter um dia um representante da Casa de Bragança no governo do nosso país.

Seja a monarquia uma idéia viável, instaurar o Regime Monárquico é ainda o desejo de muitos brasileiros.

Na verdade, orgulhamo-nos ao citar que, as cores verde e amarela da nossa bandeira nada têm a ver com as nossas florestas e o ouro das nossas riquezas. O verde é a cor da Casa de Bragança e o amarelo da Casa de Habsburgo, a que pertenciam o então príncipe herdeiro, depois Dom Pedro I, Imperador, e Dona Leopoldina, arquiduquesa, em seguida Imperatriz. O verde e o amarelo surgiram, pela primeira vez entrelaçados, quando do casamento dos dois, antes da Independência do Brasil. Daí, a adoção vem do Império, como um dos nossos mais significativos símbolos históricos. De Portugal herdamos relíquias como a língua de Camões, “última flor do Lácio” desabrochada no trópico, trazida pelas conquistas ultramarinas...

Externando imensa alegria venho saudar o Portal CEN uma ponte entre escritores brasileiros, portugueses e de demais países que se juntam para celebrar os encantos da Língua Portuguesa representante maior da nobre Casa de Bragança, depositária de uma tradição de soberania que fez do Brasil um país respeitado mundialmente.

Amélia Luz


AMILTON MACIEL MONTEIRO
São José dos Campos (SP) - Brasil

A MÚSICA E A ALMA

A música e a alma têm o dom
de nos aproximar do Criador
e nos mostrar o quanto Deus é bom
a cada um de nós, seja quem for...

A música tangida em suave tom
na maestria de um executor,
encanta a nossa alma, pois o som
artístico é ameno e encantador!

Assim, como um dueto, música e alma
se complementam de modo perfeito,
trazendo amor e paz ao nosso peito.

E com a paz e o amor, teremos calma
e o gosto de viver que nos exorta
a amar o próximo, o que mais importa!

Amilton Maciel Monteiro

ANDRÉ ANLUB
Brasil

¡POR SUPUESTO!

E o menino ergueu o braço de punho cerrado, franziu o cenho e bradou: vejo afinação nas palavras, dentro de um egocentrismo evidente e de uma postura elitista na defesa do status quo e de seus privilégios adquiridos ou herdados; junto a isso soma-se um zero de empatia com o descaso explícito pela desigualdade social e o maniqueísmo de má-fé típico de um falso e vil bom moço
 – bom fosso (quiçá se adéque ao caso).
Por debaixo da seda você me seda; brinca de ser a pura, e eu, em apuros, me cedo. Pego a caneta, ergo o pincel, com a face para o céu faço careta. Não sou tímido, tampouco mal-agradecido, pois tenho noção dos ocorridos. Herdo uma paixão de pretensão – tudo tenho e tenho sede demais –, e isso é (muito) bom!
 Me sinto aprovado e fundo mergulho, digo ser eficaz. Com enorme orgulho sou muito bem quisto, no misto da arte com a paz. Sei que a mentira tem pernas curtas, ou médias, ou longas, é maratonista ou lerda, mas um dia se enfastia e acaba sendo alcançada. Sei também que às vezes surge um dia sem cor, para fazer sorrir os que tem o deleite de colorir os momentos. Solidão: só lido com a saudade, só lhe dou atenção... aqui estou eu, sonhando, com os olhos embaçados e embasados nos dela. Vogo, envergo, vejo, vivo em excelência quando você estaciona seu pensar vago na vagabunda vaga da minha essência. É de um extremo interessante: o bobo palhaço e o ranzinza bobo palhaço. Vi cavalos apertando o passo em direção ao ocaso a cada caso de o Sol dar “boa noite”. Pelos meus olhos pude ver além do tempo. Com areia da praia construí castelos mágicos, com portas de palitos de sorvete e com a ideia de que seriam eternos. Pelo menos até a próxima ida à praia. Engenheiro e artesão de tudo que vai esvair-se em poucos minutos. Assim seguiu o vento retirando os grãos; assim seguiu-se a água com a maré cheia e destruindo toda uma obra; assim veio os meninos mais velhos fazendo um campo de futebol e destruindo os castelos. Vi marcas de novidade em todos os castelos destruídos. Vi um futuro promissor e mais concreto, mais seguro e respeitado. Sinto muito quando um passado passa e me deixa uma razão para ser mais forte, porém com raiva – perda e olhares cerrados. A crueldade da criança sem seu doce e a doçura da criança sem ser ao menos mais criança. Nas mãos dos anjos os dados, quase sempre viciados. Nas mãos dos demônios os tabuleiros, quase sempre inalterados. Demônios estendem uma enorme mesa às cartas; Anjos estudam as cartas e as marcam com a mente; demônios roubam por serem demônios e errados; anjos acertam e fazem o bem por terem sempre seus motivos. Sem sombra segue o mal voando ao lado de todos. Anjos criam suas sombras com as mãos... Aves, elefantes, coelhos e tudo que a sombra pode trazer. O ideal é a gente se frustrar só para fugir da rotina! O amor navega à deriva sem remos, velas, sinais de fumaça, por sobre a aquarela da conturbada e valiosa maré da vida.

André Anlub


ANGELA MATOS
Brasil

NOSTÁLGICO

Decidi, Que os dias
São meus, e as noites também
Que à tarde insossa e sem
Luz, são meu lugar enfim.
Decidi viver o agora o passado lá ficou
E se nada me fizer chorar
Talvez eu sinta o amor
Desperdício de tempo De vento, de olhar
Desperdício de desperdiçar
Molhar a face sem pranto
Num pranto de querer chorar
Negro sentimento aguça
Saudade de ficar e amar
Nunca mais diga não sinto
Loucura de não querer ficar
Explodir de amargura Intenso medo do deixar
Sem olhos ou abraços finjo Que nunca irei amar.

Angela Matos



ANTONIO CABRAL FILHO
Rio de janeiro - Brasil

DUELO DE SOMBRAS

Eu atiro poesia ao vento
como quem quer parar a tempestade
sem me conter ante o raio e o trovão

Me agarro com o vento num duelo de sombras
para aplacar a fúria dos gênios
contidos nas garrafas mágicas

e nos redemoinhos que formamos
com o nosso corpo - a- corpo
diluímos as comportas

e tombamos libertos ao solo
correndo líquidos num rio sem margens
rumo ao mundo dos poetas andejos

¨¨¨¨¨¨  ¨¨¨¨¨¨

PRIMAVERA

"No silêncio do meu peito, Primavera",
sob o sol desta manhã,
meu amor foi fazer compras.
Pegou o cartão e saiu;
sequer um beijo me deu...

Restou-me o vento gelado
e sua navalha de Kubrick
passeando em minha pele,
mas nada que uma rosa
não resolva...

Súbito, chegou alvissareira,
com as mãos cheias de bromélias
e veio contar-me a história
de cada uma delas...
E fez nossa varanda
virar um jardim...

Antonio Cabral Filho

ANTÓNIO PAIVA RODRIGUES
Fortaleza (CE) - Brasil

ECOLOGIA

A palavra Ecologia deriva de dois vocábulos gregos: oikos = casa e logos = estudo. Naturalmente casa, aqui exposta, tem que ser considerada em sentido amplo, de ambiente ou meio em que vivem os diversos organismos. Relações básicas entre os seres vivos e o ambiente. Dizem que a Ecologia não é palavra complicada, em grego representa o “estudo da casa”. Não só a nossa casa, onde residimos, mas a “casa de todos”, o mundo. No campo da Ecologia temos uma das maneiras mais efetivas de delimitar o campo da Ecologia e estabelecer os níveis de organização dos seres vivos. A Ecologia segue uma ordem natural.
 Protoplasma – célula – tecido - órgãos daí surgindo aparelhos e sistemas, logo após vem o organismo - população-comunidade – ecossistema – biosfera.

 Ressalte-se que, os seis primeiros níveis pertencem ao campo da Biologia Geral e os quatro últimos, à Ecologia.

Porque tudo o que fazemos ou aquilo com que mexemos tem de ser estudado, pesquisado, e por fim respeitado. Pesquisar ou estudar é a mesma coisa que investigar. Assim, o estudo do mundo compreende a investigação, ou seja, a verificação de como anda o mundo, como ele se formou e como está se comportando, nos dias atuais. É a nossa casa, a casa dos vizinhos, a casa de nossos parentes, perto ou distante. É também a casa de amigos, em outros países e continentes: Estados Unidos, Europa, África, Japão. O mundo conhecido por nós é o planeta Terra, onde vivem homens, mulheres e animais de todas as raças, além de insetos e demais espécies. Ecologia se preocupa com o mundo todo, não só com a nossa casa e a casa de nossos amigos e vizinhos.

Basicamente, partindo do protoplasma para a biosfera, um nível é conjunto do outro. Assim, a célula é formada por um conjunto de matéria viva, o protoplasma: o tecido é um conjunto de células semelhantes na forma e na função; o órgão é um conjunto de tecidos, e assim por diante. Porque todos nós vivemos dependendo uns dos outros. O patrão é importante, pois dá emprego aos operários, mas os operários são também muito importantes porque sem eles não há produção. O respeito e a maneira de viver, dentro da sociedade, são estudados pela Ecologia também. A Ecologia estuda, ainda, tudo que acontece com o clima dos países, produção, trabalho, moradia, qualidade de vida etc.
 Segundo os estudiosos ao considerarmos os níveis abrangidos pela ecologia, deveríamos levar em conta a interação deles com o meio ambiente.

Para tanto, imagine-se na beira de uma lagoa. Na superfície flutuam algumas salvínias (A Salvínia é uma planta muito interessante e versátil. Pode ser usada tanto em aquários quanto em pequenas fontes decorativas e tanques externos.

 Sua cor é muito viva e seu formato é único. Em tanques menores e fontes, exerce a função de filtragem e sombreamento que plantas grandes como aguapé e vitória-régia fazem em tanques grandes. E tem um visual muito legal quando vistas de cima. Utilizo em aquário, pois tem muitas virtudes. Por ser pequena, pode ser usada na maioria dos aquários. Por ser flutuante, está sempre próxima da luz, que precisa em abundância).

Também ajuda no consumo de nitratos, com sua raiz densa. Sendo pequena e flutuante, quase não aparece no layout do aquário. Aproveito também sua função de sombreamento, cultivando plantas que gostam de pouca luz debaixo delas. Com um pedaço de mangueira de ar, emendo as duas pontas formando uma retenção circular e flutuante, para segurar as salvínias onde desejo no aquário. Assim consigo ter plantas que exigem muita luz e plantas que preferem pouca luz na mesma montagem. São plantas fáceis de cultivar quando se tem luz suficiente. Com pouca luz, suas folhas amarelam e morrem rápido, sujando o aquário. Não são exigentes em termos de nutrientes e alguns agapés. Vez por outra, em voo rasante, cruzam a água algumas libélulas mais afoitas.

Na água mais rasa, nadam girinos. Na água mais profunda, lambaris e tilápias.

 Junto ao barranco, mas dentro da água, cresceram aningas (No litoral do Ceará, uma folhinha de palmeira vira um barquinho batizado de rabisca. Veja aqui. Na região amazônica, plantas chamadas aninga ou envira são esculpidas e servem como barquinhos que boiam nos rios. Conheça a brincadeira Folha de São Paulo, 08/02/2012) que se tornaram esconderijo habitual de garças medrosas.

 Porque Ecologia é uma ciência, ou seja, uma forma de investigar tudo. O papel da ciência é investigar, achar os erros e apontar o caminho para consertar tudo.

 Ecologia quer que o mundo seja consertado, para que não se derrubem as florestas, não se acabem os animais, os pássaros, as baleias... Para que não se estraguem os rios e os mares... Para que todos os seres, inclusive os homens, sejam respeitados, juntamente com a natureza.

O homem (todos nós), desde pequeno, seja menino ou menina, precisa aprender a respeitar a natureza e os seres que estão nela, mas precisa aprender também que outros homens e mulheres são nossos irmãos e não podem viver sem emprego, sem casa, sem educação, sem a possibilidade de chegar a um ponto de progresso. A terra não pode ser utilizada de qualquer maneira, mesmo que seja para plantar; é preciso, é necessário bastante estudo e pesquisa sobre o que fazer e como conservar a terra. Nós dependemos dela para viver! Isto quer dizer que podemos plantar tirar algumas árvores para essa prática, mas temos que ter muito cuidado com o que fazemos, pois se tirarmos muitas árvores dos campos vamos deixar a terra sem vida e sem proteção contra as pragas (bichinhos que atacam as plantações).

Não se devem tirar árvores das margens dos rios, pois isso é prejudicial aos próprios rios. Não se pode plantar de qualquer maneira, sem verificar o estado do terreno. Existe estudo para cuidar do solo (terreno), assim devemos tomar cuidado para não plantar algo que vá desnutrir a terra. Desnutrir é o mesmo que enfraquecer a terra, deixá-la fraca, sem vida. Isso exigiria, depois, a aplicação de adubo concentrado. O adubo concentrado devolve a nutrição a terra, mas pode também prejudicá-la, especialmente se for adubo químico. No caso da lagoa você encontra parte inerte e parte viva. Ressalte-se que a parte inerte é constituída pela água, pelo solo que ela recobre e pelo ar. A parte viva é formada pelas plantas e pelos animais.

O conjunto biocenose + espaço físico, denominado de biótopo, corresponde ao ecossistema. Toas às áreas naturais da Terra biologicamente habitadas, ou seja, os conjuntos de todos os ecossistemas constituem a biosfera. Caracteriza-se por apresentar grande quantidade de água no estado líquido, amplo suprimento de energia vinda do sol e do ar. O nicho ecológico serve para designar o papel da espécie no meio em que vive. Habitat seriam o “endereço” e nicho ecológico a profissão do indivíduo. (Demétrio Gowdak). Todos os rios vão acabar nos oceanos e se esses rios estiverem poluídos vão, seguramente, sujar os mares.

 Nos mares é que existe uma plantinha que fabrica o oxigênio, que é o ar que respiramos.

Se os pássaros morrem, por causa dos inseticidas, quem cuidará de limpar “as lavouras”? Os pássaros são amigos dos homens. Eles comem os bichinhos que atacam as plantações, e ajudam, ainda, a plantar. Você sabia que a gralha azul planta os pinheiros? Ela transporta o pinhão no bico e o deixa em qualquer lugar, fazendo, assim, o plantio. As árvores ajudam a limpar o ar, tirando gases que estão circulando devido a veículos (automóveis, caminhões, tratores, aviões) e indústrias. Mas, as árvores também precisam de ar e se consomem gases, soltam oxigênio. Num determinado tempo elas fazem o contrário, de sorte que o trabalho delas fica balanceado. Existem plantas que consomem mais oxigênio do que fabricam, resultando em processo negativo para a gente. Todos os rios vão acabar nos oceanos e se esses rios estiverem poluídos vão, seguramente, sujar os mares.

Nos mares é que existe uma plantinha que fabrica o oxigênio, que é o ar que respiramos. As árvores ajudam a limpar o ar, tirando gases que estão circulando devido a veículos (automóveis, caminhões, tratores, aviões) e indústrias. Mas, as árvores também precisam de ar e se consomem gases, soltam oxigênio. Num determinado tempo elas fazem o contrário, de sorte que o trabalho delas fica balanceado. Existem plantas que consomem mais oxigênio do que fabricam, resultando em processo negativo para a gente. Não se deve desmatar, isto é, cortar árvores a torto e direito, pois isso implica em mexer no clima e no solo.

 As cidades com poucas árvores ficam muito quentes e as chuvas caem de forma desorganizada, causando inundações, que destroem casas e matam pessoas.

Árvores são muito importantes para os pássaros, que fazem nelas os seus ninhos. Além de melhorar o clima, as árvores ajudam a fixar a terra, dão sombra, enfeitam nossas ruas e suavizam a paisagem. São nossas amigas, portanto. Os animais vivem, geralmente, dentro da mata, onde se acham quantidades apreciáveis de árvores de todos os tipos, além de vegetação rasteira, flores, gramas, capins. Qualquer animal deve ser preservado, deve viver em seu próprio lar, que é a floresta. Na floresta, o animal sabe como comer, beber e como sobreviver. A “era industrial” transformou os costumes e fez com que as cidades crescessem demasiadamente. Começaram a aparecer máquinas, motores, veículos, telefone, eletricidade, aviões, computadores... (Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/ecologia/ecologia.php/).

Todo esse avanço foi possível porque o homem fez surgir novas tecnologias, ou seja, inventos que serviram para aumentar a produção e também o consumo.

 Esse mesmo consumo ao qual nos obrigamos, diariamente, cada vez que colocamos combustível nos automóveis, ou trocamos o botijão de gás em nossos fogões. Esse avanço permitiu o aparecimento de grande número de aparelhos para utilização: rádio, geladeira, televisão, toca-discos, telefone, fax, brinquedos eletrônicos, computadores, filmadoras, máquinas fotográficas, fornos micro-ondas... Tudo isso é produto da tecnologia, sem o que nada seria possível apresentar. Enquanto se fabricam artigos para uso nas residências, que servem para minorar (facilitar) o trabalho caseiro como, por exemplo, as máquinas de lavar roupas, essa mesma tecnologia está operando máquinas e utilizando operários para fabricar revólveres, produtos químicos perigosos, canhões, tanques de guerra, latas para embalagem de alimentos e tantas e tantas coisas que cansaria repetir...

A geladeira também é um desses inventos atrapalhados, pois os gases utilizados em seu equipamento (clorofluorcarbono) é que estão destruindo a camada de ozônio do planeta... Muitas pessoas preferem viajar de trem, por se tratar de um meio de transporte mais econômico (mais barato) e menos barulhento que o avião. É outro processo tecnológico que exige leito para colocar os trilhos, estações, serviços em toda parte, combinando horários com outras linhas, ônibus... O trem serve também para transportar matérias primas, mercadorias e produtos de consumo, mas tem sido desprezado, em função de outro aperfeiçoamento, o caminhão, que apanha e entrega as mercadorias de porta em porta, embora cobre mais caro pelo transporte e exija estradas asfaltadas, manutenção, policiamento, gasto com combustível...

Entre as invenções mais discutidas está o automóvel de passageiros, encontrado, hoje, em todas as ruas, avenidas e estradas. O automóvel modificou completamente o hábito dos povos, encurtando distâncias e reduzindo o tempo.

 Em compensação, causa enorme poluição e morte, pois os desastres acontecem diariamente. Quando esses inventos aparecem, costuma-se dizer que isso é “progresso”, uma coisa que chegou para melhorar a vida de todo mundo, mas esse pensamento precisa ser esclarecido. Progresso é uma medida que dê vantagem (benefício) a muita gente, mas o que estamos assistindo, no momento, é um tipo de progresso que só dá vantagem para pouca gente, especialmente para quem vende e obtém lucros.

A maioria do povo vive enganada, pensando e sonhando com o tal “progresso”! O mesmo acontece com a palavra “desenvolvimento”, falada e comentada por todos, que se encantam com ela... Aprenda a reciclar o seu lixo, não o jogue nas ruas, pois ele voltará para vocês em formas de doenças. O acúmulo de lixo faz com que as cidades diante de um inverno pesado sofram com grandes inundações, pois todo escoamento de água estão entupidos de lixo. Mantenha sua casa limpa e asseada, evite a presença de animais e insetos indesejáveis. Não acumulem entulhos no seu quintal. Não deixe água parada, pois a dengue está aí aterrorizando muita gente. Não jogue dejetos nas ruas e se seu animal de estimação fizer as suas necessidades na rua, apanhe e coloque dentro de um saco plástico e recolha ao lixo e espere pela a coleta que irá recolher os lixos das ruas, avenidas e rampas. Seja limpo colabore com a Ecologia e com o Meio-Ambiente.

Todas as atividades vitais dependem de energia existente nos alimentos. Nos alimentos, a energia é potencial, ou seja, deles pode derivar alguma atividade. O alimento está para o animal como o álcool e a gasolina estão para o automóvel. Os animais alimentam-se de plantas ou de outros animais que comem plantas.

 As plantas e os animais que servem de alimento encerram energia química. Não consuma alimentos que não sejam de boa procedência, pois alguns alimentos podem conter excesso de agrotóxicos que são prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Pense nisso!

António Paiva Rodrigues

 

ARAKEN VAZ GALVÃO


TARDE DEMAIS...

PARA CELUTA, MINHA IRMÃ


Ultimamente, tenho me lembrado mui amiúde de um poema de Mário Quintana, cujo título é, se a memória não me trai – coisa que ela me vem fazendo também mui amiúde, nesta curva da minha idade – “Vida”. Aliás, por já não possuir mais aquela minha mente prodigiosa em decorar letras de músicas e poemas, raramente me recordo do poema completo, agora, por exemplo, lembro-me apenas de alguns dos seus versos: 
          Quando se vê, já são seis horas!/ Quando se vê, já é sexta feira.../ Quando se vê, já terminou o ano.../ quando se vê, passaram-se 50 anos!
Não preciso realçar a amarga e sutil ironia que estes versos contém – fato que sempre caracterizou a obra de Quintana –, porque o que me interessa, e me preocupa, é a insistência com que – praticamente todos os dias – os versos vêm a minha mente. 
          Agora mesmo, penso neles com uma pertinácia atroz, indiferente ao sacolejo que o carro impõe ao meu velho corpo trafegando pelas ruas da cidade onde moro, de calçamento irregular de paralelepípedo. Aliás, não deveria estar pensando neles, os versos, e sim, no cheiro quase sufocante das flores. Ou melhor, das conseqüências que poderão advir, já que sou alérgico a determinados perfumes – quase a todos – e seria engraçado se me viesse uma crise de espirros... Claro que o insólito seria um edema de glote. Já pensou se morro? Outro motivo no qual deveria preocupar-me – eu que sou tão calorento – era com este ar abafado (misturado com o perfume das flores), o qual não me permite respirar livre e pausadamente. Por isso nem respiro. Mantenho-me impávido, de olhos fechados. Se bem que assim me comporto porque temo entrar em pânico. Sou claustrofóbico e só em pensar na pequeneza do espaço onde me colocaram... Não. Melhor não abrir os olhos. Nem pensar... Ater-me... em que mesmo? Se me são tão fugazes as lembranças...  
          Esse ambiente está quase me asfixiando, entretanto, e apesar de todo esse calor, do ar abafado, do olor sufocante das flores, sinto-me frio, quase gelado, mas os versos de Quintana, seu caráter de premonição, não me abandonam. 
          Agora, é tarde demais para ser reprovado.../ Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,/ eu nem olhava o relógio./ Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo/ caminho, a casca dourada e inútil das horas.
          Não olhar o relógio... Lembrou-me que costumava dormir com o relógio no pulso. Não sei se o fazia como um autômato, ou se com algum propósito específico, ainda que oculto. Não sei. Sei que olhava as horas, mas nunca parava para olhar a vida, vê-la passar de mansinho, de parar para ver um pôr do sol, admirar a luz prateada da lua ou o brilho furtivo das estrelas, deixar o vento bater no meu rosto. Corria. Apenas corria como um desesperado para frente. Atravessava as ruas e avenidas por entre os carros, sem respeitar ou obedecer aos sinais de trânsito. Driblando ônibus e automóveis, com uma irresponsabilidade arrogante, típica da juventude. Quanta coisa estúpida não se faz na vida, em particular quando se é jovem...
          O pior é que só se descobre a inutilidade de tudo quando não se tem mais vigor para fazer algo de útil... Talvez o melhor fosse dizer que só se tem vigor para ficar no ócio, quando já não se consegue fazer nada. Poderia repetir as palavras de Quintana:
          (...) Dessa forma eu digo:/ Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta/ de tempo, a única falta que terá, será desse tempo/ que infelizmente não voltará mais.// 
           Não voltou para o poeta; não voltará para mim, para ninguém.
Acabaram de me retirar do carro e estão me transportando para algum lugar. Se ao menos eu pudesse abrir os olhos, ver um pouco de luz, sentir a brisa. “a brisa que agitava as folhas verdes/ fazia ondular as negras tranças”. Onde ficaram perdidos estes versos de Castro Alves? Onde ficou perdida minha infância? Meus irmãos, meus avôs, minha mãe, onde estarão? A fazenda Veneza, o abieiro, a groselheira, o burro Cabrito, onde estarão? Tomar leite na hora da ordenha, com o calor fumegante do úbere das vacas. Caçar saracuras por entre os lírios-do-brejo, chupar laranja cravo ou caju, comer jaca. De onde me vêm essas lembranças?
          A ingazeira se debruçava por sobre o remanso que o riacho fazia – era a nossa piscina – do alto dos seus galhos pulávamos n’água, para subir e repetir a brincadeira vezes sem conta. Tinha um carneiro cujo esporte preferido era dar marradas... em mim. Como corri dele, era um pai-de-chiqueiro que se chamava “Licutisco”. Mas isso foi em outra fazenda, “São Bernardo”, que era do meu pai.       Mas meu pai morreu muito cedo, quando eu tinha apenas quatro anos – o que é muito cruel, pois quase não me lembro de suas feições, só do afeto que ele nos dedicava. Mas isso é tão pouco... Ser amado só não é tudo, é preciso que nos lembremos do brilho nos olhos de quem nos ama, quando nos estão amando.
          Da fazenda Veneza, onde fui criado – depois de órfão –, havia uma vaca que se chamava “Gameleira”. Apesar de dócil, acossada pelo vaqueiro, um dia ela me atropelou, dando um susto tremendo em minha mãe. Mas as mães se assustam sempre com as travessuras dos filhos. Gameleira era uma vaca mocha-banana, como dizíamos, pois seus chifres não estavam soldados aos ossos da testa, pendiam, presos apenas pelo couro, como dois brincos córneos. Lembro-me perfeitamente de sua testa saltada, característica do gado gir, quase se encostando aos meus olhos, o que teria arrancado do meu medo-pânico, segundo meus irmãos, o grito: Ai, mãe, Gameleira! Minha mãe morreu aos 96 anos...
          Agora começo a descer. Será que me colocaram em um elevador? Para onde me levam? Enquanto desço continuo pensando em Gameleira, como ela teria morrido? De velhice no pasto da fazenda, mordida por uma cobra, em um açougue? Mas eu continuo descendo.
          Que estranho... Escuto palmas. Por que me aplaudem? Eu, que durante toda a minha vida tanto desejei ser admirado, de ser – até mesmo discretamente – aplaudido, mas nunca recebi um só gesto de admiração, que só recebi vaias mesmo quando acreditava ser digno de um pequeno afago, sempre vaias, principalmente da vida. Por que tantos aplausos? Por que será que me dão na morte o que me negaram na vida. 
          Será que não vêem que agora é tarde demais?


Valença, BA, 08 de março de 2016


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OS CLÁSSICOS – OS MODERNOS E OS HISTÓRICOS


          Já tendo escrito um Ensaios ou Quase com o título de “Os Clássicos e os Clássicos”, no qual falei mais sobre cinema do que sobre literatura – ainda que sobre ambos os temas pouco poderia espraiar-me, já que praticamente nada sei em relação a esse último tema – julguei necessário voltar ao assunto, agora concentrando mais sobre literatura. Vejamos, pois, como me sairá esta atrevida incursão. 
          Se excluir os escritores gregos e os romanos, clássicos, clássicos mesmo, existem poucas obras [1], pelo menos para mim, colocando neste “mim” as outras pessoas comuns, mas que gostam de ler. Sei que esta afirmação é (pode ser) uma retumbante heresia, além de pretensiosa. Mas eu sou dado a afirmar absurdos – talvez influência do fantástico e do maravilhoso na literatura, gêneros (?) os quis, juntos com o mágico (também na literatura) mantém-me fascinado –, não sendo de se levar muito ao pé da letra os absurdos que digo. E este fascínio não nasceu com a literatura gótica, tampouco por influência da literatura infantil (ou juvenil) que aprisionaram minha atenção em seu devido tempo, não se deu também por força das diferentes versões que as mitologias – as que chegaram até nós e a mim – ouvidas e assimiladas nos verdes anos da juventude, enquanto eu, órfão de pai, morava na fazenda do meu avô paterno, aguardando o momento de viver a vida, sem sequer imaginar que no meio do caminho havia não somente pedras, mas imensas arapucas. Devo este fascínio, sem dúvida, também às histórias de cordel e à literatura oral que escutei naquela longínqua infância.
          Mas, dizia que se excluir os escritores gregos e os romanos, clássicos, clássicos mesmo, existem poucas obras, quero dizer que poucas sobreviveram até os nossos dias. Esta insensata afirmação nasce em particular devido a que, com raríssimas exceções, nada ou muito pouco se conhece daquilo que outros povos escreveram [2]. Ouço ou tenho ouvido falar dos Vedas, mas com este conjunto de obras (clássicas) por muito antigas e por encerrarem conhecimentos que estão nos primórdios da humanidade, como sucedeu com as diferentes versões dos livros dos hebreus, transformou-se em sagrado, por isso muito pouco (ou nada) têm sido estudado como literatura (fora dos círculos estritos da academia), predominando sua aceitação religiosa. Isto é dito, sem desejar definir a curvatura do quadrado ou a quadratura do círculo, apenas para afirmar que se tratando de religião, a pessoa (mesmo as ateias ou desprovidas de quaisquer crenças religiosas) relacionada com literatura deve ser cuidadosa [3] ao extremo para não ferir suscetibilidades. Apenas registrar, como simples leitor alguma bela obra literária com antiguidade, qualidade e originalidade suficiente para ser classificada como clássica. 
          Aliás, acrescentando apenas para deixar registrado o óbvio, aquilo que os homens escreveram (e as mulheres também), não raro, é sagrado, independente de que possa ou não ter alguma utilidade religiosa. Desta forma – sempre ressaltando minha condição de curioso, lembro-me do trabalho, em um patamar popular, talvez pioneiro entre nós, aqui no Brasil, do lançamento da coletânea “Mar de Histórias”, que Aurélio Buarque de Holanda Ferreira organizou e comentou, com a colaboração de Paulo Rónai, onde se podiam ler algumas raras jóias da literatura mundial.
          Excluída, pois, esta raríssima iniciativa (e aquelas relacionadas com visão religiosa), conheço apenas “As Mil e Uma Noites”, coleção de histórias, tidas por muitos como vindas do árabe, mas que, na verdade, são de origem persa. 
          Desta forma – e por citar “As Mil e Uma Noites” –, no último dia 8 de março deste ano da graça de 2015, por um imprevisto estalo (do Vieira, no caso, o padre, e não nas juntas defeituosas de um velho [4]), descobri (não a pólvora), mas uma quase obviedade. Referir-me-ei, então, ao estalo, ainda que tenha relatado que não era minha intenção definir a curvatura do quadrado ou a quadratura do círculo. A verdade é que, não sei se pela magnitude da data, por ser propenso a suposições esdrúxulas, comecei por supor que “As Mil e Uma Noites” era um livro policial (ou similar), pois versava fundamentalmente sobre um praticante de assassinatos em série – mais amiúde classificado pela expressão do inglês estadunidense, acho de serial killer –, que é enfrentado por uma mulher, a qual contraria (contrariava) todas as posturas feministas do século XX e anteriores, por derrotá-lo usando tão-somente da sua inteligência, uma vez que tem plena consciência de sua inferioridade física, além da política e social. Afinal, goste-se ou não, ela estava destinada a ser apenas um objeto de prazer sexual, pois ele era o sultão. Vence-o com a força de sua inteligência, sem ter tido que queimar seu sutiã (o qual não usava, pois nem tinha sido inventado, como tal), sem passeatas apregoando posições que, em última análise, buscam obstaculizar o destino final da existência de macho e fêmeas no mundo. E, tampouco, em imaginar que no contato entre pessoas do mesmo sexo (excluído as possíveis restrições impostas por alterações genéticas) estaria o jeito prático de se por fim a apregoada tirania dos homens contra as mulheres [5]. Ao derrotar o sultão fazendo uso apenas de sua inteligência Xerazade, a mitológica heroína daquela obra, teria sido a primeira feminista, despida de todo e qualquer conteúdo de lamentações e autopiedade. Evocar seu nome tantos séculos depois que sua história, em forma de ficção, foi escrita, é uma lógica dedução sobre o verdadeiro papel da mulher como protagonista no mundo. 
          No entanto “As Mil e Uma Noites” é um clássico [6] e, por esta condição, fica óbvio que é obra consagrada mundialmente, frente a qual cometo o sacrilégio de fazer esta interpretação, atrevida e quiçá esdrúxula – comparando-a a um reles e vulgar romance policial –, afirmando que, na luta travada por sua inteligência contra a força bruta do sultão, Xerazade nos entreteve também (mais a nós, posto ter sido através dos tempos) com narrativas maravilhosas, ficando aquela suposta postura que lhe dei, por minha conta e risco – como diz o populacho (tão evocado neste trabalho) –, para surgir (não) no futuro, mas agora, como exemplo de que as mulheres nada têm de inferior aos homens, como pensam alguns [7], inclusive mulheres, mesmo quando afirmam de forma diferente.
          No entanto, desejava mesmo era falar do meu escasso contato com obras clássicas da literatura (e não apenas das da literatura clássica), afirmando de início que pouco conhecia do que nos restara das obras dos gregos; menos ainda dos escritores romanos – em sua maioria, para mim, poetas, forma de literatura que jamais opino –, restando-me recorrer às obras mais recentes que, por marcantes, passaram a ser consideradas também como clássicas, tendo em vista serem inigualáveis, além de se terem tornado exemplos insuperáveis de suas respectivas épocas.
          E já que citei (com muita audácia, talvez até com petulância) “As Mil e Uma Noites”, uma das obras mais importante do mundo, atrever-me-ei a citar “Don Quijote de la Mancha”, a magnífica obra de Miguel de Cervantes (1547-1616) e tecer alguns singelos comentários. Ousando dizer que o que mais me impressiona neste livro é a ilusão que move seus dois principais personagens: a loucura que a eles, e por nós (toscos leitores), encontra-se associada. Havendo ainda um pormenor – este relacionando com Sancho Pança – que também me deixa pasmo: é o que se poderia chamar de sabedoria da ignorância – ignorância no sentido bem sertanejo, ou seja, no sentido de se ser analfabeto, ingênuo e simplório, mas também de forma inusitada, ser sagaz, matreiro, questionador, como sucede com João Grilo, por exemplo. O restante – que é tudo! – assombra-me ainda a fantasia descabelada e a manipulação com o ridículo [8] (ou o perigo de cair nele), além da forma de viver sem nenhuma relação com a realidade plausível de qualquer época [9]. 
          Quando – na passagem mais associada a um surto de loucura, aquela em que Dom Quixote luta contra os moinhos de vento – sempre me pareceu um retrato, talvez uma metáfora, da luta insana do homem contra a natureza [10], no afã de acumular riqueza e poder [11]. Embate ao qual perde sempre, porque ele, o homem, ao perseguir a utopia da eterna acumulação (de riqueza e poder), enquanto vivo, fá-lo-á sem saber (ou sabendo, mas não desejando acreditar) que tudo que ele acumular será malbaratado uma ou duas gerações mais tarde, tornando vão [12] o seu esforço ao longo prazo, sua busca constante [13].                        Chegado a este ponto (e ao que foi referido na nota de pé de página) deduz-se – conforme já foi dito – que e porque a acumulação de riqueza por um homem será malbaratada algumas gerações depois. 
          Deixando, pois, de lado estas observações pessoais sobre duas obras clássicas, “As Mil e Uma Noites” e “Dom Quixote de la Mancha” – uma sem que se saiba ao certo a época que foi escrita, a outra com data perfeitamente conhecida – assim consideradas pela intelligentsia mundial, mais visível, e antes de começar a falar de quatro obras que selecionei como as minhas de cabeceira, por ter sido atraído pela estrutura narrativa delas (passando a considerá-las como clássicas, para mim, pelo menos), devo tecer algumas considerações, também pessoais, sobre uma situação irônica, quiçá absurda, que penso ser uma característica básica da História Humana, condição fantástica, talvez maravilhosa, para que a literatura mais que qualquer outro tipo de arte tenha a primazia de melhor retratar as contradições existentes na vida dos homens, assunto que, por isso, sempre me fascinou, além de me deixar perplexo. 
          Desta maneira – ou por este caminho – não existe forma de escrever que mais me impressione do que o fantástico – seja lá que classificação ou nomenclatura receba dos estudiosos, a expressão mágica para mim, desde criança, estava embutida na frase: Era uma vez. Como era maravilhoso este enunciado! Para mim, desde a infância, como agora, não havia nada estranho em uma história [14]. Talvez por isso, até hoje, livros que não contam “uma história”, para mim, perdem em grande parte o interesse. Conte-me uma história de qualquer tipo, de preferência das fantásticas, destas que me faziam dormir assombrado quando criança, e que hoje me manterá acordado toda a noite, fascinado pelo mesmo tipo de assombro, e ter-me-á cativado ad æternum.        Conte-me, pois, uma história fantástica, no momento em que eu estiver agonizando, daquelas que me faziam dormir (e sonhar) quando criança, e manter-me-á vivo – não tenho dúvida – para toda a eternidade. E se não me manter vivo, far-me-á sonhar que não morri e que não morrerei jamais. 
          Das lembranças das leituras feitas na minha juventude (e das que continuo fazendo através dos tempos) – imagino hoje – ficou-me a certeza de que literatura não é malabarismo de estilos ou truques de prestidigitação verbal, tampouco o é o resultado de maneirismo de linguagem. Uma obra-prima pode até, bem dosado, conter alguns desses elementos, mas se não houver uma história a ser contada de forma ardilosa, com muita imaginação, fantasia e lirismo, não me proporciona deleite estético a este rústico leitor sertanejo. Os gregos sabiam dessa verdade insofismável, por essa razão nos proporcionaram obras antológicas, ou seja, inesquecíveis, não só pela simplicidade de suas narrativas, como também pela fertilidade da imaginação dos seus mestres. 
          Dito isto, passo agora e indicar os livros que escolhi como “meus clássicos”. Não faz muito tempo que os selecionei [15]. Foram quatro [16] – fi-los na ilusão de que eles seriam meus livros inesquecíveis, afirmando que eram os melhores que já tinha lido talvez apenas pela razão de contarem uma história de uma maneira que me hipnotizavam. Disse que, pelo menos, gostaria de tê-los ao meu lado na mesa de cabeceira, não só porque já os tinha lido várias vezes – sempre com renovado prazer –, como por desejar lê-los várias vezes mais, durante o pouco de vida que ainda me resta (que me deve restar, a julgar pela idade), pois a leitura deles era (são) inebriante, pelo modo como aquelas histórias são narradas – de forma magnificamente fragmentadas, cheias de divagações e com várias idas e vindas, ou seja, bem ao meu gosto ou como tenho constatado que é o curso da própria vida, ao obrigar-nos a vivê-la de modo tão absurdo (constatada pelo lugar-comum, muito popular, tantas vezes apregoado, insinuando uma fatal aceitação geral pelo povo, pois está sempre a afirmar, de maneira não isenta de tácita resignação e oculto sentido trágico: As voltas que a vida dá...) –, o que me intrigava sobremaneira, além de me forçar a muitas reflexões sobre o sentido da beleza estética e de mistério que esta situação inerente às grandes obras de arte literária desperta ou revela fatalmente em nossa existência. 
           Antes mesmo de conhecer Suassuna, já fascinado pelas histórias de cordel no nosso nordeste, João Grilo, Pedro Cem, Cego Aderaldo, O Pavão Misterioso, por exemplo, farão sempre parte importante do meu cânone. Deveram estar na cabeceira do meu leito de morte.  
          Feito, porém, aquela afirmação absoluta, sobre os quatro autores citados, passado alguns dias, sucedeu-me deduzir, como sói ocorrer-me amiúde, ter constatado que acabava de “morder a língua” – como é dito de forma popular –, pelo fato de a totalização de conceitos só nos levar a contradições. E este último ponto, obrigou-me a outra conclusão popular: nunca diga desta água não beberei. Ainda que este seja um lugar-comum.
          Desta maneira, aqui estou eu, confessando que não passou muito tempo, tentando escrever algo marcante, ou seja, com alguma observância erudita (digamos assim) e recorrendo as formas de falar comum à chamada sabedoria popular. Mas este é outro problema. 
          Fazendo-me lembrar das voltas que, junto com o mundo, as diferentes vidas humanas dão, sou obrigado agora a evocar outra jóia desta forma de agir, vejo-me obrigado a reconhecer que os juízos absolutos, do tipo “os melhores livros que li”, são perigosos – reafirmo –, pois costumam ser, amiúde, contrariados de modo muito rápido. 
          Lendo o livro de Robert Musil (1880-1942), “O Homem sem Qualidades”, obra a qual [17], antes mesmo de ter concluído sua leitura – não temia em considerá-lo um importante clássico moderno –, deparei-me com uma assertiva a qual ainda que feita em outro contexto, levou-me a reflexionar sobre o que dissera em relação àqueles quatro livros. A assertiva que o personagem de Musil, Ultrich, faz está relacionada a se dar um passo em falso, assegurando que um percalço deste tipo careceria de importância, pois o que importava era a atitude tomada a seguir [18]. Ficando implícito que só poderia ser de duas ordens: permanecer no chão, se este lugar fosse onde o passo em falso o levara ou levantar, mancando ou não, e seguir o caminho, mesmo que se tivesse que proceder – como é dito no poema do espanhol, Antonio Machado – de modo a ter que fazer o caminho ao andar, caso não houvesse caminho. Disse-o e repito novamente que o contexto evocado pelo personagem de Musil era outro, mas relaciono-o com o que afirmara devido ao fato de que, reconhecendo o caráter de certo modo frívolo que o fiz, pois lhe dei um cunho absoluto, volto para retificar-me. Mais do que pela narrativa fragmentada, encantava-me naquelas quatro obras outras razões bem diferentes das aventadas em relação a outros livros até então preferidos por mim. Não que eles deixassem de ser importantes.       Não. A obra de Musil não tomava seus lugares, apenas me alargara a percepção em outras direções. Sendo um ficcionista influenciado pela magia do universo mítico do sertão de minha terra – a qual associei e somei ao fantástico, mágico ou maravilhoso retratado na literatura hispano-americana do século XX –, pois sendo apenas um contador de história (bom, médio, ruim ou péssimo, é outra questão), uma vez que tenho alguns livros publicados e outros escritos, teria mesmo que me deixar fascinar, de modo inebriante, por aquelas obras que são contadas da forma como as sinto melhor. 
           Esta constatação, que não me imunizou da surpresa, fez-me ainda enxergar por um ângulo novo, ou passar a ver ângulos nunca vistos, sequer imaginados, em algumas obras clássicas modernas, cujas diferentes interpretações, ao que eu saiba nunca se relacionaram com situações candentes nos dias de hoje. Agora, finalmente, chego ao prometido algures.
          No entanto, de uma forma ou de outra, volta e meia, ocorria-me pensar que era perigoso emitir conceitos tão absolutos [19]. Seja mais ponderado – dizia-me. Até que um dia, não faz muito, vendo TV com o despreocupado objetivo de deixar o tempo passar sem maiores enfados, deparei-me em um dos canais pagos, uma matéria instigante, do tipo entrevista, com Lya Luft – escritora gaúcha, a qual não conhecia nenhuma obra, apenas tinha lido seu nome, creio que em uma revista semanal, sem me lembrar de que se tinha chegado a ler alguma matéria sua, até mesmo porque quase nunca leio revistas daquele tipo, e sim dar, às vezes, alguma vista d’olhos quanto tinha que estar na antessala de médicos ou dentistas. 
          E se não conhecia sequer seus textos para aquela revista, não sabia também a qualidade de sua obra literária. Recentemente vira seu nome como tradutora do livro de Musil, trabalho que ela tinha realizado junto com Carlos Abbenseth, a qual estava lendo, como disse. Entretanto, ter traduzido um importante romance, não significava obrigatoriamente que somente por isto, ela fosse também uma grande escritora. Ademais, a obra traduzida não teria necessariamente recebido influência salutar de quem o fez. Além do mais, nada sabia de alemão para deduzir que se o livro de Musil tivesse sido traduzido por outra pessoa, deixaria de me influenciar positivamente. Por outro lado, o que me deixou boquiaberto naquela entrevista, foram às palavras que Luft externou ao dizer que, ao decidir se fazer escritora, decidira também “esquecer-se para sempre tudo que aprendera sobre teoria literária”. A entrevista, a qual assisti somente uma parte e, ademais, não vi se tinham informado a data em que fora concedida, continha alguns conceitos que me impressionaram bastante. Ouvi ainda, dois outros ensinamentos que me levaram a concluir que aquela escritora não era uma pessoa de maus bofes, como o sou eu. E isto me deixou envergonhado.
          Lya Luft falou que gostava muito de escrever ensaio em estilo não acadêmico. Eu, que era dado escrever trabalhos aos quais chamava de “Ensaios ou quase”, constatei que o que escrevia continham pecados que uma pessoa, doce e suave como aquela escritora, jamais conteriam. Pois o que escrevia estavam cheios de diatribes, como se eu fosse o único dono da verdade, atitude que a escritora gaúcha condenava. Entristecido com minha intransigência, como maneira de fazer algum tipo de autocrítica, comecei a pensar em aliviar minha linguagem. 
          Claro que sei que falar hoje de obras clássicas, ou seja, de suas traduções – única forma de nós, simples mortais, não-eruditos poliglotas, termos intimidade com elas – é muito perigoso, pode encerrar terríveis arapucas. Que distância há entre os livros da Bíblia no seu original em aramaico ou hebraico e as versões que conhecemos. Refiro-me a esses livros como obras literárias, e não como fonte de religiosidade e, até, de fanatismo. O mesmo é válido para os chamados clássicos – os gregos, os romanos, As Mil e uma Noites, os Vedas [20], por exemplo –, obras escritas a milhares de anos e em idiomas mortos ou em fase de desaparecimento. Resulta, porém, que foram escritos sem rebuscamentos frívolos (se é que todos os rebuscamentos não o são) – ou seja, da forma como o termo rebuscar é usado no espanhol do Rio da Prata –, mas narrado de modo acessível ao homem comum, medianamente alfabetizado, mas preocupado com beleza. Por isso também aquelas obras são imorredouras. Ademais, foram obras escritas para serem lidas, ou seja, tinham o objetivo de ser literatura oral, já que algum letrado lia e uma massa de analfabetos as escutavam. Sem se excluir que existissem (como deve ter existido) pessoas que decoravam as histórias – independente de saberem ou não ler – marrando-as, de memória, para um público ávido de fantasia.
          Aliás, ao comparar um clássico com uma obra tida como o ápice da expressão literária desses tempos de hoje – os chamados best-sellers –, vem-me a mente uma comparação, quiçá, canhestra. Entre elas há sempre a mesma distância existente entre a masturbação e o coito. Posto que um ato de onanismo e um coito proporcionam prazer, porém quem já os praticou sabe que há uma fundamental diferença entre ambos. Daí poder dizer – eu, por exemplo, digo – que alguns monumentos literários dos nossos tempos podem até oferecer algum prazer estético. No entanto, por sua obediência aos padrões rígidos apregoados pelos admiradores de escritores praticantes de textos muito rebuscados, acaba por nos tolher a alegria de viver uma situação onírica; por privar-nos do gozo da fantasia e das delícias da viagem que só a imaginação nos permite, o que me leva a concluir que, da mesma forma como penso que nada substitui a mulher (pelo menos essa é a opinião de um heterossexual convicto) na arte de ofertar prazer físico a um homem [21]; nada pode substituir a fantasia, a imaginação e o sonho na magia de nos elevar as alturas do prazer estético.  
          Tendo, pois, chegado a este ponto de minhas canhestras lucubrações sobre o que consegui ler até hoje, ou seja, o que conheço sobre literatura, me lembrei de uma tetralogia “O Quarteto de Alexandria”, do inglês, nascido na Índia, Lawrence Durrell (1912-1990) – da qual já falei em outro “Ensaio ou quase” –, que lera antes da obra de Musil, o que me levou a indagar como vivera até quase os 80 anos sem a ter lido. Mais recentemente, acabara de ler o livro de José Donoso, “O Obsceno Pássaro da Noite”, o qual ainda me mantinha maravilhado.    Mas, sobre esta obra-prima falarei em outra oportunidade. Porém, esta é mais uma das obras que coloco na minha lista de clássicos modernos.
          Antes de continuar falando (e destilando pueril venero verbal sobre obras escritas em estilo rebuscado), devo confessar que não podia me atrever afirmar, sequer insinuar, que obras por mim consideradas como muito rebuscadas não façam jus à fama que desfrutam. A minha limitação intelectual é que não me permitia alcançar a altura por onde elas se deslocaram, pois eu não era (nem sou) suficientemente águia para voar tão alto, arrastava-me pelo rés do chão sertanejo em busca de um pouco de calor para mitigar o frio que acossa a minha alma quase sem vida, embora não fosse uma galinha, salvo no sentido em que as mulheres empregam este termo para classificar os homens mulherengos. E isto eu fui um dia.
          Ao lembrar e referir-me ao frio que me assedia a alma, faço um parêntese para falar de um fato que vejo. Melhor, via todas as semanas, quando ia a Salvador, a capital da minha Bahia, durante o período em que estava fazendo tratamento de radiologia – e mesmo agora, mais esporadicamente, quando preciso ir ao médico para que me faça o acompanhamento[22], refiro-me a presença de inúmeros gaviões, todos majestosos, todos com o ar arrogante, característico da espécie; pousados sobre o asfalto, não só recebendo os primeiros raios de sol da manhã que surgia dispersando a neblina que pairava sobre os capões de mata de restinga que compõem a paisagem do pedaço da estrada que, de Valença, nos levava, a minha mulher e a mim, até Nazaré, trecho onde me deparava com aqueles gaviões. Vendo-os, sempre me lembrava da canção de protesto, de João do Valle e José Cândido, famosa nos anos 60, que, apesar de ter uns versos dizendo, em evidente liberdade poética, que aquela ave: “É um pássaro malvado/ Tem o bico volteado que nem gavião[23]”, fazia-me discordar, mas imaginar, concordando, no que havia de belo na postura dos gaviões. 
          Esta cena trivial, por repetitiva, começou a intrigar-me: Porque os gaviões não tomavam sol sobre as árvores, algumas já secas e isoladas no meio do pasto, incapazes de guardar umidade em suas folhas, pois já não as tinha, em vez de se arriscarem a ser atropelados por alguns motoristas maldosos e imprudentes, em uma curva ou em um lugar de pouca visibilidade? Foi então que, de tanto ver a cena, comecei a imaginar que os gaviões deviam precisar aquecer também seus pés (e não somente deixar os raios de sol penetrar-lhe por entre as plumas), uma vez que precisavam de toda a força em suas garras – sua arma de caça –, pois urgia alimentar-se nas primeiras horas do dia, sendo aquela cálida fonte de calor vital, que era irradiada do asfalto, para que eles continuassem majestosos (e atrevidos), lembrando-me o jovem metido a valente que fui um dia, o que, agora, enche de tristeza residual a minha alma, também fria e sem ter uma fonte de calor disponível.  
          Retomando o fio da meada, ou seja, deixando os gaviões planando sobre a estrada Nazaré-Valença, por onde passava (e ainda passo), voltando, pois, a falar de literatura. Antes, porém, devo tecer algumas considerações especificamente relacionadas comigo e com os clássicos. Falei sobre “As mil e uma noites”– cuja origem se perde na bruma dos tempos – citei “Dom Quixote” – de nascimento conhecido –, e pus-me a imaginar qual outra obra, excluídas as modernas, considerada clássica eu conhecia. Todas as quais, obras da antiguidade, das que ouvi referências foram escritas em verso ou para teatro, também em verso, assuntos pelos quais não me aventuro a palmilhar. O mesmo sucedeu com as obras dos clássicos dos nossos tempos, como Dante Alighieri (1265-1321) e William Shakespeare (1564-1616) – fiquemos apenas com estes exemplos –, ou até mais recentes como Pirandello, já citado, ou Henrik Ibsen (1828-1906) e Anton Tchekhov (1860-1904), para ficar apenas em dois exemplos.
          Estas premissas (reais, por sinal), sempre me levaram a duas indagações: Como sentir toda a beleza de uma obra, a qual lemos em prosa, tendo ela sido escrita originariamente em verso, com o agravante de ter passado por sucessivas traduções? Dois: Como sentir a beleza de uma obra escrita para teatro, a qual a entonações das falas, pelos atores, além de outros elementos cênicos, são fundamentais, lendo-as como texto em prosa? 
          Isto, sem se questionar – no caso das obras consideradas como clássicos modernos –, no caso particular das teatrais, a concepção cênica que, via de regra, cada diretor imprime aos textos originais. Tenho muito vivo em minhas lembranças uma obra bastante recente – um clássico moderníssimo –, “Esperando Godot”, de Samuel Beckett (1906-1989), a diferença existente entre o texto que li e a encenação da peça, que assisti em Montevidéu, Uruguai.
          Penso – como leigo que sou – sempre nestes pormenores, concluindo, não baseado na parábola da águia e a galinha, da qual já falei linhas passadas (fazendo a ressalva que não me identificava com nenhuma galinha, salvo no caso em que as mulheres nos classificam como homem-galinha), com um velho adágio português – hoje em desuso –, constatando que os clássicos (da antiguidade ou os chamados modernos), não são mesmo para minha compreensão, afinal (e agora cito o velho adágio): Quem nasceu para dez-réis, não chega a vintém. 
          Este deve ser mesmo o meu destino. 
          Volto finalmente, para concluir, a seguir a trilha do que vinha falando. A leitura da obra de Donoso levou-me comprar o livro de outro gênio da América Hispânica, José Lezama Lima (1910-1976), de quem muito tinha ouvido falar.     Mas, sua obra-prima, “Paradiso”, me causou uma grande decepção Estava escrita em barroco caribenho [24]. Constatei que sua complexidade narrativa, as palavras nela empregadas – que me obrigava a ter que a todo o momento consultar o dicionário – provou-me, uma vez mais, que me faltava bagagem para penetrar naquele universo que apenas podia intuir ser deslumbrante [25], mas que não conseguia avançar, ou seja, acompanhar com deleite a narrativa.     Voltaria a lê-la em outra oportunidade, era a minha esperança. Tinha como compensação a lembrança de outra importante obra, “O Senhor Ventura”, de Miguel Torga, na passagem em que um mapa preso à parede, desafiara-o durante muito tempo a realizar viagens e empreender aventuras. De minha parte, sem abandonar a cadeira de balanço – tão amiga dos velhos –, da sala de televisão ou a poltrona de alumínio (e plástico imitando palha) sempre situada na varanda de minha casa, por ora vou ver se consigo vencer outro desafio que me impus. Penso começar a ler o conjunto da obra de Proust, talvez seu próprio título faça-me recuperar parte do tempo perdido ao não o ter lido antes. 

Valença, 11 de dezembro de 2011.


© Araken Vaz Galvão

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[1] Colocando-se desta forma não se está excluindo os chamados clássicos modernos; até mesmo porque há o problema de quem selecionada qual obra pode ser considerada como tal. Por outro lado, qualquer pessoa pode ter sua lista de clássicos modernos. Então penso ser melhor não ingressar nestas particularidades. 
[2] Escreveram é força de expressão, melhor seria dizer: criaram. Porque há povos (ou houve) que muito nos deixou daquilo que é chamado de literatura oral.   
[3] Mais que cuidadosa, deve-se respeitar a crença alheia. Jamais proceder, como ocorre em alguns países ditos civilizados da Europa que, sob a desculpa de combater a intolerância de alguns mulçumanos (e sob o pretexto de liberdade de imprensa), procedem com igual radicalismo, como se a solução para se combater o nazismo fosse colocar os adeptos desta ideologia em campos de concentração e câmaras de gás. 
[4] E, tampouco, que o molusco – se me permitem a irreverência – que atende pelo nome popular de Vieira (Pecten maximus) tenha estalado. Não porque ele não estala como também não as sabe que seja dotado de ouvido para ouvir se for chamado.
[5] Que nenhum desavisado (ou mal intencionado) veja aqui uma postura que não tenho. Pouco me interessa com quem a pessoa dorme. Que esta minha posição fique bem clara! 
[6] E o é pelas qualidades intrínsecas da obra, possivelmente – como é dito que ocorre com a Odisseia e com a Ilíada –, o seja de vários autores, por sua narrativa instigante, por sua trama envolvente e por sua narrativa pioneira, a qual foi muito copiada por séculos e continua sendo. Uma coisa, porém, deva ser realçada, não creio que jamais foi nesta obra indicada quaisquer traços de obra policial.    
[7] A propósito, se existe alguns que pensam que as mulheres são inferiores aos homens, justifica-se plenamente que prefiram os mesmos.
[8] Por outro lado, registro de passagem, era tão tacanha a visão social da sociedade durante a Idade Média (época em que imperou os valores contidos nos romance de cavalaria) que não se podiam imaginar situações de convivência humana – em particular as relacionadas no contato entre homens e mulheres – sem que não estivesse patente uma dose incomensurável de ridículo. 
[9] Quando vejo referência a ridículo ser colocada, nela se viver situações ridículas lembro-me do coronel Ponciano de Azerado Furtado, personagem do romance de José Cândido Carvalho “O Coronel e o Lobisomem”, obra que, de certo modo, passou em brancas nuvens nos meios literários brasileiro, sem o realce que deveria, uma vez que foi a único romance brasileiro, lançado em 1964 – nefasto ano em que foi instaurada a ditadura em nossa pátria, inclusive, aliás, com a simpatia, senão o apoio, do romancista –, que realmente iguala-se aos mais importantes títulos do realismo fantástico surgidos na América Hispânica, cujo título inicial (ou mais marcante) foi “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, editado três anos depois.
[10] Ou os engenhos que a força bruta da natureza põe em movimento e que os homens nem sempre conseguem controlar. Podendo significar ainda a tecnologia cumprindo seu papel de escravizar e derrotar a maioria dos homens em benefício de uns poucos.
[11] Mas também pode ser uma face da luta do homem contra o desenvolvimento socioeconômico, cuja apropriação é sempre feita por poucos, em prejuízo da maioria.  
[12] Há uma lenda, quiçá uma anedota, que conta que nos primeiros contatos dos navegadores com os índios na costa do Brasil, vendo os segundos a avidez com que os primeiros buscavam o pau-brasil, indagou-os porque vinham buscar tão longe lenha para alimentar o fogo. Ouviram destes uma complicada explicação sobre valor da tinta vermelha extraída daquela madeira. Questionados sobre o excesso de tinta para uma só pessoa, ouviram outra ainda mais complicada explicação de acumular para deixar para os filhos. Segundo por esta trilha, os homens brancos acabaram questionados porque, em vez de acumular para os filhos, não os ensinavam a caçar e juntar sua própria lenha.
[13] Poder-se-ia aventar ainda que esta busca insana, e constante, possui sua forma de farsa, consubstanciada, talvez na procura também insana e constante, que o homem massa empreende na aquisição de mais e novos aparelhos eletrônicos, os quais, a cada ano, saem com pequenas (ou falsas) inovações, já que importante na sociedade de consumo é justamente consumir.
[14] Em uma relação de causa e efeito, talvez esteja ali, nas histórias contadas no sertão, à volta de uma fogueira (entanto normalmente se assava castanhas de caju), cuja origem estava em versões populares de obras – que vim a descobrir bem mais tarde – eram clássicas, fosse lendas de origem indígenas (com ou sem toque ou retoque africano), ou mesmo aquela que vieram com os colonizadores portugueses. Por isso foi que, depois de velho, a obra de Ariano Suassuna tanto me enfeitiçou. 
[15] Estes juízos, agora emitido com pretensão a serem absolutos, não devem ser levados muito ao pé da letra. Não faz muito fui apaixonado pela obra de Milan Kundera, todos os livros seus, que eram lançados no Brasil, eu os comprava. Certa feita, quando me encontrava no auge da paixão pela obra de Kundera, perguntei a um amigo, pessoa de fino conhecimento em matéria de literatura – o professor Edmundo Muniz – tendo ouvido dele que era um desses autores que, no aeroporto, compramos um livro, lemo-nos durante a viagem, depois esquecemos, podemos até deixá-lo no avião. Fiquei calado e triste, mas logo “decidi” que se tratava de alguma espécie de “sectarismo” do meu amigo (que era trotskista), devido ao anticomunismo tacanho daquele autor. Conseguida a desculpa de um dos meus ídolos sobre outro ídolo, segui em frente. Anos depois, quando o professor Muniz já tinha falecido, descobri que, da autoria de Kundera, excluindo “A Brincadeira”, “A Imortalidade” e, por último, o popularismo “A Insustentável Leveza do Ser”, o restante de sua obra era bastante modesta. Podia perfeitamente ser deixada naquelas bolsas das poltronas dos aviões. 
[16] Respectivamente, na ordem que os li, “Beira Rio, Beira Vida”, de Assis Brasil (n. em 1932), editado em 1965; “Um Belo Domingo”, de Jorge Semprun (1923-2011), editado em 1980; “A Dança Imóvel”, de Manuel Scorza (1928-1983), editado em 1983 e “Respiração Artificial”, de Ricardo Piglia (n. em 1941), editado em 1980. Sendo que, no caso de “A Dança Imóvel”, quando o li, não sei se por não está maduro intelectualmente falando, não o vi com o deslumbramento que me ocorreu depois de ter lido (e assimilando a magia narrativa) da obra de Semprun. Algo similar deu-se com o livro de Assis Brasil, porém, neste caso li, pela primeira vez, faz muitos anos, quando ainda estava em uma das prisões da ditadura, desta forma não tinha mesmo condições de assimilar toda a beleza lírica do texto. Nunca entendi porque esta obra não figura em um dos pontos mais altos do cânone nacional, latino-americano e mundial. 
[17] Editada pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro, em 1989.
[18] E isso nos leva, ou poderá levar-nos, a um homem de grande saber, como cientista, mas que, como compositor de música popular, diz: “Levanta, Sacode a poeira/ e dá a volta por cima”. 
[19] Talvez tenha contribuído para meu paulatino abandono de conceitos tão absolutos, a leitura de “O Quarteto de Alexandria”, de Lawrence Durrell. Esta obra que abalou meus conceitos, mostrando-os arcaicos – pois podemos constar que até “o último suspiro” (como o disse Buñuel) a vida nos reserva cada surpresas... –, não só por aqueles livros serem de uma qualidade muito grande, como também por ter visto muito poucos comentários, na imprensa brasileira, sobre seu valor. 
[20] Estou citando, talvez em excesso os Vedas, porém faço-o de ouvir falar ou por suposição, porque nunca li nada deste antigo livro. Vejo apenas, aqui e acolá, algum alternativo falando sobre mantras. Mas tenha que ter em conta, como dizia meus antepassados: Falar é fôlego.  
[21] Já o prazer físico, estou convencido, aquele que só a mulher proporciona, seja por meio do sexo, do qual também participamos, seja por meio de uma companhia cálida, que nos ocupa o vazio e nos dissipa o silêncio. Dizem que agora isto é questão de opção e de gosto ou preferência. Continuo tradicional e mulherengo, ainda que seja apenas por beleza estática, devido a minha idade avançada. 
[22] Ir a algum lugar para que alguém nos acompanhe (já que pode sugerir que seja para nos fazer companhia), encerra uma boa dose de ironia, pois isto bem poderia ter algo a ver com solidão... 
[23] Na canção, embora bela, e emblemática na época, há dois erros somente nestes versos. O Cacacará (Caracara plancus) – chamado pelos artistas de Carcará – não é malvado (é apenas uma ave carnívora) e, ademais, não se parece, é um gavião. Inconfundível, não só por possuir a pontas das asas brancas, visível quando está voando, como também por ostentar uma espécie de solidéu bem chato sobre a cabeça. Tem ainda a face vermelhada, predominando as penas de cor preta, em uma mistura com marrom mais claro, com chuviscado pedrês. Por outro lado o solidéu vem a ser uma espécie de boina. No aso desta ave são um conjunto de penas que formam um casquete chato, o que tornaria o caracará o símbolo dos cabeças chatas do Brasil. 
[24] Tinha tentado ler Cabrera Infante e parara, não porque, politicamente falando fosse ele um cabrón, tampouco porque seus “Três Tristes Tigres” trouxessem um tipo de linguagem inacessível ao meu grau de compreensão, mas porque ele lançava mão de um idioma só compreensível aos cubanos, particularmente os negros, que são a maioria da população daquele país. Guimarães Rosa lançara mão de ardil similar, porém Rosa se utilizara das palavras que dormitavam no sertão profundo. Mas isto não resultou em nenhum problema para mim. Com muito orgulho, embora da Bahia e não de Minas Gerais, sou sertanejo, sim senhor.

[25] Deslumbrante e complexo. Vi em um artigo (Carlos Granés, Estado de São Paulo – em matéria de 18 de dezembro de 2010, 10h 48, indicando a tradução de Terezinha Martinho), destes que não se pode citar, porque parece ser segredo de estado, algumas considerações bastante cabíveis. Outro artigo visto no dia anterior, do mesmo tipo secreto, o qual não anotei no momento o nome do jornalista, fazia um curiosa classificação sobre os diferentes tipos de barroco (o que surgiu na América Latina na segunda metade do século XX, talvez melhor fosse classificados de neobarroco): o de Lezama e o de Carpentier, mostrando que o do primeiro era bem mais complexo, enquanto o do segundo era mais poético.


BENEDITA AZEVEDO
Praia do Anil -  Magé (RJ) – Brasil

A década de 50, dos governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek que fomentaram o processo de industrialização nacional. Da vitória do Brasil que ganhou a Copa do Mundo de futebol, em 1958. A década da esperança, da industrialização, do rádio, da televisão e da velocidade. Mas, o símbolo maior deste processo de modernização foi a construção de Brasília, inaugurada em 1960, o ano que fui estudar o ginásio em São Luís. Em Itapecuru, uma junta governativa assume, no lugar de João Rodrigues, que só consegue tomar posse em 1952 e Sinéas de Castro Santos que o sucedeu, de 1956 a 1961. Em nossa cidade, o marco mais importante da década de 50, foi a construção da ponte sobre o rio Itapecuru. Em 1950, enquanto o mundo era reconstruído, após a Segunda Guerra mundial, meus pais, seguindo a tendência daquela época do êxodo rural no Brasil, mudaram-se da Mata para a cidade. Eu que nascera em 1944, estava com apenas seis anos. As dificuldades que atingiram o mundo, o Brasil e o Maranhão, chegaram até a minha família e fizeram que o casal tomasse a decisão de mudar-se. Meu pai, dono de engenho e minha mãe dona de casa, com sete filhos, numa região que não havia escola, queriam muito vê-los estudando. Foi um recomeço difícil. Com a mudança, construção da nova casa e o nascimento do oitavo filho, o sonho do casal de colocar os filhos na escola só se concretizou em 1955, depois de conseguir registrá-los. As cinco filhas, mais velhas, já alfabetizadas, estudaram na escolinha que ficava perto da estação do trem, com a professora Maria de Lourdes Matos. Mesmo assim, não havia clima de desânimo. Meu pai, Euzébio Alberto da Silva, trabalhava no engenho com meu irmão mais velho e minha mãe, Rosenda Matos da Silva, cuidava dos filhos. Os mais velhos ajudavam com os menores. Não faltávamos às festas religiosas, começando com a de São Benedito, dia 1º de janeiro, Divino Espírito Santo, da Santa Cruz, de Nossa Senhora das Dores e a Semana Santa, não exatamente nesta ordem. Minha mãe que também costurava, caprichava no figurino da filharada. Cursei o primário no Grupo escolar Gomes de Sousa, entre 1955 e 1959, do primeiro ao quinto ano. As colegas do quarto e quinto anos, eu já com catorze e quinze de idade, eram várias. Entretanto, tínhamos um pequeno grupo que se reunia para estudar. Cada vez em casa de um. Outras vezes íamos para a casa de Dona Santinha (Anozilda) ensaiar os números das festas cívicas. Do grupo lembro-me de Sônia e Oswaldo Camelo, Francisca e Conceição Bezerra. Eu era mais próxima a Francisca Bezerra (Chiquita), razão pela qual estou escrevendo este artigo, a pedido do neto dela, Breno Bezerra que, ao me ouvir falar das nossas peripécias de adolescentes, nas quais estavam incluídos o Sr. Carlos Bezerra e Dona Cotinha. No primário tínhamos homenagens cívicas todos os dias, antes das aulas. A cada dia uma série era encarregada de fazer a apresentação, com textos lidos de acordo com a efeméride. Lembro-me das professoras de cada turma: No primeiro ano, D. Santinha, no segundo, D. Maria do Rosári, no terceiro, D. Maria de Lourdes e D. Conceição, no quarto e quinto, D. Francisca, irmã da professora, Maria de Lourdes. Os ensaios das atividades cívicas eram feitos em casa da diretora, Anozilda (D. Santinha), aonde a maioria das professoras que vinham de fora se hospedavam. Numa mesa enorme, com dois longos bancos, sentávamos para ensaiarmos nossos números: Uns cantavam, outros recitavam textos e o grupo cantava várias músicas em coro. Até hoje sou apaixonada pela poesia de Casemiro de Abreu, “Meus oito anos” que sempre era cantada nas comemorações. As festas das mães até hoje me emocionam, quando ouço as músicas que aprendi no primário e cantava para minha mãe. D. Santinha morava pertinho da casa do alfaiate e músico, Carlos Bezerra. Quando terminavam os ensaios, Francisca me convidava para irmos a sua casa. Lembro-me de suas irmãs mais velhas: Conceição, Maria e Malvina. Dona Cotinha e o Sr. Carlos eram muito simpáticos. Entrávamos pela porta da varanda, ao lado direito da frente da casa, onde o Sr. Carlos tinha algumas mesas forradas para o jogo de cartas. Eu deixava minha bolsa com material escolar sobre uma delas e enfiava-me pela casa, junto com Francisca e Conceição. Em casa dos Bezerra tinham algumas novidades que me encantavam: água puxada com uma bomba manual (quebra-galho) armazenada em toneis, dentro e fora do banheiro, que ficava no anexo a casa. Eu achava o máximo. Tão diferente dos nossos banhos no Rio Itapecuru. Eu achava divertido acionar a bomba para cima e para baixo e ver a água jorrar. Eu tinha verdadeira atração pelo fogão a lenha, também no anexo a casa, em direção à outra porta de entrada, ao lado esquerdo da frente. D. Cotinha cozinhando, as labaredas altas, quase cobrindo as panelas e o cheirinho gostoso de café que nos servia com bolos e doces feitos por ela. Eu costumava me espelhar em frente à alta penteadeira ao canto direito da sala, me via de corpo inteiro e como toda adolescente, me virava de um lado para o outro me admirando de todos os ângulos. Um dia, estava eu nesta atitude narcisista quando o cunhado de Francisca, marido de Maria, entrou na sala e disse que soubera do nosso banho de rio e que as meninas disseram que eu tinha um corpo muito bonito. Fiquei muito encabulada e Francisca disse-me que comentara sobre nosso banho no Rio Itapecuru, após o trabalho escolar e de apanhar verdura na grande horta da minha mãe para que todos levassem de presente. Ao final de 1959, terminamos o quinto ano. Tivemos festa de formatura, meu paraninfo foi Benedito Nascimento, esposo de Adélia, prima de minha mãe. Antes do exame de admissão, no Colégio São Luís, fiz aulas de reforço com o professor, João Rodrigues, no Grupo escolar “Gomes de Sousa”, em horário especial. Francisca e Eu fomos estudar o ginásio em São Luís. Acabamos nos perdendo de vista; encontramo-nos duas ou três vezes nas férias. Em 1962, me casei e fiquei em São Luís. Depois, mudamos para São Paulo e mais tarde para Santa Catarina. Ao voltar a Itapecuru, dez anos mais tarde, procurei Francisca e matamos as saudades, num longo papo. A Chiquita escrevia belas poesias. Fico curiosa de saber se chegou a publicá-las. A menininha que saiu da Mata, do engenho do pai aos seis anos, fará em maio deste ano, 72 anos de muito trabalho, estudo, e militância literária, com trabalhos publicados no Brasil, Portugal e França. Agradeço ao confrade Breno Bezerra pela curiosidade de conhecer alguns detalhes da minha convivência com seus familiares.

Benedita Azevedo


CANDY SAAD
Brasil

BEIJAR TEUS BEIJOS

Amor,
Vem para nosso ninho,
Me abraça bem  de mansinho,
Vem ouvir meu doce falar,
Meu beijar gostoso...
Quero beijar teus olhos,
Tocar de leve teu rosto,
Tatear tua boca com meus dedos,
 Beijar teu sorriso...
Dá-me teus lábios quentes,
Teus beijos ardentes,
A ânsia do teu abraço!
Estou com sede de tua boca,
Quero o sabor de teus beijos!
Vem, amor...
Aninha-te assim...
Aconchega-te a mim,
Faz de meus braços teu abrigo!
Quero todo teu amor.
Beija, amor meu,
Meu coração que é teu!
Quero ao teu lado dormir,
 Sonhar um sonho embalador!
Quero acarinhar tua alma,
Acordar beijando teus beijos,
Meu amor!

Candy Saad

CARLOS LEITE RIBEIRO
Portugal

FUTEBOL

Minha querida amiga, ainda bem que te encontro - queres saber uma novidade?! ... Fui convidada para fazer uma campanha publicitária sobre o Desporto-rei, ou seja, do FUTEBOL! Já fiz o projeto e vou começar assim:

"FUTEBOL COM CORRECÇÃO - NÃO É DESPORTO DE MULTIDÃO!”
Texto de Carlos Leite Ribeiro

Como vê, para começar, não está nada mal, pois não?!
Em seguida, começarei por chamar a atenção dos Treinadores, assim: 
- "Senhores treinadores de Futebol, deixem-se chicotear à vontade pelos senhores Directores dos clubes, pois assim podem enriquecer substancialmente o vosso "curriculum vitae". 
Entretanto, informamos que já temos para entrega imediata, todos os tamanhos e feitios anatómicos contra chicotadas físicas, psicológicas, financeiras e outras. 
Faça hoje mesmo a sua encomenda pelo telefone tal e tal...
Mas espera aí, porque ainda há mais...
Depois chamarei a atenção dos senhores Directores desportivos, ao dizer: 
- "Flagelem à vontade o vosso treinador de Futebol, e não mandem os futebolistas, mesmo que sejam medíocres, embora! Lembrem-se sempre que o treinador é que tem a culpa, por isso, chicotei-os à vontade, e corram com eles!
Temos à vossa inteira disposição, os mais modernos e sofisticados tipos de chicotes, chibatas, cavalos-marinhos e outros tipos afins.
Oferta para árbitros: Temos os mais modernos e valiosos “apitos dourados”.
Podem fazer já os vossos pedidos para a morada tal e tal...
Depois chamarei a atenção da distinta classe dos Árbitros, assim: 
- Temos à vossa inteira disposição os mais modernos e eficazes modelos de proteção individual e corporal, próprias para interiores e exteriores de estádios, desde os conhecidos "braços de ferro", óculos de lentes escuras para “vistas grossas”, passando pelos “computorizados com visão em todo o horizonte”, e pelas “proteções de cabeças e pescoços, contra as arremetidas de garrafas, pedras e outros objetos que possam fazer mossa, ou graves danos físicos”... 
Até aos modernos “blindados” para a saída dos estádios, já equipados com bolso invisível e dispositivo contra gravações magnéticas. 
Entregas só ao domicílio e não aceitamos cheques. Stock muito limitado.
Em seguida, chamarei a atenção dos Jogadores nestes termos: 
- "A nossa casa tem um grande stock de “fatos pneumáticos”, com aumento de volume regulável, próprios para defesas-centrais e infalíveis “botas-tortas”, que tão bons resultados têm obtido nos ponta-de-lanças que marcam golos fenomenais. 
Bons golos, só com botas tortas! 
A partir da próxima semana, já podemos satisfazer as vossas encomendas de, desarmes em "carrinho" com ou sem sarrafada, que é a mais avançada tecnologia ao serviço do jogo da bola. 
Amanhã poderá já ser tarde. 
Faça já hoje mesmo a sua encomenda. 
Aos dez primeiros clientes, será oferecido um útil manual à sua escolha: "Como se deve e pode-se fazer um contrato bi-paralelo" ou "A maneira mais fácil de poder fugir à perseguição do Fisco".
“Por fim, os Espectadores também serão contemplados, pois temos para entrega imediata o já célebre livro “Asneiras, Interjeições e Palavrões”, que se podem e devem de chamar aos árbitros”. 
É uma edição corrigida e aumentada pelo conceituado de futebóis, o Canelada.
Como vês, minha amiga, vai ser uma campanha publicitária de grande impacto, e de grande êxito. 
E não te esqueças que "Futebol com correção - não é desporto de multidão!".


Uma beijoca da tua amiga, "Cartolina Vermelha".
Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande – Portugal


CARLOS LÚCIO GONTIJO
Brasil

O COMBUSTÍVEL DA VERDADEIRA AMIZADE

Por ocasião do lançamento do livro “Tempo impresso” em Belo Horizonte, no dia 4 de julho de 2016, tive a felicidade de conhecer pessoalmente o jovem jornalista Vinícius Fernandes Cardoso, que frequenta com maestria as trilhas da poesia e do jornalismo na cidade de Contagem, na qual vivi durante muitos anos de minha vida. O talentoso Vinícius, além de escrever um artigo generoso e espontâneo sobre o evento cultural em que apresentei meu 18º livro, tomou a iniciativa de me passar um envelope com alguns de seus registros poéticos e jornalísticos, que me remeteram aos tempos em que tinha a idade dele. Seus versos fortes e comprometidos com a construção de um mundo melhor alegraram o meu coração, enchendo-me de esperança em relação ao futuro, no qual pessoas como o Vinícius Fernandes Cardoso estarão dispostas a lutar contra os desmandos de gente comprometida consigo mesma e incapaz de visualizar a condição da sociedade como um todo.
Assim canta o Vinícius no poema Tempo perdido: “Não adianta fingir o que não sou,/ eu que ando sendo o que não sou,/ perdendo tempo com teimosias,/ sendo cordato com aleivosias,/ eu que nasci para o combate/ contra os pregos e os folgados,/ contra os sem virtude e sem caráter”. Eis aí a mais pura verdade do panorama social em que vivemos, no qual alguns malfeitores avançam sob o silêncio letárgico da maioria dos brasileiros. Depois, na prosa poética “Oração de mim mesmo”, deparo com esta beleza de frase: “Eu queria escrever um poema que me fizesse companhia e que não me julgasse certo ou errado, mas que me consolasse como um cafuné de mãe”. Intuições de cunho literário dessa magnitude encaminharam o jovem Vinícius ao Jornal Regional de Contagem, onde ele marca destacada presença como responsável por uma página destinada à cultura, o que nos dias de hoje é uma raridade nos veículos impressos brasileiros, que quase sempre se nos apresentam fechados à publicação de conteúdos capazes de conduzir o leitor à reflexão e à conscientização em relação ao outro – ao próximo, que deve ser alvo de nosso amor e respeito.
A forma honesta com que o Vinícius Fernandes Cardoso exercita o seu dom de artista da palavra escrita me remete ao esforço do saudoso amigo Otaviano José Coimbra Batista, o querido maestro “Vai”, para manter em atividade a centenária banda Lira Monsenhor Otaviano, em Santo Antônio do Monte, e ao mesmo tempo dedicar-se a aulas de música para jovens e crianças, às quais via como garantia de que a banda estará presente no futuro, abrilhantando solenidades culturais e religiosas. Com toda a certeza, mesmo sem muita consciência a respeito do trabalho desenvolvido pelo maestro Vai, santo-antoniense algum imagina passar uma semana santa sem o som da velha e insubstituível Lira Monsenhor Otaviano!
Em tudo na vida a gente termina descobrindo um lado bom o suficiente para justificar apuros e momentos difíceis. Minha curta passagem pela Secretaria de Cultura de Santo Antônio do Monte possibilitou-me o estreitamento da amizade com o maestro Vai, que passou a declamar com inigualável emoção o poema “Sangue montense”, valorizando como ninguém os versos de minha autoria, aos quais resolveu musicar, marcando e eternizando com essa parceria a nossa amizade.
Não existe nada nesta vida que não nos exija dedicação e persistência, para germinar e prosperar. Quando o Vinícius Fernandes saiu de Contagem para prestigiar o lançamento de livro de minha autoria em Belo Horizonte, levando-me mostras de sua arte de escrever e, completando o seu desprendimento, lavra um artigo a respeito do evento, que cuidei postar com destaque em meu site; quando eu e o maestro “Vai” encontramo-nos na labuta cultural em Santo Antônio do Monte optamos por apoiar um ao outro e providenciar o cultivo da amizade, em meio a diálogos, pão de queijo, café, um churrasquinho, cerveja gelada e alguma trilha sonora no ambiente, estávamos semeando eternidade em nossa memória, que somente alcança frutificação, avança e caminha no chão de nossa alma se alimentada pelo combustível da verdadeira amizade.

Carlos Lúcio Gontijo

CARLOS SARAIVA
Mantena (MG) - Brasil

A MANADA

Escurecia rapidamente e a manada reuniu-se para iniciar a descida; sombras que ganhavam forma aos poucos, até se tornarem bois enormes, com um cheiro forte e hastes retorcidas. O mais velho parecia ganhar a dianteira, logo seguido pelos mais novos e por algumas crias, num cortejo silencioso e ordeiro. Juntos, vinham ocupar a lateral junto à cerca, próximo da estrada e muito perto de mim. Tinham um ar indolente e desconfiado. Ao menor movimento, pareciam assustar-se e desembestavam em pequenos trotes de nervosismo. Aguardavam uns pelos outros até ao cair da noite, quando formavam uma intensa e misteriosa fila indiana. Ninguém sabia qual o seu propósito, para onde se deslocavam e qual era o seu destino. De repente pareciam sumir na noite, envolvidos pela bruma junto ao matagal. Isso acontecia quando, espontaneamente, desapareciam ao atingir uma pequena depressão junto a um dos bebedouros improvisados ao lado da estrada. Desconhecia-se como isso era possível e alguns, atribuíam-no a um poder sobrenatural da montanha. Tudo acontecia num compasso de mágica e as criaturas deixavam de repente de ser vistas, como se existisse alguma caverna que as engolisse. Algo as absorvia ou dissipava, como um pesado nevoeiro feito para ocultar. Eu queria entender o que acontecia nesse momento e o que existia efetivamente junto àquela pequena depressão na beira da estrada, onde o trânsito circulava normalmente e com bastante intensidade. Naquele fim de tarde, aproximei-me cautelosamente do local antes que chegasse o chefe da manada. Para isso, agachei-me cuidadosamente por detrás de umas ervas. Esperei talvez uns quinze ou vinte minutos, até sentir os passos pesados e indolentes do comandante. Estava gelado e nervoso quando encarei de muito perto aquele animal, possante e escuro. Sentia que ele me notava, apesar do seu ar distante, compenetrado e seguro. O medo tomou conta de mim e por um instante, percebi que ali o intruso era eu. Definitivamente, eu não parecia fazer parte daquele ritual quase sagrado. Em alguns instantes, o segundo e o terceiro boi apareceram e logo toda a manada estava ali presente, como que reunida numa cerimônia ensaiada. A névoa parecia ter baixado ainda mais e o primeiro animal caminhava agora na minha direção, num compasso lento e definitivo. Prestei toda a atenção e aguardei por um milagre ou por algo que pudesse explicar aquela história fantástica. Petrificado, mal podia acreditar no que via, ou melhor, no que não via; os bois pareciam desaparecer por baixo de mim, como num compasso de mágica sem qualquer explicação. Algo muito inusitado acabava de acontecer, o que me deixou ainda mais curioso, apreensivo e com vontade de investigar. Aguardei então pacientemente a chegada do último animal e assim que ele desapareceu perante os meus olhos, levantei-me assustado e desci trêmulo aquele pequeno declive. A noite estava muito escura e pude constatar que os animais não estavam mais ali, o que me fez suar frio perante a possibilidade de poder desaparecer também. Bastante assustado olhei em volta e procurei os bois, ofuscado por uma pequena luz amarelada que brilhava agora por baixo da estrada. Fui atraído por ela e dei alguns passos na direção. O mistério aumentou e pude reconhecer uma pequena abertura na parede rochosa. Havia um túnel improvisado, com menos de dois metros de diâmetro, salpicado por alguns pedaços de esterco ainda úmido. Enchi-me de coragem e percorri aquele espaço vazio, na direção da luz. Não havia vestígios da manada, mas logo adiante ouvi um som que me pareceu familiar. Um pouco à frente reconheci uma grande e tosca casa branca que parecia semi abandonada e vazia. Quando me aproximei da porta, um forte odor tomou conta do meu corpo. Pé ante pé cheguei à porta e espreitei. Uma imensa massa viva, sombria, repousante e formada por cabeças e hastes indicava o paradeiro da minha manada que pareceu não dar pela minha presença, após mais uma longa e intensa jornada de pasto na montanha. Um sentimento de regozijo e cumplicidade percorreu a minha mente, como uma pluma muito leve e esvoaçante que parecia indicar-me um caminho. Aquele final, foi determinante e marcante para mim. Muito além da minha expetativa e imaginação. Pude sentir naquele momento, a presença de algo estranho e ao mesmo tempo natural que me ligava profundamente àqueles seres e àquela família. De uma coisa eu estava certo; queria voltar rapidamente para casa...  

mongiardimsaraiva


CAROLINA RAMOS
Santos (SP) – Brasil

O LEITOR...

Quando alguma ideia pula da mente para o papel, ou, melhor dizendo... Quando algumas frases aparecem na tela do computador, clicadas por dedos, não tão ágeis às vezes, quanto às ideias que fluem, os primeiros leitores serão sempre os olhos do autor, críticos ávidos, prontos para descobrir o que pode ser dito de melhor maneira, o que pode ser cortado como supérfluo, ou, tão-somente, o que pode ser amenizado com um pouco mais de bom senso. E como são exigentes estes dois leitores que, analisam com rigor aquilo que a mente deixou passar sem cuidados maiores, sem analise ou filtro, mantendo ainda a pureza de um retrato sem retoques, nata do que foi dito, sem alcançar ainda forma definitiva!
 Só depois desse elaborado encontro com o autor, o texto, viabilizado, terá passagem liberada para chegar a outros olhos, talvez até mais benevolentes do que os primeiros!
 As páginas, os livros e os versos, levam dentro de si, a alma de quem os escreveu. Toda obra, em geral, tem o efeito de catarse, nem sempre buscada, mas incontida sempre. Isto porque, a sinceridade de quem escreve, é sempre difícil de ser controlada, e ainda mais, de ser disfarçada.
 O leitor, tem em mãos uma obra qualquer. Poderá folheá-la com certo interesse. Como poderá relega-la, após esse folheio. Poderá ainda, deixar-se prender, quase que inconscientemente, por aquele fio invisível que conduz a narrativa até o ponto final - marco inconfundível de vitória do autor! A sintonia que une a mente de quem escreve à mente interessada de quem lê, é o objetivo principal daquele que nasce fadado a fragmentar-se, a cada dia, em letras e sinais gráficos que espelham o que pensa, expõem o que deseja, na entrega de sua alma inteira a seres que sequer conhece, mas cuja existência o ajuda a manter viva aquela chama criativa que lhe garante a sobrevivência do impulso indispensável à ação de escrever. E é justamente aí, que a importância do leitor mais cresce! Quem escreve quer ser lido.  E, portanto, quem lê é complemento indispensável ao estímulo e à perpetuidade da difícil arte da escrita.
  O leitor é testemunho público de que, aquele escritor por ele prestigiado, faz jus ao título que carrega, podendo, até mesmo depois de morto, ser considerado imortal, uma vez que suas páginas palpitam ainda em mãos de quem as encontrou numa estante, em formato de livro. E esse alguém, ao ler aquele livro com carinho, salva o autor da triste penumbra do esquecimento, cruel e contumaz apagadora de nomes e memórias, a cada dia que passa.

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CANTIGAS AO MAR

Um castelo ergui, tão lindo,
pondo um sonho em cada ameia...
E o mar da vida, sorrindo,
meus sonhos cobriu de areia!

A vida de quem anseia
ser feliz... Bem alto suba!
Erguer castelos  na areia...
não mais! ... O mar os derruba...

Carolina Ramos

 CEZAR UBALDO DE OLIVEIRA ARAUJO
Brasil

Amo-te, criatura. Teu rosto, teu corpo,
teu ser, amo.
Amo a tua fala presente ou o silêncio.
Amo os teus desejos tão diferentes
dos demais desejos.
Amo a tua palavra que semeias
como pão de cada dia.
Amo o teu pranto pelo irmão,
de sangue ou não.
Depois, o teu sorriso franco e belo
que amo ao invadir-me a alma,
ficando a olhar-te como presente
e futuro,
como único porto seguro!...

Cezar Ubaldo

CIDA MICOSSI, SANTOS
São Paulo - Brasil

PONTE OU ESCADA?

Se ponte não ouso cruzá-la
Se escada o degrau é muito alto
Em ambos os casos
O alvo é inatingível
Sonho, quimera, ganhar o céu?
Melhor guardar
Contentar-me com o troféu
Da sua amizade
Ao inferno
De o amar e não o ter.

Cida Micossi


CLAUDIO FREITAS
Brasil 

O QUE SERIAS ENTÃO. . .

Serias tu, um vento passageiro,
ou um juramento desfeito, sob a luz do luar.
Talvez o apagar de um fogareiro,
uma vez feito, próximo as ondas do mar.

Serias tu, um invento perfeito,
que não teve jeito, de com o tempo, realizar.
Quem sabe a vitoria de um medo,
que guardado em segredo, não se pode guardar,

Serias tu, um breve momento,
que de tão leve, viu se pelo vento levar.
Ou apenas um simples momento,
em que o sentimento, não conseguiu eternizar.

Seria tu, um retrato em branco e preto,
tirado quem sabe, de um imaginar.
Talvez o que não se esperava tão cedo,
achando, que tudo iria mudar.

Seria tu, ou não seria,
um dia, que eu vim,  á sonhar.
Não seria, seria a vida de uma poesia,
que eu ainda, vou por ti, criar...

Claudio Príncipe dos Poetas e Princesa Rosi


CLEYTON DA SILVA ANDRÉ
Laje do Muriaé (RJ) - Brasil

SAUDADES DE MINHA ANTIGA LAJE DO MURIAÉ

Saudades daqueles dias de verão.
Saudades de quando o dia era realmente bom; saudades.
Saudades de quando caía uma leve chuva, e, sozinho,
passava eu em frente à prefeitura.
Naquele tempo, ah! Naquele tempo havia paz nas ruas.


Saudades de quando ouvia os passarinhos cantando, e da saída
da tarde quando via o sol se pondo.
Oh! Quão bom era ouvir o doce som de suas águas.
Ah! As águas do Muriaé.
Oh! Como seria bom se eu pudesse voltar no tempo,
e registrar pelo menos um momento, dessas doces lembranças que
hoje, chegam em meus pensamentos.

Oh! Vento forte! Oh! Forte vento que ronda os meus pensamentos!
Traga mais lembranças a mim desse belo e único tempo.
Tempo que, como uma leve folha voou pelas asas do vento,
e que hoje, é vivo em meus pensamentos.

Tenho saudades de minha Laje;
de minha Laje, tenho saudades.

Cleyton André (Asas do Vento)

CONCEIÇÃO HYPPOLITO
Porto Alegre(RS) – Brasil

OLYMPIA

Posto arco
Fez-se flecha
lançada
alvo ao infinito
no contínuo espaço-tempo
corta o ar
um brilho metálico
raio
risca
histórias de superação
ciência
que se dobra
evolução
revolução
Humanidade.

Conceição Hyppolito



DINORÁ COUTO CANÇADO
Taguatinga (DF) - Brasil

ROSAS BRANCAS

Bem cedinho, ainda escuro
Deparo com algo pulando o muro
E eis que olho atentamente
Pulam, também, pela grade da frente
Rosas, flores que balançam
Presas nuns galhinhos que avançam...
Ainda cheias de orvalho, até molhadas
Querem ser vistas e apreciadas.
Com hora para hidro, não resisto
Paro, medito e até registro
Essa maravilha da natureza,
Encantada, com tanta beleza!
O cheiro espalha-se pelo ar
E inebria a quem passar
Simbolizando a paz é a sua cor.
Branca, traduzindo o amor
Sigo adiante, emocionada...
Com o cheiro da rosa orvalhada!
Avenida das Palmeiras em movimento
Atenção redobrada em aumento.
Êxtase pela beleza irradiada
Cor e perfume, dupla amada!

Dinorá Couto Cançado



DONZÍLIA MARTINS
Portugal

 “CARTA PARA MARIA, MINHA AVÓ”

Farias agora, quando nascesse o Outono, 124 anos!
Nasceste em 22 de Setembro de 1892, assim rezam as escrituras. Se calhar a data de anos que dizias, em Junho, é que estava certa, mas eu prefiro esta, porque te sinto mais perto de mim, dos meus, 25 de Setembro.
Também foi nessa data que tiveste o teu filho, 16 de Setembro, e eu tive a minha filha 10 de Setembro, e esta, por sua vez, teve a sua filha, em 5 de Setembro!
Também para maior comemoração, juntamos-lhe mais um elemento: a minha nora a Né, a 11 de Setembro…
Este foi apenas um pequeno intróito, para te distrair, animar e te dizer que em Setembro os prados continuam a pintar-se de todas as cores, as árvores descansam depois de tanto frutificarem e o sol está mais rubro no horizonte porque espreita a vida para o lado do mar. Apesar das partidas, ele volta sempre no dia seguinte. Mas tu não mais voltaste.
 E contudo continuo a esperar-te como o sol!
Por isso escrevo-te para o além onde agora moras.
 Desejo que daí  enxugues todas as minhas lágrimas  mitigues as saudade, e aceites as orações que cada dia envio para ti.
Sei que estás bem. Num lugar sagrado, merecido, que, com sangue e suor conquistaste. Sítio branco e azul, rodeada de anjos. A  coroar-te deves ter os filhos do amor que gerei no meu ventre para ti e que enviei para te fazerem companhia e, como o apóstolo João, me preparam o caminho.
Mandei um menino grande e lindo que não chegou a abrir os olhos para olhar os meus. Estava sedento de olhar os teus, por isso escolheu ir ao teu encontro antes de se banhar e embalar nos meus braços.
 A menina, que tanto queria viver e que ainda vi querer respirar o mundo, mas este não tinha lugar para ela, disse a ciência, pois não lhe deu o ar que precisava para viver.
Eles te consolem com a sua companhia, com os miminhos que não puderam dar-me nem receber do meu colo de mãe.
 Sei que aí não há tempo, só mora a eternidade, mas hoje lembrei-te mais, pois, se aqui estivesses, farias um punhado de anos!
Sei também que não era possível ficares tanto tempo conosco. Porém, sabes que ficaste, que não partiste, que te guardei inteirinha no meu coração.
Viva, ontem como hoje, como sempre ficarás em todos os dias da minha vida.
 Pego-te na mão, falo contigo e sempre me ouves e atendes os meus pedidos.
Ainda ontem te pedi para abanares o manto sagrado do teu e meu Senhor, porque vives aí mais perto. Ele escuta-te melhor, tenho a certeza, porque tu mereces, és sua eleita.
Tu foste doce, uma mulher heroína e exemplo, mãe coragem, cheia de força, de inteligência, de trabalho, de luta, que sempre recomeçava depois das tempestades, reconstruindo um vasto império à tua altura,
O teu edifício! O maior deles fui eu, como tu dizias, orgulhosa.
Se tu pudesses ver daí!? Como te envaidecerias!...
Havia de trazer-te, de novo a ver o mar. Vê-lo-ias não do chão da tenda em terra batida. Na praia de salgueiros, mas duma janela aberta ao oceano dum vigésimo quinto andar orlada de sol a cada minuto do dia.
Como eu, também gostavas do mar que, já bisavó, viste pela 1ª vez.
Eu vivo o mar. Bebo-o para o despejar em lágrimas de saudade na concha da tua boca.
 Apanho-o na palma da minha mão e ofereço-to inteirinho, gota a gota, para nele pousares o coração.
De vez em quando verte-se um pouco de mar do castanho esverdeado dos meus olhos.
É tão salgado na minha boca!
Com ele lavo-te o rosto coberto de pó que tapa o teu corpo e o cheiro a lavado, fica perfumado e pintado da cor da minha alma.
Sei que daí lês tudo o que escrevo. Nesse tempo, tu nem sabias ler. Só lias as letras redondas. Quiseste aprender a escrever o teu nome, Maria, mas não tivemos tempo.
 Todo o tempo era para construirmos a casa que seria nossa, feita de tijolos de trabalho, paredes de cansaço e janelas de esperança. Não tinha tecto, porque lhe limitamos o céu, nem preço, porque foi construída de sonhos, meus e teus. E os sonhos não se vendem nem se compram, vivem-se.
Das outras casas reais, tenho Cinco! Mas de que me servem sem ti?
A tua casa onde me embalaste guardei-a para te meter lá, inteirinha, comigo.
 Aí converso, aí vivo, aí o meu universo, o meu lugar, com paredes que sempre me falam de ti. Aí cada amanhecer, cada poente no espelho da janela, aí o ninho de palhas tecido, mas, mais fofo que sumaúma. Aí o nosso quarto, o maior e mais lindo do mundo, a minha redoma de saudade que jamais quebra. Só aí sinto o teu sangue correr-me nas veias e, vivo-te nesse palácio onde me fizeste crer que havia fadas e princesas encantadas e eu era a principal.
Há as outras que ganhei por causa do “Tesouro/Curso” que me deste.
 Algumas vão morrendo, com saudade do tempo, em que também tiveram vida.
Mas querida e doce avó/mãe/madrinha, estou reconstruindo tudo, como se fosses tu.
As tuas mãos! Sabes que tinhas as mãos mais ternas e doces do mundo apesar de tanto trabalho? As que mais recordo são aquelas, cobertas de massa, quando amassavas o pão e depois com o cotovelo limpavas o suor e me pedias para arregaçar-te as mangas da blusa! E as que metias no bolso do avental para tirares de lá um miminho para mim:
um rebuçado que te deram, um biscoito que fizeste, um morango que trouxeste do campo…
Vejo também aquelas mãos brancas, de veias azuladas como rios de céu, puras, mas já com artrites, do reumatismo de que te queixavas e eu não via, a tecer aquela colcha de algodão branco no parque de campismo de Salgueiros.
A 1ª vez que fizemos praia e viste o mar!
Eu ia para a praia, tu ficavas a tecer, ponto a ponto, edifícios para mim.
Lembro esse dia, tu, sentada sob a sombra frondosa de um pinheiro, a manejares a agulha do croché e eu a chamar a tua estrela pequenina que viste nascer. Não atendendo ao meu chamamento, repreendi-a com um açoite. Tu, sempre atenta, sempre inteligente e vendo tudo, alertaste:
-“A menina não ouve.”
Era verdade. Desde aí, sempre os seus ouvidos a martirizaram e fizeram sofrer.
Tu vias, sentias e adivinhavas todas as coisas por mais débeis que elas fossem.
 Sabias tudo! Sofrias tudo! Tudo entendias e guardavas no teu coração.
Mulher coragem! Mãe e avó admirável!
 Foste e continuas a ser a mulher que mais amei e admirei em toda a minha vida.
Eu temo tanto a morte! Tenho tanto medo! Queria, como tu, ser eterna!
Alivio essa dor, esse trágico pensamento, crendo que irei encontrar-te para te dar aquele abraço forte há tanto tempo guardado no meu peito. Guardado, para ti. Amo-te.

Donzília Martins  (Tua Zila)
 http://www.caestamosnos.org/autores/autores_d/Donzilia_Martins.html



EDA  CARNEIRO DA ROCHA
Brasil

HOJE EU SOU O VENTO!

Quero ser o vento que passa
Para acariciar-te a alma
Que já de tão cansada... Chora.

As aves do céu, para te fazer companhia
Na tua angústia e na tua saudade.
Não quero que sofras a dor desta distância
Que me invade.
Já vou. Estou chegando,
Com todas as metáforas, pleonasmos,
Hipérboles e metaplasmos.
Comparando a digressão da falta que me fazes,
Nesta imensidão de céu, onde os pássaros voam
Com a velocidade do meu pensamento,
Correndo ao teu encontro.

Nada sou! Nada! Se não te tenho,
Em meus braços agora,
Para te sorver todo,
Em meu corpo enroscado
Como um caracol,
Como um pássaro que perdeu o ninho,
Como o beija-flor que perdeu o rumo,
Na insanidade de querer te encontrar.

Nesta vida de paixão:
Não esqueças!
“Só quero te amar"
Nada sou! Nada!
Sem o teu Amor!


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DE QUEM EU GOSTO...

 Não poderia confessar,
 Nem com este fado...
 Nem com uma súplica no olhar.

 De quem eu gosto...
 Como poderia dizer,
 Se vivo conjugando o verbo amar...
 Como amo nesta vida...
 É o melhor verbo a se conjugar,
 Amo o céu, a terra, os animaizinhos,
 Os lugares que não conheço
 A matiz do teu olhar...

 Como é difícil confessar,
 De quem eu gosto,
 Se nem a mim mesma confesso
 A plenitude de te amar.

 Que posso fazer,
 Se amar é a minha tônica
 E sem ela não vivo não!

 Vou confessar só uma coisa
 Pra ti que é meu amor.
 Confesso, sem ter vergonha que amo
 E amarei, enquanto aqui estiver
  Que quero colher agora um beijo teu...
 Com sabor de açucena ou de alecrim,
 Nas pradarias douradas
 Deste mundo sem fim!..

 Eda Carneiro da Rocha - “Poeta Amor”



ELIANA ELLINGER
Israel

O QUE?...POR QUÊ?...

O que eu fiz que não deveria fazer,
O que eu não fiz que deveria ser feito?
Perdida aqui no espaço do nada,
Sinto-me só e triste e abandonada.

O que eu disse que não deveria dizer,
O que eu não disse que deveria ser dito?
Por que num repente tudo mudou,
Por que já não sei mais o que sou?

O que eu dei que não deveria dar,
O que eu não dei que deveria ser dado,
Sozinha no tempo e meu barco acostado?

E o medo dos passos na minha jornada,
Simplesmente caminho sem saber onde ir,
Buscando um alento para prosseguir.

Eliana Ellinger



EVANDRO VALENTIM DE MELO
Brasil

SERÁ QUE A HISTÓRIA SE REPETE?

- José? Não acredito! Há quanto tempo! Ainda ontem, a turma falava em você.
- Como diz o velho ditado: quem é vivo sempre aparece. Falava bem ou mal?
- Falávamos que você havia desaparecido. Seu filho se mudou e não tínhamos nem ideia de onde procurar informações sobre você.
- Ele foi para o estrangeiro. Bastou eu transferir para o nome dele os bens que eu dispunha, ele vendeu tudo e partiu para os “States”. Disse que não volta mais.
- E você, como ficou? Onde mora?
- Em um pensionato. No outro lado da cidade. Não tenho mais casa, mas a aposentadoria dá pra viver. Sem luxo, mas também, sem muitas privações.
- Pensionato? Que decadência!
- Deixe de preconceito, você nem conhece o lugar. É bem aprazível.
- Se você diz... Mas você está bem disposto, parece que está de amor novo.
- Está na cara?
- Acertei?
- Acertou.
- Como isso foi acontecer, depois de tantos anos de viuvez?
- Cavalo velho gosta de capim novo. Conheci a Maria lá no pensionato. Ela é a cozinheira. Faz cada coisa gostosa...
- Seu velho sem-vergonha!
- E em breve vamos pôr as escovas de dente no mesmo armário.
- Sério? Vocês vão morar juntos?
- Isso. Ela também é viúva e está grávida. O pai do bebê morreu em um acidente de trânsito. Temos nos dado muito bem.
- Você é corajoso, a essa altura da vida, viver com uma mulher bem mais jovem, e ainda por cima grávida! Sabe que vão falar muito...
- Enfrentaremos tudo. Estou disposto. Maria também. Depois que ela se achegou a mim, a vida ganhou mais cor. Arrisco dizer que ambos estamos bem felizes.
- Mas e essa criança?
- Será como meu filho. É um menino. Algo me diz que ele vai ser alguém importante. Já mudou minha vida e sinto que vai mudar a de muita gente, pra melhor. Essa ideia não sai de minha cabeça, não sei o porquê.
- Bem, conheço uma história assim, bem antiga. Nela, havia um José, bem mais velho que a esposa, Maria. Ela, por sua vez, também esperava um filho, cujo pai não era o marido. Igual a você, o outro José também o assumiu como um filho. Essa criança, realmente, mudou a vida de muita gente e continua influenciando vidas até hoje. Conhece essa história?
- Você só pode é estar doido em fazer tal comparação. De qualquer forma, inspirou-me a investir ainda mais na relação, que só há pouco começou. Agradeço suas palavras. Agora, devo ir, pois a viagem até o pensionato é longa.
- Até mais ver, José. Leve meu abraço à Maria. Felicidades a vocês.

Evandro Valentim de Melo




FABIO RAMOS  (COMENDADOR POETA)
Brasil

Trecho do Romance: “O CORAÇÃO DE LORENZO”

Naquela tarde ao pôr do sol junto ao inseparável amigo John, estava Lorenzo a beira mar pensando no sonho vivido intensamente, sem entender a razão e porque Sofia era apenas seu sonho.
E se VOCÊ viver uma vida toda sem ninguém esperar por você? Perguntou John a Lorenzo, que olha ao longe, respira sereno, e firme responde:
“Não sei por quanto tempo viverei, mas enquanto houver suspiros vou amar com todo meu SER, talvez não compreendido, mas intensamente dentro de mim serei feliz, amarei de verdade, sem medo, sem discriminação, e até mesmo que não correspondido, pois só um coração que ama de verdade sabe a grandeza de um sentimento sem fim, e por tudo isso que sinto, aprendi que o AMOR é imperfeito, e que nada posso esperar dele ou de quem deveria retribuir-me com este mesmo amor, mas mesmo assim o sentirei com todas as minhas forças, seja ele duradouro ou apenas um verão. Frustrações eu vivi, sentimentos mal resolvidos, decepções, lágrimas que insistiram em rolar de meu peito, de olhares que busquei beijos que desejei, carinhos que sonhei um amor que foi sonho, que me fez entender que talvez EU seja apenas um sonho, e me traz a dúvida de minha própria existência, são tantas as “incertezas” que nem mesmo sei se existo.”
Não posso entendê-lo Lorenzo, você vive um mundo de incertezas a busca deste amor que te perturba e te maltrata. Que vida é essa que te condena a viver sonhando com alguém que não existe? Não há porque sofrer por uma ilusão avassaladora, que te destrói sem dó, que te corroe sem piedade que te faz prisioneiro de uma verdade que não é a sua. É sua própria vida que se esvai por tuas mãos, é sua própria alma que vaga solitária na ilusão de outra alma que possa te completar, essa busca sem rumo, que te faz perder o sono e que te faz prisioneiro das palavras que escreves nas madrugadas infindas para confortar teu próprio coração.
John, meu amigo John, jamais entenderás o vagar de minha alma condenada em busca de meu amor, este amor que sonhei e só puder ver em meu sonho, que acabou em uma imagem sem um nome, sem saber quem é meu verdadeiro amor, apenas a força mais forte e sublime que já senti em minha vida, embora sonho senti em mim como se tivesse vivido cada segundo de minha vida ao lado dela, como se pudesse tê-la amado em toda a plenitude de minha existência. Eu pude tocá-la, e sem dizer uma só palavra nossos olhares se cruzaram fizemos de duas almas uma só alma, pude sentir o abraço forte, o calor do corpo dela, o cheiro, a pele, senti a respiração ofegante e o coração batendo descompassado, e só estas lembranças que me restam, se fazem esperança de que ELA verdadeiramente existe em algum lugar também a me procurar. Eu vou seguir John, em uma eterna procura, “porque loucos são os que não se cansam de procurar”, e mesmo que eu jamais a encontre, serei completamente feliz, porque por um instante, um só instante, e mesmo que apenas em sonho, eu amei e fui feliz por toda uma vida.
O silêncio tomou conta dos dois, e John mesmo sem aceitar e entender o que Lorenzo acabara de dizer, o apoiava, por conhecer a teimosia de Lorenzo, um exímio escorpião inquieto e voraz, um homem que jamais desistiu de seus sonhos, afinal convicção do que pensara era a marca mais forte de Lorenzo, que sempre carregou em si a certeza de tudo o que vivera até então.


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ETERNIDADE

Que ao entardecer o sol possa ir descansar seu brilho
E a lua torne-se a dona da noite
Que as estrelas iluminem seu caminho e,
a brisa do mar toque sua face a beijar-te em acalento,
E debruçar em teus braços o amor que dele vem
ao teu encontro e te faz ser a pessoa que és...
Que sinta em teu peito o que te faz valer a pena
E que as alegrias inundem teu coração e teu sorriso seja um espetáculo aos que te vêm, que teus olhos sejam apenas um caminho para que vejas o real,
Para que tua alma, seja morada do inexplicável, do eterno
E que o mundo seja apenas um detalhe,
quando a dádiva do universo é a tua existência...
E que você simplesmente seja a pessoa mais feliz do mundo...
Abra seus olhos, veja além, sinta além, viva o eterno em teu peito em tua alma,
E ao encontro do teu próprio "eu" irás
E se os caminhos difíceis parecerem, chame o teu coração
Ele te guiará o destino eterno de teu amor

(Comendador Poeta): Fabio Ramos




FÁTIMA MELLO
Brasil

SOU

No manancial da verdade
me banho desnuda
entre hibiscos e flores multicor
me deleito em seus perfumes
Sou manha de sol radiante
entardecer de sol poente
sou límpida como cristal
sem macula procurando sempre
da imperfeição me furtar
Procuro ser sempre chuva mansa
que molha a terra sem destruir,
ser sol da primavera
que as arvores ajuda a florir.
Sou verdade sou amiga
O verbo mentir não sei conjugar
prefiro sempre o verbo unir
pra que possa em minha cama dormir.


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ETERNA CRIANÇA
   
Crescemos,
Hoje nossos sonhos são outros
nossa forma de brincar é outra
mas o brilho e a certeza
de continuarmos como a criança
que um dia sem preocupações
só com sonhos de crescer
hoje nossos sonhos chegaram,
nossas brincadeiras são centradas

cheias de preocupações
antes o único desejo era brincar
Hoje a vida nos trás por vezes dissabores, mas
Pobre daquele que se esqueceu de criança ser!

Fátima Mello - [fofinha]


FÁTIMA MOTA
Natal (RN) - Brasil

TRANSLAÇÕES

Ela era quase dia
Indissolúvel
Cheia de idiossincrasias.

Ela gostava de ser livre
E partir, de popa em vento
Pipa livre
Nos céus ao anoitecer.

Ela vivia feito a noite
De fases, feito a lua.

E, feito lua, de quando em quando
Ovulava versos.

Ela vivia prenhe de amor e poesia.

Fátima Mota
 

FRANCISCO DE PAULA
Taguatinga (DF) - Brasil

PRIMAVERA E FLORES

O prenúncio de uma bela estação
Depois das árvores desnudadas
Com os galhos erguidos ao céu
Como se clamando a Deus...
Envie chuva para nós
Que estamos morrendo de sede.
Daí uns dias o tempo muda
O céu se reveste de um manto negro
O vento sopra raivoso
Relâmpagos rasgam o manto em trevas
Trovões retumbam nos vales e campinas
A chuva cai na terra
E a terra ensopada transforma a natureza
Que antes parecia morta...
As árvores se enverdecem
Ipês e quaresmeiras,  tantas outras flores
Enfeitam a natureza
Cores branca, amarela, roxa, vermelha, lilás e cor róseo
Borboletas multicores, abelhas e beija flores
Cruzam os ares disputando a flor mais bela
Para colher o néctar
E deliciar da doçura do mel perfumado.

E assim todos alegres
Celebram o festim primaveril.

Francisco de Paula



FRANCISCO MARTINS SILVA
Uruçuí (PI) - Brasil.

A FRIAGEM DO VENTO

Vento, sopro de ares pelo espaço,
Brisa que envolve corpos no tempo
Faz-nos sentir sua brisa quando na pele o seu contato.

Quando nos toca com sutil abraços
A friagem do vento dar-nos arrepios
Afagando-nos em todos os nossos passos.

Ficai conosco, oh, Vento, e contagia-nos sempre.

Tua friagem nos faz sentir a harmonia e a pureza do tempo.

Francisco Martins Silva


GERCI OLIVEIRA GODOY
Porto Alegre (RS) - Brasil

SABER OLHAR

Havia flores, muitas flores naquela praça, mas tinha uma flor amarela bem diferente, ela era grande, muito grande. Então se sentia só, no alto de seu caule. A flor sonhava em ter irmãs com quem pudesse conversar, mas qual, ela era tão alta que as outras, margaridas, rosas, cravos violetas, sequer a alcançavam com seu o olhar de flores pequenas.
O tempo ia passando, a flor grande ficando velha, e nada, ficava lá no alto espiando, vendo aquele colorido bonito, sem poder se comunicar. Se ao menos tivesse um namorado, uma filha...
Foi então que começou a olhar para cima. Primeiro viu o Sol nascendo e apertava os olhos para ver os reflexos, depois o por do sol, o céu avermelhado no poente, tudo tão lindo. Quando veio a noite, a estrela vespertina e em seguida a via láctea e logo a lua redondinha e prateada. E pensar que até então só olhara para baixo...
Flor Grande ficou até mais viçosa virava o caule para todos os lados e via longe, longe...
Um dia ouviu um chorinho fraco e logo quis saber de onde vinha. Próximo dela tinha uma árvore e era de lá que vinha o choro.
Perguntou: - Onde você está? Porque está triste? E a voz respondeu: - É que sou muito pequena, ninguém me vê, e não consigo sair daqui... Onde, onde? Perguntou Flor grande, aflita. Aqui, na ponta do galho que está atrás de você. Anoiteceu e Flor Grande não conseguiu enxergar mais nada.
Pela manhã acordou se espreguiçando e foi se virando, seguindo o sol e viu uma pequena flor rosa que se abria ali bem perto, então estendeu os longos dedos e aparou a Flor Pequena antes que ela caísse.
E enquanto viveram, o Girassol e a flor de pessegueiro eram as flores mais alegres da praça.

Gerci Oliveira Godoy

GILBERTO NOGUEIRA DE OLIVEIRA
Brasil

DE REPENTE... CORDEL: "PROFESSORA”

 (Não poderia alcançá-la
Nem que fosse com corrente)
Quando eu era menino
Eu pensava que corpo docente
Era o corpo da professora
Mas como ela era crente
Eu não poderia sonhá-la
Não poderia alcançá-la
Nem que fosse com corrente
Depois cresci com saudade
Das coisas que a gente sente
Pela querida professora
Quando eu era inocente
Fiquei confuso e atordoado
Não poderia alcançá-la
Nem que fosse com corrente.
Aos sete anos de vida
Caiu o primeiro dente
Puxaram com um cordão
Isso não me deixou contente
Saudade bicho danado
Não poderia alcançá-la
Nem que fosse com corrente.
Agora com a boca completa
Usava escova de dente
Quando pensava em namorar
Meu corpo ficava ardente
Mas a saudade da professora...
Não poderia alcançá-la
Nem que fosse com corrente.

 Gilberto Nogueira de Oliveira



GISLAINE CANALES
Brasil

PEDIDO

Peço aos irmãos, aos filhos e aos amigos,
que, quando a morte venha me levar,
não coloquem meu corpo nos abrigos
cimentados, gelados e sem ar!

E nem me ponham em belos jazigos!
Nesses lugares, eu não quero estar!
Tristeza e solidão são os perigos.
Minha alma quer seguir a navegar!

Por isso eu peço a quem me queira bem,
leve meu corpo longe...  até o mar!
Onde haja céu!  Onde vente também!

Nesse lugar azul só de beleza,
lancem ao mar o que de mim restar,
quero ser parte dessa natureza!

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A CRIANÇA EM MIM

Gislaine Canales
Glosando Delcy Canalles

MOTE:

A criança que eu trazia
dentro de mim escondida,
hoje, vive na poesia,
chorando restos de vida.

A criança que eu trazia
guardada em minha lembrança,
esqueceu-se que a alegria
mora junto da esperança!

Enrolada em solidão,
dentro de mim escondida,
sem conhecer afeição,
ficava inda mais perdida!

Veio o sonho... uma utopia,
e com ele, muitos versos!
Hoje, vive na poesia,
cantando seus Universos!

É o canto mais lindo e triste,
dessa criança crescida,
que, em sua canção, resiste,
chorando restos de vida!

Gislaine Canales



GLADIS LACERDA
Copacabana (RJ) - Brasil

LIBERDADE INDIVIDUAL

Alguém me perguntou por liberdade.
Pra falar a verdade, tô por fora.
De prisão a gente sempre entende
mas do contrário, a coisa embola.

Mas vamos lá...
Será liberdade a faculdade
de sair e chegar a qualquer hora?
E quando não saímos por falta companhia,
não bate a sensação de vida vazia?
Por isso quando se fala em ser livre
 (e é pra isso que se vive)
é necessário saber, nessa luta,
que a liberdade absoluta
é, muitas vezes, pior que a solidão
Quem sabe liberdade seja
o equilíbrio necessário à escolha
do melhor tipo de prisão?
E são tantos e tão variados...
Mas sempre têm um senão:
-Ter alguém para amar
(mas é tão difícil encontrar,
na medida certa, o par)
-Optar pela companhia de bons livros
(pode viciar e tornar-se indesejável prisão)
-Pelo papo virtual com os amigos
(onde também se corre esse perigo)
É uma escolha que abrange até
a vivência enriquecedora da fé
que também precisa ter medida
pois, para se encontrar a outra,
não podemos deixar passar esta vida.
Por isso nós, homens livres,
para evitarmos freqüentes frustrações
vamos tentar escolher
as melhores prisões.

Gladis Lacerda


HUMBERTO RODRIGUES NETO
Brasil

SONHO DE CRIANÇA

Após o término da aula de Evangelização Infantil, no Centro Espírita, Raquel, uma das meninas conversa com sua coleguinha Márcia, um pouco mais nova que ela, demonstrando achar-se algo triste:

— Marcinha... Está havendo algum problema com você?
— Não... Por que  você está me perguntando isso?
— Porque hoje, na classe, achei que você estava um pouco triste...
— É... Ando um pouco chateada, sim. São os meus pais, sabe?
— Ué... Que é que têm os seus pais?
–– Sei  lá...   Às vezes fico pensando que eles gostam mais da televisão do que de mim.
— Que  é isso?  Mas que bobagem!
— Bobagem?  Olha:  quando a minha mãe está vendo a novela  eu não posso dar um pio.  Não permite que eu abra a boca! Isso é vida?
— Mas, Raquel... Não pense que a minha mãe seja muito diferente da sua. É  claro que  às vezes, durante o intervalo dos comerciais  me ajuda em alguma dúvida nas lições da escola, por exemplo.
— Ah, então sua mãe é um pouco mais gentil que a minha. E o seu pai?
— Bem... Aí a coisa fica um pouco mais difícil. Mesmo assim, uma vez ou outra ele me dá um pouco de atenção enquanto está assistindo ao futebol ou ao noticiário.
— Pois com meu pai já é bem diferente.
— É mesmo? Como, assim?
— Ah... Ele chega  em casa, joga a pasta e o paletó numa cadeira,  e nem sequer  me dá um beijo. Liga a televisão no futebol ou no noticiário, se escarrancha no sofá e não quer nem saber de nada. Só me dá alguma atenção nos intervalos, e mesmo assim, ó...  bem rapidinho, sabe?
— Eu  entendo Marcinha...   Mas, quantas  vezes  a  D.ª Cristina,  nossa  Evangelizadora,  não nos disse para termos paciência com nossos pais? Às vezes sua mãe  pode estar cansada, e...
— Cansada?  Cansada disso tudo ando eu, Raquel!
— Calma amiguinha... Calma... Vamos devagar.
— E  se a televisão queima... Ah... Não dá outra:  Eles correm como uns loucos  e mandam consertá-la num instantinho. Não conseguem passar nem um dia sem ela!
— E quem é que passa sem televisão? O conserto tem que ser rápido, mesmo, pois a televisão faz parte do lazer diário da família.
— Só que lá em casa, o conserto da TV  é “vapt-vupt”!  Mas quando é para me comprar um vestido novo... Chiii...  Aquilo demora séculos!
— Mas, isso são provas que temos de sofrer nesta encarnação, conforme  ouvi  numa palestra.
— Eu sei disso, Raquel. Eu também aprendi numa palestra que a gente pode escolher o tipo de vida que deseja ter na outra encarnação. Só assim é que eu vou  conseguir acabar com essa falta de atenção do meu pai e da minha mãe.
— Já sei. Você vai pedir para nascer em outro lar, como filha de outros pais, que sejam mais compreensivos. É isso?
— Não, Raquel! Não é isso não! Eu gosto muito deles dois. Vou pedir para tornar a nascer no mesmo lar.
— Espere  um pouco. Não entendi.  Desse jeito   os seus problemas vão continuar.
— Não vão  não, Raquel. Já pensei em tudo, amiguinha! Nesse novo lar meus  pais de hoje vão me adorar!
— Mas, de que forma você vai conseguir isso?
— Eu vou pedir para ser a televisão!

Humberto Rodrigues Neto

 
 

ISABEL C S VARGAS
Pelotas (RS) – Brasil

SETEMBRO

Já escrevi vários textos sobre o mês de setembro. É um mês que me encanta pela perspectiva que ele encerra: mudança, renovação, alegria, beleza, colorido, diversidade.

Viver implica em mudança, embora muitos não a percebam.

O que mais me toca é o renascimento que este mês apresenta. Embora chova em minha cidade e a temperatura tenha caído, sei que daqui mais uns dias teremos flores desabrochando. Isto encanta meus olhos e minha alma.

Ontem, vi minha trepadeira denominada de flores cor de rosa começar a encher-se de folhas. Eu a tenho a cerca de trinta anos. Como ela é muito vigorosa/ quando os galhos estão muito longos, eles pendem para o lado do vizinho que não gosta. Este ano contratei um ajudante para fazer a poda nos meses corretos. Há cerca de uma semana a observava e pensava que havia sido cortada em demasia. Pois vi que sua ramagem já está florescendo bem. Quando chegar o final do ano ela estará toda florida. Isto nos dá a certeza de que tudo se renova que a vida é feita de ciclos e o desapego é importante.

Inspirada por este início de mês e consequente troca de estação, ontem desfiz-me de uma série de papéis que não mais teriam sentido conservar. Pensei: Um novo ciclo está a começar, é oportuno abrir espaços. Por mais certa que esteja de que é preciso fazer mudanças em nossa casa, nossa alma, muitas são difíceis, dolorosas, mas por algum ponto temos que iniciar.

Por influência da época meu coração se alegra. Desde que meu corpo envelheceu sei que os meses de inverno são os piores para os idosos. Chegar setembro é vencer as agruras naturais, o que me fortalece para enfrentar as atribulações do cotidiano, até porque, como falei, só meu corpo envelheceu.  Meu espírito é outra história e é por ele que tenho enfrentado e crescido com as dificuldades que tive de passar, saindo fortalecida e confiante no propósito divino de crescer e evoluir.

Quem venha muitos setembros para me abastecer de esperança e renovar minha certeza de que a vida é um presente.

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BORBOLETAS: SÍMBOLOS DE VIDA E AMOR

Ser encantado, frágil, efêmero.
De significado imortal
Trazes beleza sem igual,
De forma gratuita e generosa.

Símbolo de leveza e transformação
Representas mais em simbologia
Do que teu tempo de vida.
Alegras os olhos que te enxergam.

Tua beleza é pura, frágil, quase intocável
Como as crianças recém-nascidas.
Tudo é poesia ao teu redor.
Todos temem te macular.

Tua existência é uma lição da natureza:
Nada dura para sempre,
A vida por si só é uma dádiva.
Não importa o tempo que dure.

Tudo é transformação, mutação
Saber aceitar o imutável é sabedoria.
Em tuas asas levas a essência do amor.
Transmutação é a essência da vida.

Sem lamento e sem dor
Vives a enfeitar o que te cerca.
Vida e morte são ciclos naturais.
E quem morre renasce para a vida eterna.

Isabel C S Vargas





IVAN BRAGA
Taguatinga (DF) - Brasil

CALIANDRA

Caminho de casa
Meio da campina
Caliandra acende
Meus olhos de ver menina

O ônibus cheio de passageiro
Pego o rumo da Bahia
O Goiás me acha ligeiro
Na prosa e na poesia

Caliandra ficou pra trás
Mais finca o pé no meu sono
Desanda até no fim das Gerais
Filmando sonho de cão sem dono

Caliandra tem um vermelho da beleza
No verde que vai encarando o azul do céu
A malandra me manda pra natureza
De minha doce solidão do mais doce mel

Caminho de casa
Meio da campina
Caliandra é sempre assim.

Ivan Braga

IVONE BOECHAT
Niterói (RJ) – Brasil

VITÓRIA

Nas duras lutas
da jornada nesta vida,
quando ofensas,
mágoa, ingratidão,
mentiras e falsidades,
ameaçaram vencer
a resistência
na corrida por um norte,
não perdi a força
nem venceram as maldades;
o amor não morre não,
sempre presente
se agigantou,
cada vez mais forte,
correu,
chegou na frente,
desfraldou a bandeira
da vitória,
nos braços do
perdão.

Ivone Boechat



IZABEL ERI CAMARGO
Porto Alegre (RS) - Brasil

OS TRILHOS DA FLORESTA

Trem romântico azula vagões de amor
leva encanto no olhar das almas forasteiras
viaja na estrada da beleza
a esperança verdejante cria  pintura deslumbrante
árvores vivas mudam de cor no caminho do galanteador
janelas  abertas para a vida levam memória
aos viajantes  construtores de sua história
a natureza  é um palco gravado
no neocórtex  da humanidade.  

¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

CONFIDÊNCIA

A alegria de viver está tatuada em minha memória
Meu coração é confidente do mundo
O tempo corre, voa, acontece

A nobreza da vida transparece em um segundo
Almas cantantes surgem desalinhavadas no ar
Sua luz brilha na boca de prata

Aplausos sonoros sorriem
Semeiam pérolas nas palmas da vida.

Izabel Eri Camargo



JACÓ FILHO
Brasil   

SUBLIME DESEJO

Gemes me abraçando e a sorrir me beija.
O fogo que me queima se o mesmo faço,
Explode desejos represados sem cansaço,
Em sussurros quentes que o amor solfeja.

O frio dá-se ao ardor e no calor nos toma.
Uma canção na rua canta a nossa loucura,
Dos sublimes desejos que o corpo procura,
E só o coração puro, com amor, lhe doma.

O beijo que nos cala em saudade enfeitiça,
Provoca outras vezes inquietações divinas.
Ouvimos nossa alma, bendizendo as sinas,

Que indicam a trilha, moldando as treliças,
Unindo-nos pra sempre como nesta matina.
Onde sou seu escravo, você minha menina...

No visceral desejo, constato tristezas,
Orquestrando dores, para noites frias,
Forçando recordação que antes trazia,
Inspirações pra fazer do amor realeza...

Nas mãos prodigiosas sob as cobertas,
Argumentos de prazer em tempo real,
Levam em loucuras nunca vivido igual,
Doses elevadas das paixões despertas.

Entoando seu canto, pousa no telhado,
Torturante coruja chamando teu nome.
Aumentando a dor que já me consome.

Reclamo a lua, sobre o sonho dourado,
Da essência divina, pra noites insones.
Enquanto na mente, já crio o teu clone...

Jacó Filho


JANSKE NIEMANN SCHLENKER
Brasil

SEM PREÇO

Eu não falo do meu amor
porque não existe
palavra que o defina.

Não posso vender meu poema
porque o meu poema
não tem preço.

Assim, lanço meu amor
e meu poema
aos braços do vento,
porque também o vento
não tem preço...

Janske Niemann Schlenker



JOÃO BOSCO SOARES DOS SANTOS
Brasil

MINHA FORMIDÁVEL VIZINHA MARIA (do livro “Minha Aldeia”)

Que beleza de pessoa! Jamais vi Maria zangada, em qualquer minuto de vida, durante os longos anos em que fomos vizinhos.

Se alguma vez sofreu ataques que a contrariassem, jamais deixou transparecer em seu rosto. 

Sempre estava alegre, carregando seu sorriso sério e sincero, cativante e prestativo. 

Simples, segura, sensata e objetiva ao ouvir, ao falar, ao gesticular e ao tomar qualquer decisão, ainda que parecesse ser complicada ou difícil. Extremamente paciente e magistralmente tolerante. Às vezes penso que essa minha maneira de aceitar os fatos e acontecimentos com a mais natural tranqüilidade, ainda que surpreendentes ou estranhos, foi, em parte, assimilada do modo comportamental de Maria. É também possível que parcelas de outras belezas espirituais e harmonias vivenciais que Maria provava possuí-las tenham passado para mim, direta ou indiretamente, em parcelas ou nuvens de lembranças, em face do nosso longo e agradável contacto diário, tecendo uma excelente convivência como bons vizinhos. É que eu, como muitas pessoas amigas, tínhamos o costume de sentarmo-nos na ponta da alta calçada, construída em uma das frentes da minha adorada casa, passeio este que se salientava pela comprida rua principal, à sombra do generoso flamboyant, sempre cheio de verde, e a esparramar-se em dadivosa sombra. 

O outro lado, ao sul, recebia todo o indiferente e inclemente sol das tardes e iniciava a curta e irregular Rua do Garguelo. 

Ali, naquele cativante lugar, trocávamos palavras, alegrias, sorrisos e recebíamos o suave vento, que, quase sempre em ares de brisas carinhosas, chegavam do Rio São Francisco, a qualquer hora do dia ou da noite.

Nossas casas separava-nos apenas por um espaço de cerca de cento e trinta centímetros, a que chamávamos de beco, por onde passavam lavadeiras, carregadores, vento, luz, brisa e o ar. Convivíamos felizes. Muitas pessoas adoravam ficar ali sentadas, proseando, como dizíamos. Também dali, víamos, em nítidas visões reais, alguns comportamentos, atitudes e ações e ouvíamos conversas e falares, porque, na verdade, era uma posição privilegiada, de onde podíamos ver e ouvir grande parte dos acontecimentos comunitários. E Maria, sempre equilibrada, ponderada, comedida, tranqüila e prudente, em seus comentários, era um excelente exemplo de comportamento familiar e comunitário. 

Maria costumava aglutinar e esparzir seus pensamentos, sonhos e idéias, colocando as mãos sobre a ponta do cabo da vassoura, com que varria a calçada e parte da rua situada em frente à sua casa, e, sobre as mãos, colocava o queixo.

E assim permanecia, às vezes, por longos minutos, filosofando ou remoendo sobre a vida, imagino, vendo a longa rua e grande parte de tudo que se passava à sua frente, e no próprio povoado, mas sempre com os olhos e a mente a alcançar outras distâncias de tempos e espaços, ou talvez a querer repescar seus belos instantes vivenciais, escondidos nos recônditos dos baús das suas doces recordações, ou guardados em cenários e cenas inesquecíveis. 

Gostava de conversar comigo, mas o meu vocabulário e o meu repertório de menino e de adolescente, por ser curto, vazio e seco, pouco ou quase nada adiantavam. É que sempre fui mais de observar de que comentar, relatar e dizer.

E, em face da minha mudez monossilábica, Maria voltava a emudecer-se em sua voz de solitário silêncio, enquanto conversava com o tempo, que passava ou voltava, pelos seus universos visionários e imaginários, a catar pequenas alegrias ou esperanças de felicidades.

Maria tinha um belo, grande e manso gato cinza, chegando-se ao azul e ao preto, em face de algumas rajas mais fortes, daquelas duas cores. Era seu “xodó”: manso, grande e mimoso; era seu bom e sensível amigo e seu companheiro de conversa e de desabafo. Era muito bem tratado e dengado. Ao que parece, gostava muito de Maria, porque, sempre que possível, estava em seus braços a receber carinhos. E assim dormia e dormia; miava e miava sonolentamente feliz.

A diferença de idade entre mim e Maria era superior a vinte anos. Mas nos entendíamos muito bem e especialmente como vizinhos, apesar de sempre estarmos em lados opostos, politicamente.

Um dia, numa tarde de outono sertanejo, eu já com mais de 22 anos, trouxe um disco - um elepê - do instrumentista Poly, comprado em Petrolina, onde estudava, e o coloquei na radiola. Era assim que se chamavam os primeiros toca-discos comerciados. Após ouvir todas as faixas do grande disco de vinil com doze faixas de músicas diversas, repeti, algumas vezes, bem alto e a bom som, a música que me pareceu mais bela: “En la fronteira del México”. Encerrei, desliguei o som e voltei para sentar-me no meu trecho de calçada preferido, que era um agradável e alto banco. 

Quando saí pelo portão, deparei-me com o mais belo e, surpreendentemente, o mais triste e intraduzível dos sorrisos de Maria. E seus olhos negros navegavam entre as mais brilhantes e copiosas lágrimas, talvez as mais doces e, ao mesmo tempo, as mais doridas. Olhamo-nos, sem nada dizermos um ao outro, mas vi que seus olhos rebrilharam com mais intensidade, fitando e acompanhando os horizontes e as poucas nuvens, e, ao depois, voltando-se na busca dos meus.

 Fiquei sem nada entender. 

A tarde descia levada pelo sol que queria dormir mais uma noite. Entrei em minha casa, e, por acaso, encontrando-me com uma de minhas irmãs, contei-lhe o ocorrido. E ela me respondeu, fazendo-me entender:
- Maria viveu um intenso, bom e longo amor, que nasceu e foi embalado com carícias e afetos, ao som dessa nostálgica música tantas vezes repetida; essa mesma música que você quase não parava de tocá-la. E o adorado parceiro desse seu amor quase lenda, a trocou por outra, com quem se casou e teve filhos e netos, longe daqui.

Longos anos depois, já viúvo, esse senhor já velho e único amor de Maria, veio, pessoalmente, até ela pedir-lhe perdão, pelo brusco rompimento daquele lindo, bom, mas não concretizado amor, que, forçosa e amargamente, instalou-se eternamente no sopé do altar das sós lembranças de Maria. E ela, com a sua costumeira e humilde complacência, de imediato recebeu-o e perdoou-o, e ainda presenteou-o com o mais doce de seus sorrisos, para ela o bastante para eternizar aquele confortante e rejuvenescedor instante, essa só ligeirinha felicidade de voltar a tê-lo e a ouvi-lo bem pertinho, olhos nos olhos, cheiro no cheiro, depois de eternos e inesquecíveis 60 anos de separação. 

Para ele, que não considerou ser apenas um dever cumprindo ou uma simples descarrego de consciência, que o atormentou e impiedosamente o atormentava, e de modo doloroso, desde tantos e tantos anos, foi a última oportunidade de voltar a beijá-la; e jamais poderia perdê-la, custasse o que custasse.

E o fez repente, energizado e fermentado pela emoção, pediu-lhe licença e ofertou-lhe este tão doce e desejado beijo na testa, sem esperar qualquer resposta.

Foi, paradoxalmente, o mais amoroso e cruel beijo-adeus, salpicado de soluços e de desesperanças; um adeus de real despedida; e para sempre, pra lá de último, em meio a tanta alegria-dor, e na mais triste das tristezas e quase sendo morte.

E foi, com certeza, e simultaneamente, um dos mais terríveis e encantados momentos e talvez o mais belo dos minutos daquelas duas vidas: o de pedir e o de receber, com deliciosa e feliz cumplicidade, o mais desejado e ansiado perdão pedido e atendido.

A única testemunha presente não pôde perceber se as lágrimas da emoção desceram por aqueles pares de olhos porque se esconderam sorrateiras nas almas dela e dele; apenas vira rebrilhos de longevos e velozes pedaços de deslumbres, navegando pelos mares daqueles dois pares de olhos, que energizavam o afetuoso sorriso, a naufragar-se nas adocicadas lágrimas de uma realentada e deslumbrada Maria, abarrotada de felicidade e, ao mesmo tempo, de uma quase explosiva e longuérrima emoção tão carregada de dor, saudade e tristeza, que parecia estar a dar uma volta em torno do nosso planeta.

Ele, poucos dias depois desse último encontro, transportou-se para o universo dos espíritos, deixando filhos e netos. Maria, ainda hoje, continua sozinha, com uma irmã, vivendo da só lembrança daquele seu lindo, envolvente, único, grande, eterno e inesquecível amor e sem seu gato de estimação, e registrando para a sociedade o seu exemplar e bondoso modo de viver sozinha, sem mágoas, sem se considerar sofredora e sem jamais ferir nem perturbar qualquer ser humano. 

A bem da vida, Maria sempre foi, é e será um fascinante e especial exemplo de beleza humana; um formidável modelo de paciência e equilíbrio santos. E Deus, com absoluta certeza, sempre a protegerá aqui e continuará a protegê-la, quando transmudar-se para o outro momento de vida.

João Bosco Soares dos Santos



JOÃO COELHO DOS SANTOS
Brasil

UM DIA ESCREVI

Que o mais lindo de meus sonhos
Em ti começou e ainda não acabou;
Que a estrela não cai, só treme,
Como o marujo da caravela ao leme;
Que tu és o barco, e eu sou o vento
Que sopra e murmura um lamento;
Que o oceano não é uma simples gota
Nem que nele ela se esgota;
Que no palco da vida
Cada dia é uma estreia
Pela qual o público anseia;
Que nossa espada é menos forte
Que nossa cruz aos ombros de Jesus;
Que minha alma é escrava da tua
E sem ti vagueia à luz da lua;
Que não importa a idade
Porque o homem vive para a eternidade;
Que não tem mistério o nosso amor
Pois lhe basta resistir ao agressor;
Que o poente também é belo
Quando o sol se esconde
No outro lado do castelo;
Que quem se apaixona
Por Deus não envelhece
(mistérios que a fé tece);
Que a alma é um núcleo
Do divino em nós e nunca estamos sós;
Que, com teu gaiato sorriso,
Se abriram as portas do paraíso;
Que sementes de sonhos lancei,
Quando por ti me apaixonei;
Que numa cantiga, fizemos vida
Quando me deste guarida;
Que não te cansas de amar quem amas,
Nem nunca desistes do amor,
Mesmo que te cause dor;
Que renovas todo o sonho que morrer
E rejeitas a ignorância dos afetos,
Mesmo se dos mais diletos;
Que ao mundo deves transmitir alegria e fé
Como ensinaram Cristo, Maria e José;
Que, como inocente criança,
Te deves fazer arauto da esperança
E avançar para o interior da vida,
Sem acenares qualquer despedida;
Que tens de lançar mãos ao leme do destino
E sempre acreditares no divino;
Que Deus ama o pecador embora deteste o pecado,
E que estará sempre a teu lado;
Que muitos só descobrem as sombras
Que a luz projeta no desfazer da escuridão.

Tu, sábio, que também és meu irmão,
Sabes quem ordena a rota ao vento
E a lógica ao pensamento?
Que bem me faz a paz do luar
Que vejo em reflexo no mar...
 
¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

LÁGRIMAS

Foram longas e longínquas
As lágrimas derramadas
E as estradas percorridas
À escuta de voz hostil e anónima,
Repercutida em ecos de desespero
Perdidos em labirinto
Que deliciaram alguém.
Mas quem? Mas quem?

Grandes ventos balançam chuva
E ele para ali a cismar,
À janela do deserto, à espera de ninguém,
Envolvido por um desespero desgraçado
Em aparente derrota, sentado à porta,
Esvaído de si mesmo no sufoco do nada.
Vacila, hesita, por fim decide
E rompe-se um trovão de cólera
Em anunciado triunfo de lamentos.
Salgados são os ventos e as lágrimas

João Coelho dos Santos

 
 

JOSÉ AUGUSTO CABRAL

Este Poema, intitulado "O BRASIL DA ESPERANÇA", cujas frases coincidem rigorosamente com as belas e históricas frases do nosso HINO NACIONAL, é uma singela homenagem ao nosso Brasil.

O BRASIL DA ESPERANÇA
(Poema: José Augusto Cabral)

Brasil, ó meu Brasil, país Gigante,
Estrela da Constelação do Sul
Que brilha, tão serena, a todo instante
Dourando a verde mata e o céu azul.

Com justiça e liberdade,
Desfraldando a bandeira do progresso,
Tem por lema a igualdade
Pros seus filhos e pra todo o universo.

Ó meu Brasil,
Com tanto encanto,
Eu te amo tanto!

E o astro soberano, independente,
Voando livremente, em segurança,
Transporta pro futuro a sua gente,
Transforma em realidade a esperança.

Gigante paraíso de belezas,
De fauna, bosques, rios e cascatas,
De extenso mar, e outras mil riquezas;
Terra encantada!

O Criador te fez pra mim,
Ó Pátria amada!
Por isso, eu te amo assim, Brasil,
Pátria amada, Brasil!

Sublime, como a tela do passado,
Pintado com as cores da vitória,
É sempre um quadro lindo, emoldurado
Com as flores que colheu na própria História.

Vai buscar, lá nas raízes,
Os matizes das origens da nação;
E em seu quadro, outros países
Se misturam; cada povo é um irmão.

Ó meu Brasil,
Com tanto encanto,
Eu te amo tanto!

E a nave, conquistando o infinito,
Com paz, na paisagem, concilia
As crenças do seu povo e o seu grito
De fé, de liberdade e de alegria.

E de norte a sul, seu povo, que é tão forte,
Unido pelo espírito de luta,
Defende sempre a Pátria até a morte;
Terra encantada!

O Criador te fez pra mim,
Ó Pátria amada!
Por isso eu te amo assim, Brasil,
Pátria amada, Brasil.
  
Em vídeo
   
José Augusto Cabral

 


JOSÉ HILTON ROSA
Brasil

GRITO DE ESPERANÇA

Quantos anos temos que esperar?
Quantas mortes há de existir?
Quanto choro vamos ouvir?
Quantas lágrimas vão cair?
O tempo vai ajudar
O tempo nos mostrará
O tempo falará
O tempo cobrará
Quantas vezes temos que subir na montanha?
Quantos tijolos temos que colocar?
Quantas palavras temos que falar?
Quantos passos temos que dar?
Há! Que maneira
A espera vencerá
A esperança não acabará
Quando nosso dia chegará?

José Hilton Rosa
  


JOSÉ LUIZ DA LUZ
Brasil

NÃO TENHA MEDO

Não chore! Não tenha medo!
Confie em Deus e prossiga.
Pois dentro do seu segredo,
sempre há um Deus que lhe abriga.
Por mais duro o seu degredo,
você não está sozinho.
Tenha fé! Não tenha medo.
Deus lhe guia em seu caminho.
O medo é que nos afasta,
das bênçãos do Deus de amor.
Só um grão de fé já basta,
para enfrentar qualquer dor.
Neste mundo de escarcéu,
por que tamanho temor?
Se até as aves do céu,
Deus ampara com amor!

¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨
HOMENS E ANJOS

 Asas e sonhos levam ao longe,
a mundos além do horizonte.
Homens e anjos voam…
Os anjos têm asas reais;
os homens têm asas de metais,
sintéticas e limitadas:
são leves quando breves,
mas pesadas quando paradas.

Homens e anjos sonham…
Os anjos têm sonhos imortais;
os homens têm sonhos surreais.
Pairam as divinas criaturas,
homens e anjos nas alturas.
Mas, só os anjos vão ao infinito,
os homens somente sonham na terra.
Não entram no céu asas de metais,
pois aviões não atravessam portais.
Só o amor... O puro amor,
pode alcançar o vôo dos anjos.

Quando os homens tiverem no peito,
um coração puro e perfeito,
criarão asas reais.
Então haverá o encontro…
homens e anjos juntos voarão,
pela primeira vez, na imensidão.
Os homens partirão da terra,
para colocar os pés no céu.
Enfim: o amor aconteceu.

José Luiz da Luz
 

JUSSÁRA C. GODINHO
Caxias do Sul (RS) - BRASIL

Mãos
que atuam
em todos os atos
acariciam
e curam feridas
da solidão
Labutam
esculpem
embelezam
lapidam...
Mãos
que abençoam...
Bendita sejas
estrela se cinco pontas
que brilha
no céu  da vida!

Jussára C. Godinho

JUÇARA MEDEIROS LASMAR
Belo Horizonte (MG) - Brasil

RECORDAÇÕES

Acordei com saudades de alguém
procurei nos meus guardados as lembranças
várias cartas encontrei, como me fez bem
recordar os momentos de esperança.

Revi seu retrato amarelado pelo tempo
um pedaço de papel onde escreveu
juras de amor eterno, eu lamento,
eram frágeis como flores, feneceu.

Uma pétala seca da rosa que ganhei
no dia que você de surpresa apareceu
naquele baile, de felicidade eu chorei,
e sinto nítido o beijo que me deu.

São pedaços de vida bem guardados
numa caixa de bombons presa por fita
por instantes voltei para o passado
relembrando como a vida era bonita.

¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

MANHÃ DE SONS E CHEIROS

A manhã apenas começava. Eu me levantei; tinha um compromisso muito cedo.

 Estava na cozinha fazendo café quando ouvi um lindo cantar... Um bem-te-vi estava pousado na janela cantando para mim, alegrando minha manhã com uma bela serenata... 

Feliz, tomei o café, me arrumei e saí. As ruas ainda estavam desertas. Como é bom dirigir nas ruas desertas! Dava para ouvir o cantar dos pássaros nas árvores que margeiam a praça. Não resisti: parei o carro, desci e fiquei apreciando aquela sinfonia perfeita e aspirando o perfume das flores... 

Quem tem o hábito de acordar cedo pode usufruir de tudo isso; as flores são mais perfumadas no início da manhã,  o cantar dos pássaros fica nítido sem o barulho dos carros e o burburinho da cidade...

No mesmo dia, à tardinha, ouvi o canto da cigarra, canto que me traz à memória tardes lindas de outubro... 

Manhã de lindos sons, de cheiros deliciosos, manhã de vidas, de mais um dia que começou feliz.

Juçara Medeiros Lasmar



LEANDRO FLORES
Salvador (BA) – Brasil

ADEUS BH

O poeta passou por aqui...
Fez versos
E comeu pão de queijo.
Custou a acreditar,
Mas foi mineiro também!
Mais uma dose de cachaça.
A última talvez.
Era o momento de partir
Já não tinha mais a poesia
Hora de dizer adeus!
Queria levar uma mina,
Uma montanha,
Os amigos...
Poderiam caber
Tudo numa mala...
Queria cantar uma moda
Mas não tinha inspiração.
Última chamada!
Arredou-se de vez.
Foi fazer história em outro lugar!

Leandro Flores


LEOMÁRIA MENDES SOBRINHO
Brasil

CÂNCER

Eu era feliz como uma pessoa normal
Quando o câncer se iniciou
O meu pensamento livre e real
Simplesmente desestabilizou.

Esta doença contaminante
Que é levada por mim
Brotou da terra causticante
E à minha saúde pôs fim.

Sinto na carne o cancro
Que o meu sistema processa
Aos outros não interessa
Se eu sinto dor, morro ou sangro.

Mais vejo que o câncer não é só meu
Ele se alastra pelo mundo
Parece a doença que pereceu
Em cada pessoa de amor profundo.

O homem não vê e nem quer saber
O que se passa na vida real
Em cada indivíduo pelo fato de ser
Elemento humano e social.

Leomária Mendes Sobrinho



LEONILDE FONTES
Águas Claras (DF) - Brasil

A PAZ

Uma folha em branco,
A brancura de sorrisos,
A claridade de lágrimas
De sonora alegria,
Alvura doce cravejado
De movimento,
Embalo insuflando,
A delicadeza de
Flutuar suave
Como espuma no mar,
Silêncio, som
Luminosidade, sombra
Integração, aceitação.

Leonilde Fontes



LINA MACIEIRA
Brasil

BARRO

deixem!
que os pingos de chuva
molhem a minha cabeça
deixem!
que a água amoleça
minhas ideias
esfrie minha alma
deixem!
escorrer uma cachoeira
em mim, inundando meu ser
deixem!
afogar o meu coração
fazendo-me
ser apenas
barro.

Lina Macieira



LUCÉLIA GOMES
Brasil

CANTEIROS

E o mundo sobrevivem às guerras
derrubando os muros
carregando os frutos do engodo
enquanto os Poetas
muitas vezes taxados de débeis
com mentes férteis
cheios de ideias
plantam canteiros
escrevem obras
constroem um mundo perfeito
E em milhões de textos
deixam seus conselhos
desvendando segredos
aliviando os corações cansados
soltando os laços emaranhados
colorindo as vidas
tocando fundo nas feridas
transformando a natureza morta
em fontes vivas...

Lucélia Gomes



LUCIENE B. GOMES (LUCA BG) 
Brasil

NA TRILHA DE UM SONHO...

E lá em algum lugar, no alto de uma colina mora o sonho... Que vem para preencher de alegria um coração de mulher menina que habita no interior de mim... E quanta esperança imerge desse coração?! As batidas, já se fazem ouvir para os pensamentos da fantasia... Mas; que num instante de magia a realidade é que faz acontecer! E lá vêm os inúmeros desejos que de guardados pensava nunca mais, existir?! Foram muitos momentos... E nem contem pra ninguém?! A incredulidade era tão mais fácil, para crer?! Que o desanimo fez mal ao sonho! E de medo escondeu-se no tempo de um esquecimento medonho... Ah! Saudade... Vem traduzir em versos o quanto valem os sentimentos que dá pureza da inocência de um coração adulto apenas anseia ser feliz!

Luciene B Gomes (Luca bg)




LÚCIO REIS
Belém (PA) - Brasil

CAIU!

Não vou escrever sobre política partidária
Mas sobre um capitulo de nosso povo, a história
História contemporânea do agora e nosso dia a dia
O fato sem retoques é tudo o que ocorreu:
 “Caiu ou poderia registrar despencou
Assim como a suástica
E do muro a marretadas a demolição
Quase nada sobrou
Sob cada investida drástica
Com a força e absoluta convicção
De cada homem no pulsar de seu coração
Ser dom ou dádiva ao povo a plena liberdade
É real, sabe-se ser uma verdade
Incendiários, diabólicos e opressores
Ainda estão pelo mundo afora
Gerando dores e inquietantes temores
Refugiados naufragam, e muitos se afogam agora
Como consequência de mentes ocas
Personalidades estúpidas, estreitas e toscas
Ditadores a viverem no passado
Como animais irracionais aprisionados
Em seus minúsculos mundos deslumbrados
Por eles mesmos inventados
Muitos na utopia de amaldiçoados
Ainda hoje ofertando matança
Ceifando esperança
Gerando nação de desgraçados
Famílias e lares fracionados
Inundando faces de lágrimas,sem amanhã, sem lares
Plantando angustia em corações
E profundas tristezas que se afogam nas profundezas dos mares
Aniquilando em crianças quaisquer opções
As lições estão a mostra, bem vivas
A história é um out door em cor
Os dramas estão no palco sem tirar e nem por
O vermelho da vida nas ondas a se misturar
Singrando mares sem um cais para aportar
E muitas histórias indesejáveis e tétricas
Quais filmes reais de concreto terror
Num poema pesado sem métricas
E apenas rimas com o sangue e todo horror
Foi dessa ópera da destruição
Bolada, agendada e tramada na imaginação
De brasileiros sem a mínima noção
Ignorantes da personalidade e índole deste povo
Que tem no sangue a plena liberdade
E em cada poro a descontração, a brincadeira
E num português comum a banda com lheira
Pois brinca e faz troça com a realidade
Mesmo que seja num velório
Ou num barraco humilde e simplório
Que voa como pássaro canário
Abre suas asas sob o sol
Cujo trinar musical
Tem fundo de melodia para a absoluta alegria
E por isso, repudia a política da destruição e do mal
Foram anos do 13 e aliados
Nas instituições suas raízes infiltrando
Lenta, perigosa e progressivamente avançando
Mas, em tempo a sociedade despertou
Os olhos bem abertos os arregalou
Foi as ruas e drasticamente protestou
Em cada grito de não ao desmando, prosperou
Sua indignação aqui e ao mundo mostrou
E a Entidade e seus aliados do poder apeou
Quase em pó o transformou
Ratos e baratas ainda fazem alvoroço
Esperneia do café matinal ao almoço
Enquanto processos e algemas se lhes acossam
E logo mais vão provar e roer o duro caroço
Pois a Nação é grande e eles apenas passam
Pois a polpa das doces mordomias acabou
E para felicidade geral da Nação
Todos cantarão em forte união
Veras que um filho teu não foge a luta
E traiçoeiros e indignos em nada e a ninguém afronta
Pois verde e amarelo é nosso coração
Por isso mais um projeto de poder caiu, foi ao chão
E será mais um capitulo amaldiçoado na história brasileira
Para ser esquecido na esquecida prateleira
Desta gente que brinca mas é guerreira
E honra as cores de sua Bandeira!”

Lúcio Reis



LUIZ CARLOS MARTINI
Restinga Sêca - Brasil

VALE

Vejo com restrições o céu azul
Estou inerte e pressionado
Mil vidas sobrevivem sobre mim
Assisto com tristeza as águas que correm
Em disparada, sempre para o mesmo lugar
Sou imagem repetida, precária verdejante
Prensado entre as pedras
Meu sussurro se confunde com as cachoeiras
Cabelos esvoaçando como palhas de coqueiros
Já não sei se vale à pena, ser vale!
Dei guarita para os gigantes
Desengonçados, amigos
Fui caminho das carruagens
Dos exércitos e suas bandeiras
Das estradas, pontes e cidades
Das gentes, muitas gentes
Já não sei se vale à pena, ser vale!
Alimentam-se de minha seiva,
Do meu solo, do meu ar, da minha cor
Preso entre as montanhas que do
Alto assistem, impávidas.
Não aguento. Perdi demais,
Subtraíram-me demais. Padeço com
Essa Imobilidade.
Cansei de ser utilidade alheia
Ó! Primas placas tectônicas
Acudam-me. Apenas um pequeno sismo.
Cheias, escombros, uma tremedeira rápida.
Sem aviso, sem dor, só para morrer e partir em paz
Já não sei se vale à pena ser... Vale

Luiz Carlos Martini

LUIZ POETA
Rio de Janeiro - Brasil

MÃE... LÊ PRA MIM!

Luiz Gilberto de Barros – Poema Premiado como vencedor no Concurso Nacional de Literatura (versos livres) promovido pela Academia de Letras de Maringá – Paraná - Brasil – composto às 21h5min, do dia 7 de março de 2016 do Rio de Janeiro – Marechal Hermes – poesia feita especialmente para o tema “Mãe Leitora” – Concurso de Versos Livres de Maringá – 2016


São mãe e filho pelas ruas da cidade,
buscando algo de valor em cada porta,
como objetos recicláveis,  quem se importa?
É um trabalho feito com dignidade.

Entre esses tantos utensílios recolhidos,
para o menino, um é mais especial:
um livro roto que guardou num embornal,
que tem palavras e desenhos coloridos.

- Mãe lê pra mim... O livro velho que eu achei!
Ela o olha com ternura, esconde o pranto
e lhe sussurra, numa espécie de acalanto:
- Eu não sei ler, meu filho, eu nunca estudei.

- Então, mãezinha, lê sem ler, inventa a história!
...olha as figuras, é assim que eu tento ler.
Ela procura sua lágrima esconder
E busca um flash nas esquinas da memória.

Lembra que quando era criança, só dormia,
ouvindo os contos infantis que a mãe contava
- Como era bom! – ela relembra – eu adorava
Voar nas asas de uma nova fantasia...

O filho insiste: - Conta mãe! – ela se anima
e inicia a historinha: - Era uma vez
um cavalinho que voava – o português
é imperfeito, mas a fala... Se sublima.

E  a exemplo dos que sabem declamar
sem ler o texto, essa mãe analfabeta
dá ao seu filho, os mesmos olhos de um poeta
que se completa quando o sono quer sonhar.

Luiz Poeta



MARDILÊ FRIEDRICH FABRE
São Leopoldo - Brasil

FUGA

Meu sorriso fugiu de mim...

Pousou com um longo suspiro
Nos lábios rubros de cetim
Da felicidade a que aspiro.

Ah! Ser feliz porque, sem pressa,
Existo no dia que chispa,
Na lua nervosa que apressa
A madrugada que se crispa!

Minha mente não me permite
Um andar seguro, tranquilo.
Voo para longe, sem limite...
Entre o real e o  sonho... Oscilo...

Mardilê Friedrich Fabre



MARIA ALEXANDRA MATOS DA SILVA DE FREITAS MOREIRA

O RECOLHER DOS AFECTOS - TERTULIANO E MARIA DA PAZ

Tertuliano nunca duvidara que aquela mensagem de desistência acabaria por chegar naquela segunda-feira invernosa e, com ela, o vislumbre do princípio do fim de uma relação que tinha sobrevivido apenas pela resistência de Maria da Paz ao seu sinuoso silêncio.

Mas dessa resistência vinha também esta morte, como se ela contivesse num só grito toda a loucura, toda a espera sem sentido, toda a ilusão sem propósito, todo o descaminho dos afetos. 

O que em breve Tertuliano viria a constatar seria, portanto, tão só o corolário da equação que ele próprio montara: Maria da Paz, tão bela, dar-lhe-ia essa última bênção que consiste em acreditarmos que somos autores do que decidimos.

Enquanto muda de canal considera a sua própria mestria, ele que não passa de um discreto professor de História, no fundo não mais do que um secretário dos Grandes Homens Mortos deste mundo. 

A sala é acolhedora, é fim de dia e Tertuliano deixa-se dormitar, quando um sonho o inquieta no velho sofá: Maria da Paz diante dele, vestida de negro, a dizer-lhe o quanto lastima a vida assim tão redutora, se para tal lhes bastava a morte, Maria da Paz a lamentar a paleta de cores a que parecia corresponder a gama infinita da decisão dos homens resumida nem ao preto e branco, mas a uma esboroada manta recortada de cinzentos, marés de indecisões, de não ditos, de segredos, de murmúrios.

“-Nos cinzas há vermelhos” - responde-lhe Tertuliano no sonho
 “- Fímbrias de azuis, de amarelos...”, ou se não exatamente destas cores, de outras parecidas, porque era sonho e escusava-se a precisão técnica e com isto pretendia ele dar tão só voz ao seu silêncio e direção às suas vacilâncias, sendo que Maria da Paz no sonho se aquieta, ainda por lá anda em tempo anterior à sua mensagem.

Certo é Tertuliano acordar, recordar esboços do que sonhou e falar sozinho, como se a mulher ainda o pudesse ouvir:

“-Previ tudo, estava preparado para tudo. Porque haverias de ter tido a liberdade, a veleidade de improvisar?”

Agora, Tertuliano sente um profundo cansaço e uma indescritível impotência.

 Naturalmente, vai guardar para si ambos e recolher-se, porque afinal ele é antes de tudo um cavalheiro e depois um dedicado servidor do Estado que se quer recomposto a cada novo dia para bem servir a Nação, essa sim - diferentemente dos amores, até mesmo dos seus - digna de confiança e imorredoura.

Alexandra de Freitas, (ao som de Saramago)

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ENSAIO (S) PARA UMA PARTIDA

Caminha sem destino pelas ruas da cidade velha.
Deixou a casa desarrumada, os filhos entregues à escola, o marido no trabalho. Podia ser um dia como os outros, mas hoje ela vai-se embora.
Julgá-la-ão severamente no bairro que abandona.
Dirão que era desequilibrada, egoísta, tresloucada.
Será tudo isso e não será nada.
Só sabe que tem de partir, procurar um sentido para a vida, sob pena de morrer com o discorrer dos dias.
Apanha o primeiro autocarro. Vai para Odivelas. Pode ser.
Leva umas poupanças que lhe darão para os primeiros dias.
Terá de arranjar trabalho rapidamente. Quando chegar.
Leva uma mala pequena e um relógio de pulso. Para se orientar.
Nada mais.
Quando desce na última paragem, já é de noite.
Tem frio. Tem fome. Pensa nos filhos e não resiste.
A sua sina é demasiado pesada. Muito mais do que a sua mala.
Manda parar um táxi. Dá a morada. Volta para casa.
Esta é já a trigésima vez que ensaia uma partida de que ninguém sabe.
Em vão. Está presa à teia.
Ela que é afinal a aranha.

Alexandra de Freitas

 
 

MARIA BEATRIZ SILVA (FLOR DE ESPERANÇA)

OS MEUS VERSOS

Os meus versos nascem da minha alma
Um tesouro de palavras que busco no coração
São sentimentos puros que liberto
Ao despertar-me a cada amanhecer
Do alto da montanha vem à inspiração

No meu quarto abro a janela
Do outro lado do rio
Espera-me a paisagem mais bela

Olho a montanha que me convida a escrever
Imagino-me no pico mais alto
Abraçando o mundo e tocando o céu
Neste lindo amanhecer
Que me cobre leve como um véu

Na verde mata ouço os pássaros a cantar
Lindas pombas a voar
Uma cascata que jorra água cristalina
Descendo entre pedras e no rio a desaguar

O som da água vem de longe a quebrar
Chegando suave como um anjo a harpa dedilhar
Este é o cenário mais lindo
Que tenho o prazer de desfrutar ao acordar

Papel, caneta na mão é hora de poetar
Sou grande... Sou forte... Sou poeta!
Canto o sonho que sonha meu coração
Vôo como um pássaro alcançando liberdade
O sol posso tocar e o mar abraçar

Ser poeta e sentir emoção
Ser sensível a tudo
Buscar na alma as palavras
trazendo o lirismo, a leveza a beleza
Usar as palavras recriando o mundo

Ser poeta é distribuir amor
Escrever sentindo o aroma de uma flor
Ser poeta e ser poesia
E ser a sementinha do amor

Maria Beatriz Silva (Flor de Esperança)
 
MARIA JOÃO BRITO DE SOUSA
Portugal

A PRIMEIRA VIAGEM DO POETA
I
Percorreu o mundo inteiro
quando esse mundo era, ainda,
uma selva agreste, infinda...
Caiu em muito atoleiro,
perdeu pé quando o ribeiro
que atravessava na vinda,
de uma terra amena e linda,
num repente traiçoeiro
transbordou do seu carreiro,
teve a vida na berlinda,
II
Resistiu, sobreviveu
a mil coisas que eu nem sonho,
provou do que é mais medonho,
mas nem assim se rendeu...
Não houve terra, nem céu,
que não beijasse, risonho,
ou, vez por outra, tristonho,
não suspirasse, qual réu
de um tribunal* muito seu,
onde agora o pressuponho,
III
Pois cabe-me a mim, poeta,
fazer, desta narrativa,
uma história presuntiva,
mas possível e completa,
verosímil e concreta
para que o poeta a viva
e, numa Barca cativa,
se faça à rota secreta
que foi sua predilecta,
porquanto imaginativa...
IV
Aqui dou por terminada
esta primeira Odisseia
de um Poeta que se estreia
e que, sendo acidentada,
bem sei ser dura e ousada,
mas não bonita, nem feia;
Nunca ninguém a refreia,
mesmo quando ameaçada,
punida ou chantageada
por quem, de fora, a falseia...

*alusão à consciência

Maria João Brito de Sousa



MARIA MENDES CORRÊA
Brasil

MEU PRIMEIRO BEABÁ

Mamãe disse animada
Hoje você vai estudar
E de mãozinhas dadas
Levou-me ao grupo escolar. 

Fiquei bastante nervosa
A escola era “demais”
Havia um portão onde as crianças
Despediam-se de seus pais.

Cheguei bem próxima às crianças
Umas riam, outras  choravam
E as queridas professoras
Em todas, um abraço davam.

Então a aula começava
Com as lições do Beabá
Os cartazes todos liam
Depois de muito decorar.

A cartilha era de uma menina
Que se chamava Lili
Era bonita e engraçada
Gostava de doce de abacaxi.

A professora era calma
Tinha alegria de ensinar
Chamava-se Dona Dalva
Uma professora exemplar.

Lembro-me com muito carinho
Da minha escola da infância
Dos funcionários, colegas e mestres
Que hoje guardo na lembrança.

Peço a Deus que abençoe
A mestra que me alfabetizou
Pois se hoje escrevo esta poesia
Devo a ela que me ensinou.

Maria Mendes Corrêa



MARIA SALETE COSTA MOREIRA
Águas Claras (DF) - Brasil

DOCE RIACHO

Doce riacho
água corrente
correnteza forte
vinda da nascente.

Em suas águas limpinhas
vi o amor em cardumes
era tão pequenino
que parecia um  mimo.

A água desse riacho
com lágrima se parecia
chorava pedindo ao homem
que cuidasse de suas crias.

Que lindo aquele remanso
saudando os buritis
ouvia-se a voz do vento
e o canto da juriti.

Vi peixes adolescentes
saltando para comer
era o arroubo da juventude
com um recado pra você
que pescassem com cuidado
para o rio não morrer...

Que lindo o água-pé de flor azul
bailando dentro da água
e saudando o céu azul.
Enterneço-me contigo
de ver o amor espalhado
e o homem coitado
ensimesmado...

Obrigado doce riacho
agradeço a quem te criou
ajoelho-me em teu leito
e neste amor me deleito.

Maria Salete Costa Moreira



MARINA GENTILE
Brasil

PÁSSAROS LIVRES

Fique tranquilo sabiá,
sanhaço, sairinha, bem-te-vi...
pode saborear as frutas,
as proteínas  do chão,
aqui não tem estilingue,
nem gaiola, nem alçapão.
Como é lindo o canto do sabiá,
na primavera é uma beleza,
NÃO a quem prende pássaros,
os engaiolados cantam  por  tristeza.
Destrói, mas diz que constrói,
prende, sufoca a melodia do cantor,
falta-lhe o verdadeiro sentido da vida,
carcereiro de aves, carência de amor.
Árvores atraem ilustres visitas,
é sombra, frutos, beleza,  alegria,
respeitar a natureza, as aves,
também é sabedoria.
Tem doido que desconhece,
destrói na usura do dinheiro,
na ignorância, que pena...
tudo que a gente pensa que tem
não é nosso...
e foi criado pelo maior jardineiro.

Marina Gentile



MARIO REZENDE

O MELHOR AMIGO

Julinho foi à feira com sua mãe e lá ganhou um pintinho amarelo, que resolveu chamar de chicken little. Ele ficou muito feliz com o presente e passava quase todo o dia em companhia da pequena ave de estimação, a quem dedicava carinho especial, enquanto o pobre animal lamentava-se, grande parte do dia, por insistentes piados, na tentativa de chamar os da sua espécie, o que só deixava de fazer quando se recolhia à caixa de sapatos improvisada para ele passar a noite, que ficava sob a cama do menino.
O animalzinho era preocupação constante do Julinho. Procurava por ele quando acordava (geralmente a sua mãe levava o pintinho para o quintal logo que amanhecia), quando voltava da escola e toda vez que saia de casa por qualquer motivo. Nessas ocasiões, a primeira coisa que fazia era verificar se estava tudo bem com a avezinha.
Quando o chicken little cresceu mais um pouquinho, e começou a perder a coloração amarela, o pai de Julinho construiu um cercadinho no quintal, juntinho à janela do quarto do menino, porque a ave não ficava de forma alguma dentro da caixa de sapatos e todas as manhãs, bem cedo, começava a piar perturbando o sono da família.
Tornando-se um frango, ficava solto no quintal e, não tardou, transformou-se num belo galo com as penas do rabo de diversas cores, predominando o verde-azulado. Era, de fato, o melhor amigo de Julinho e lhe acordava todos os dias pela manhã, quando entoava o cocoricó junto à janela do seu quarto.
Dizem que as aves e os outros animais não pensam como a gente, mas aquele galinho sabia a hora de acordá-lo. Feito o serviço, ficava esperando que o menino abrisse a janela, lhe dedicasse um sorriso bem grande e lhe dissesse: “Bom dia meu amiguinho!” Depois disso ele ia ciscar feliz da vida, lá no fundo do quintal à cata de pequenos insetos e minhocas.
Ele dormia empoleirado num arbusto perto da janela do quarto do menino e, quando chovia, o telhado do barraco construído no quintal para guardar as tralhas da família era seu abrigo. Não piava mais, já era um galo adulto, e o Julinho descobriu que, quando ele não estava em casa, o bicho saltava sobre o muro ficava no quintal do vizinho, que fazia divisa pelos fundos com o terreno da sua casa, cujos moradores criavam galinhas.
A família do vizinho também tinha um menino que regulava em idade com o Julinho e era, inclusive, um de seus colegas na escola. Acertaram que o chicken little poderia circular à vontade pelo quintal deles, autorizado pelo pai do garoto que, segundo ele havia dito, parecia um galo bem melhor do que o deles para dar conta da galinhada.
Quando o Julinho ia para a escola despedia-se do seu melhor amigo, que levantava a cabeça, esticava o pescoço, batia as asas e soltava em terno cocoricó, como se lhe dissesse: “Vá estudar direitinho e volta logo pra me fazer companhia”. Só então voltava a ciscar ou logo alcançava o muro. Assim, seguiu a amizade até que o galinho morreu de velhice. Julinho já estava com dezessete anos.
Após a morte do chicken little, Julinho ganhou um cãozinho, que ele chamou de Poli. Pelas características do novo animal de estimação, este tinha relação mais íntima com ele, eis que circulava pelo interior da casa e passeava na rua com o amigo. Por isso pode após se tornar adulto, continuar a dormir no quarto do companheiro, o que favoreceu o fortalecimento da amizade entre eles. Com o cachorro ele fazia certas brincadeiras que não poderia praticar com o galo. Era seu confidente, ouvia calado todas as suas lamentações e manifestações de alegria. Tinha certeza que o animal o compreendia, porque sempre respondia com um abanar de rabo, um latido ou ganido, e logo o animava com brincadeiras que faziam que ele esquecesse aquelas coisas que não teriam grande importância dali a alguns meses. Foi ele que soube da primeira namoradinha no colégio, do primeiro beijo, etc.
Poli, chamava-o assim, porque valia muito, era tudo, um dia também o deixou e ele ficou, novamente, sem o melhor amigo. Julinho tinha vinte e sete anos quando ele se foi.
Encontrou, então, na figura do seu pai, aquele que seria daquele momento em diante, o seu melhor amigo. A relação pai e filho tomou uma força muito grande, tornaram-se inseparáveis. Nada melhor do que ser o melhor amigo do seu pai. Como não percebera isso antes?
Julinho casou-se com trinta anos, e aos trinta e dois teve o primeiro filho. Mas a amizade com seu pai continuou firme e fortalecida, eram ainda carne e unha. Depois do nascimento do filho, eram os três: Julinho, Raul, o seu pai e Fabiano, o filho.
Mas a morte, mais uma vez levou o seu melhor amigo. O seu pai faleceu quando ele estava com quarenta anos. Ele, parecia, estava fadado a ver os seus melhores amigos morrerem. O último morreu em seus braços. Mas a amizade com seu filho, na época com oito anos, cresceu, também muito forte. Estavam sempre juntos, torciam para o mesmo time, tinham os mesmos gostos, estavam sempre juntos. Fabiano dormia todos os dias com a cabeça nas pernas do pai, no sofá da sala, que o levava carinhosamente para a sua cama, até que ele cresceu e Julinho já não podia carregá-lo ao colo. Julinho tinha no seu filho o seu melhor amigo, estavam sempre pensando um no outro e agradando-se mutuamente.
Quando Julinho morreu, Fabiano já era casado e tinha dado uma netinha para ele. Julinho, desta vez não perdeu o seu melhor amigo, morreu bem juntinho dele. Feliz por ter um grande amigo.




MATUSALÉM DIAS DE MOURA
Brasil

SONETO DO DIA DE FINADOS
       
Venho trazer-te, pai, algumas flores,
mas não encontro sinais teus aqui;
nenhuma cruz, nenhuma cova... Dores
apenas falam-me de amor por ti.

Então, chorando, levo meus clamores
a Deus, dizendo tudo que sofri
na solidão deste viver sem cores,
sentindo as mágoas todas que vivi.

E como não achei a tua cova,
deixo estas flores num lugar qualquer,
numa esperança, que em mim se renova,

de que amanhã, no Céu, se Deus quiser,
vamos juntos estar, depois da prova
da vida que este mundo me requer.

Matusalém Dias de Moura


MAURICIO ANTONIO VELOSO DUARTE
São Gonçalo (RJ) - Brasil

A NATUREZA DA POESIA

O poema é como um esplendoroso
Amanhecer: pode brilhar muito,
Mas não é tão forte e tão poderoso
Quanto o meio dia e, em tal fortuito
Esquecimento, nos dá alegria...

O poema é como o nascimento
Encerra em si mesmo potência
Máxima de todo o seu momento,
Em uma tal vontade, sem carência,
Que é luz, mil raios, extasia...

O poema é como uma floresta,
Todas as suas espécies tem seu valor:
Se uma só perecer, cai, nada resta;
E é assim porque foi feita com amor
Pelo Criador que tanto bem queria...

O poema é como uma onda alta,
Vai bem acima, mas no fim tem
Que descer, trazer do mar a malta
Dos marulhos na areia, porém quem
Diria ser, sim, menos do que poesia...?


¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

SONHAR, DANÇAR AO NOSSO LUAR

Seria esse mar teu enlace?
Eu, assim, não o reconheço?
Estarei eu em dissonância
com a tua vida, destituída?

Teremos esquecido o
clamor da alma por um novo
lugar, um cantinho só nosso?
Aquele que recrie o Todo...

Chega, chega logo, me diz
que o futuro não depende
daquele passado e nem
está além desse presente!

Faz reviver esse tão nosso
sentimento de um bem-querer
que entre nós dois seja um,
produza amor, minha linda...

Caminha comigo, amada.
Sê minha e de mais ninguém.
Mostra que é correto
sonhar, dançar ao nosso luar!

Mauricio Duarte (Divyam Anuragi)



MÔNICA SERRA SILVEIRA
Fortaleza (CE) - Brasil

ESPELHO

No canto dos olhos
Pés de galinha
No canto da boca
Outras curvinhas
A testa tem riscos
O queixo papada
O rosto no espelho
Os anos refletem
Mas certamente
Deve haver um engano
Pois sou uma menina
Só uma adolescente
Que ama e que sente
Esse espelho mente
Mente descaradamente!

Mônica Serra Silveira


MUNIQUE SIQUEIRA DE AZEVEDO

O SUSSURRO DE CAPITU

Embora o sol tenha me cegado;
Estou eu, olhando para você.
Ou até mesmo, para dentro de sua alma.
Como um profundo mar sobre e sob sua cabeça.

Onde estavas todo esse tempo?
Escondido do meu coração?
Que a ti entreguei.

Te lembras dos meus olhos?
Lágrimas rolaram deles.
Daqueles que tanto apreciavas...
Olhos de ressaca que vieram de sua mente.

A luz do sol me puxou um pouco mais para perto;
Virando-me para ver a água salgada.
Onde li que seríamos felizes eternamente... Como conto de fada.
Porém as fadas foram expulsas dos contos e dos versos.
Entraram elas no coração de toda essa gente e falam de dentro para fora...

Voltemos, pois, estou eu aqui, em terra.
Porque não sou eu uma mulher das ondas, mas da estrada.
Através do vento a sussurrar, posso ouvir você a dizer:
"Olhos de cigana, oblíqua e dissimulada!"
Mas veja, por estes olhos caíste no oceano do amor.


¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

ABSTRATOS POETAS

Agradeço aos velhos poetas
Que em seus papeis, tintas e corações partidos
Fizeram-me encontrar um resquício qualquer adormecido
De mim perdido, entre suas estrofes de dores
Ou de seus sentimentos fingidos

De Florbela trago as belas flores de seus falecidos amores
Para despetalar no caminho de Drummond
Onde, no meio, topou com aquela pedra

A Casimiro trago fidelidade em soneto de Vinícios
Para que recorde a Abreu da aurora de sua vida
E com Moraes entenda que o que é eterno resiste enquanto dura

Aos anjos de Augusto trago a pureza de Bilac
Que não trocaria a infinidade de teus céus pela terra
Por ânsia de ser terrestre e humanamente amar

E aos Campos de Álvaro deixo a Pessoa de Fernando
Que ao fingir a dor, se sente bem
Quem sabe ao refletir em seu prado poético, encontre a razão
Do comboio de corda que chamou de coração

Trago aos meus insignes queridos
A dor se seus risos, a alegria de seus prantos
Para que recorde de seus fardos esquecidos
Que o ser humano é concreto e findo, mas a emoção abstrata e perpétua.


Munique Siqueira de Azevedo




NADILCE BEATRIZ
Brasil

VENTO

O vento, quando sopra me descabela
E quando ele não sopra
Parece que arranca o silêncio
Ou varre os tetos, as paisagens
E os amores
Estes sim, se diluem
Deixando pegadas de sopros duvidosos

Sou do vento que jorra do farol
E quando a maré vaza
Parece que a água floresce
Ou vira merengue, goma de mascar
E os portos
Estes sim, contam histórias
Deixando acossados todos os sonhos

Não sei quem é o dono do vento sisudo
E quando o frio chega
Parece uma mentira escaldante
Ou uma panqueca de neve, sorvete de nuvem
E os desabrigados
Estes sim, sabem orar
Deixando seus fardos sob os olhos da esperança

Sigo o vento que embala a paisagem
E quando as cores vão embora
Parece que o mundo emudece
Ou ele carrega o pintor e a tela, o pincel
E as divagações
Estas sim, desfalecem
Deixando um odor de tinta agreste

Vou-me embora com o vento que é doido
E quando o tempo vira uma memória
Parece uma porta enferrujada
Ou traz toda vida em gotinhas, um cálice de água
E as mãos
Estas sim, moldam
Deixando que tudo permaneça como está.

Nadilce Beatriz



NEUSA MARILDA MUCCI
Valinhos (SP) - Brasil

VERSO PERDIDO

Um verso perdido,
não tinha formas,
nem linhas, não foi entendido,
mas apenas queria falar
de sentimentos

Um verso perdido,
era um cântico d'alma,
acordes suaves,
composto em expressão
ritmando um querer

Um verso perdido,
em etéreas notas de amor,
marcou a partitura do tempo
deixando apenas um eco

murmurando no coração


¨¨¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

ÉS...

Quando és sonho,
em imensa fantasia
delineias em mim
suas emoções,
que se pintam
num quadro liberto
de traços nulos,
onde antes
se confundiam
nossos corações

Mas quando és realidade,
és o esperado amor,
num passe de mágica
brincas em meu sorriso,
deixando em meus lábios
uma tênue marca de felicidade

Neusa Marilda Mucci



NÍDIA VARGAS POTSCH
Brasil

LUAR NO SERTÃO...

Há diferentes maneiras de se enxergar o belo!

Na viagem de trem na volta ao lar,
lágrimas rolando de saudade e melancolia.
Com um céu muito azul criando um elo
de emoções e surpresas a cada canto...
Ó Sertão, o quanto de beleza em ti existe!

A florir o mandacarú,
brotando as coroas de frade,
espalhadas ao relento
dando vida a cada momento
à passagem dos retirantes...

E a luz brilhante de luar inigualável
resplandece em terra seca
onde pés cansados repousam o passo
enquanto sonham, desnorteados
com a chegada do velho chico:
águas do Renascimento!
Na promessa e na flor pra São Jorge
aguardam em ardidos soluços,
a esperança da renovação... Ir mais além...
Vida, para sempre poder voltar!


¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

- INDRISO -

O COMPOSITOR!
Poeta emblemático no prelúdio da Existência
Vitrine de emoções, harmoniza sons e palavras
Para tocar o coração de quem o escuta.

Cria mundos, faz o imaginário se inebriar,
Correr solto pelas trilhas da vida, em momentos
Repletos de sonhos, numa alegoria de sentimentos...

Compositor, cadência colorida, embalo sublime..
.
Sensações à flor da pele, emoções eternizadas!

@Mensageir@
Carinhosamente, Nidia.


NOEME ROCHA DA SILVA

Riacho Fundo II - DF – Brasil

IPÊ  AMARELO

O sol nascendo devagarinho
Se espalhando pelo cerrado
Saindo com sua força de ouro divino
Vai garantindo minhas asas de passarinho
Vai desiludindo meus olhos da cara
Vai colorindo a fotografia de seu lindo metal
Estou vendo com os olhos da visão mais rara
Vejo com os olhos da alma que Deus me deu.
O tempo demora na minha memória
Guardando o brilho do grande amor
Perpetuando tudo que parece passar com a história
E o encontro das almas em seu esplendor.
A mais nova arquitetura de Brasilia
Se espanta com o castelo que Deus levantou
Bem ali no caminho de casa, meu ipê!
O ipê-amarelo amanhece cantando a vida
Que perfuma as pessoas no dia-a-dia
Que perfuma a viagem de todos os viventes
O ipê-amarelo sabe distribuir poesia...
Até eu que andava meio esquecida
De agradecer tanta paz, tanta alegria
Agora sou a pessoa mais agradecida.
O sol continua devagarzinho
Iluminando seu castelo sagrado
Iluminando minha visão da alma.
O ouro do ipê-amarelo não sai do meu caminho.

Noeme Rocha da Silva



ODENIR FERRO
Brasil

PLURALIDADE

O que, pode ir mais além do que só amar
Senão entregar-se na força do encontro?
Senão, margear-se da busca dos desejos?
Senão contemplar-se, na amorosa verdade
Que atua na pulsante vibração do ardor,
Que se esparrama calorosa, nas emoções,
Que caudalosas, distribuem-se na magnitude
Da bem-aventurança que se derrama dos sonhos!?
Onde é feito o encontro na busca dos beijos?
Onde entrelaçam-se os corpos, nos mais belos
Amorosos anseios, dos corações apaixonados?!

O que poderá ser, mais além do que realizar-se
Nas horas que se deixam soltas, como as águas
Dum rio imenso, ao levarem-se aos burburinhos
Na cumplicidade saída dos corpos entrelaçados
Numa pura afetividade devoradora dos cálidos
E íntimos contatos, num voo pleno de almas
À Procura de si, no incógnito do intenso
Que atua na existência dos encantos,
Quando encontros se fazem do Amor?

O que pode ser mais além, do que amar?
Aonde poderemos ir mais além de amar?
Se os nossos desejos são sempre doar,
Se os nossos anseios são sempre amar,
Se as nossas crenças são mesmo: Amar,
Buscando da vida, um viver de venturas
Conquistadas nas nuances das ternuras,
Que imensas, cobrem-se de pluralidade?


¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

ELE É, AGORA, UM ANJO!

Ele é, agora, um Anjo! Digno dos Anjos,
Por estar entre eles: cercado pelos deuses
Instruindo-se com muitos dos Arcanjos,
Para aprofundar-se com a percepção das luzes

Administrando o conhecimento, as ideias,
O saber e os profundos amores celestiais.
Envolvendo o seu Espírito em odisseias,
Tornando-se consciente dos poderes divinais.

Ele agora, se enobrece aos sons dos sinos,
Das harpas, das liras, da paz, dos amores,
Dos encontros e despedidas entre seres vivos!

Ele agora, agradece, entoando louvores,
Rezando pela Paz do Universo, com cantos
Magníficos. Louvando a Eternidade, com clamores!

Odenir Ferro




POLICARPIO ELCY LOPES DA COSTA
{Poeta Sonhador}
Brasil
                    
OUTUBRO ROSA...!

Mulher tu és o símbolo da mãe natureza
És a mais bela flor, mas não sejas apenas vaidosa.
Cuida de tuas mamas como quem cuida de belas frutas;
Seja mais uma a engrossar a campanha outubro rosa...!

Procures então teu médico o quanto antes puderes
Evites ter que passar assim por tantos dramas.
Tu és bela de qualquer jeito por seres uma mulher;
Mas sejas tua própria amiga, cuide de tuas mamas...!

Eu serei sempre na vida devoto das mulheres
Poder ver belas com saúde, é minha esperança.
Foi em duas mamas assim opulentas e macias;
Que saciei minha fome quando ainda era criança...!

É por isso que hoje aprecio tanto as mamas
Dessa flor que exala perfume e beleza.
E também como sou cria de uma mulher;
Que simboliza a flor mais bela da natureza...!

Policarpio Elcy Lopes Da Costa



RAYMUNDO DE SALLES BRASIL
Brasil

UM CANTO PARA NÓS DOIS
                                             
Eu continuo lhe amando como outrora,
Como nos velhos tempos calorosos
De nossa vida a dois, vida que agora,
Depois de que ficamos mais idosos,
Há de nos dar anelos afetuosos
Todos os dias, pela vida afora,
Que nos aquecerão nos invernosos
Dias do amor platônico que aflora.                
Se a carne nos faltar com os seus desejos,
Não nos falte o carinho de nossos beijos,
Nem nossa vida a dois com o nosso afeto.
Que o cavalheiro aqui e a sua dama
Vivam felizes sobre a mesma cama,
À mesma mesa e sob o mesmo teto.

Raymundo de Salles Brasil



RENATA GOMES

Taguatinga (DF) - Brasil

DESPERTAR

Um botão triste,
Se fecha pelo medo,
Medo de ser e brilhar para a vida.

No entanto, um sol desponta no monte
Que por encanto,
Aquece o medo...

O medo sem canto,
Abandona o botão,
Que num suspiro

Desabrocha sorrindo e florindo,
Se tornando Rosa.

Renata Gomes



RITA DE CÁSSIA CÔGO
Guaçuí - Brasil

O MAIOR PODER

Frustramo-nos quando percebemos que fazemos parte de um grande contexto social.
Muitas são as pessoas que passam pelas nossas vidas; parentes, vizinhos, amigos, colegas de trabalho, congregados da  igreja e não nos damos  conta de realmente saber quantas pessoas nos conhecem.
Buscamos muitas vezes alcançar uma forma de poder: organizamos festa, fazemos doações, trabalhamos duro, passamos horas, anos estudando, importamos com outros, visitamos parentes, prestamos favores aos nossos vizinhos.
E no lapso do nosso viver nos deparamos com ventos contrários.
A família cresce, muda, distancia...
O vizinho  mantém as portas fechadas...
No trabalho cada um quer garantir só o seu...
Na igreja todos os membros já têm muitos compromissos...
Nos estudos os nossos títulos não são mais suficientes...
O dinheiro está cada vez mais escasso. E no atual contexto social em que vivemos somente alguns, a minoria que ganha melhor, e muitas vezes são rodeadas por pessoas que vivem na expectativa e desejando algo mais...
Assim,  os ventos  fortes   nos derrubam, fazem perder o nosso equilíbrio, nos sentimos únicos e  totalmente sozinhos.
A grandeza da vida nos levanta, sacode e diz:
_ O maior PODER que alguém pode alcançar é permanecer  VIVO na MEMÓRIA  e no CORAÇÃO de alguém.
Seja na memória de um amigo, parente, vizinho, colega de trabalho, agregado da igreja ou simplesmente um novo conhecido que com a sua presença ilumina a nossa vida com um raio de luz de um bom apreço e  sentido de valor.


Rita de Cássia Côgo



RITA ROCHA
Santo Antônio de Pádua (RJ) - Brasil

BRINCADEIRA DE CRIANÇA

Tristeza bate sem jeito
das bonecas a recordar,
casinhas no pátio estreito,
lindas  canções de ninar.

Panelinhas, tudo a feito
comidinhas a preparar...
tudo bem mais que perfeito
alegrando o meu brincar!

Estava com alegria no peito
minha prima,  fez-me chorar,
tirou minha boneca do leito
que no chão foi-se espatifar.

Desta ciranda tirei proveito
dos brinquedos a me recordar,
BRINCAR  com todo respeito:
É coisa  séria, faz-me pensar!


¨¨¨¨¨¨ ¨¨¨¨¨¨

Ao Mestre com Carinho

Mestre raio de luz que ilumina,
e aos saberes vais  apontando.
Estrela grandiosa cuja oficina
tens na Educação todo comando.

És vida em campo fluorescente
que descobres os dons e o caminho.
Seara onde  germinam as sementes
da cultura e da ética, não somente...

Sacerdócio de Ministério Sagrado
que tento retratar nesta poesia
porém não encontro configurado
um adjetivo digno de cortesia.

Sacrifícios são inerentes à carreira
mas segues firme tua opcional missão!
Desejo que tenhas neste Dia
dos Governantes, melhor remuneração..
e dos Discentes ...  Feliz Confraternização!

Feliz Dia do Mestre!

Rita Rocha


ROZELENE FURTADO DE LIMA
Teresópolis (RJ) - Brasil

Se eu tivesse grandes asas brancas,
Mesmo que fossem emprestadas
Voaria até as estrelas de banca em banca
Para saber onde estão as místicas encantadas

Quando olho o por do sol é só mais um albor
Um céu azul não passa de um céu de anil
No jardim o desabrochar de mais uma flor
É um ritual necessário para seguir seu perfil

O vento brinca de assoprar em tardes outonais
Borboletear é coisa para qualquer borboleta
Bela, grande asas coloridas não me fascina mais
Estou com luz opaca sem refletir, quase violeta

Tudo perdeu a graça nada tão forte para sonhar
Ainda sinto um deslumbramento e forte atração
Pela lágrima, vejo a saudade na gota a espelhar
Procuro refúgio dentro dela no vazio da emoção

Pela face e nos meus lábios úmidos de doce pranto
A vida para mim perdeu o glamour a secreta magia
Partiste levando na bagagem meu amor meu encanto
Vem reacender meu desejo, a chama divina da alegria.

Rozelene Furtado de Lima


SANDRA GALANTE
Brasil

CHEIRO DE AMOR...

Cheiro de amor, pele sedosa, rosas ao vento.
Simples olhar que remexe tudo por dentro,
Homem ternura, que não sai do meu pensamento...

Amor à flor da pele que o desejo compele.
Basta um toque para que meu recato se rompa.
És meu tudo, minha vida e meu encanto!

Ah meu amor, quisera eu estar em ti
A cada segundo do meu terno viver...

Sandra Galante



SIDNEI PIEDADE
Brasil

O AMOR É LINDO

Quando a gente ama o coração acolhe sem pedir nada... Pois é incontrolável nossos sentimentos, ele não tem regras, apenas ama. O amor é o mais belo e nobre sentimento que podemos experimentar desfrutando dos belos momentos com a pessoa amada, ele é o eterno descobridor do prazer, envolvente e sedutor, orvalhando em cada um de nós... Que o digam Romeu e Julieta. Você foi a primeira eu também o amor entrando em nossas vidas, benza a Deus que você apareceu... Em toda minha vida o meu amor por ti é algo inexplicável e verdadeiro, um amor com a beleza do silencio, uma gota de eternidade. Inspiração é você compartilhando minhas mágoas, feroz e linda... Uma parte de mim te ama, você é minha mulher... Cada batida do meu coração é pra guardar o meu amor por ti. Somos iguais, o amor alimentando vontades reais, todo amor do mundo onde o tempo jamais apagará... Pois meu nome é amor e o seu minha amada. Você é um pedaço que não sou eu... Mais é mais do que qualquer pedaço de mim, seu corpo no meu, onde é caça eu caçador até o fim dos meus dias... O amor é lindo. 


Sidnei Piedade



SIMONE CRISTINA DA SILVA
Brasil

AMO-TE

Amo-te tão puro e singularmente
Que procuro rimas e não encontro
Enquanto borboletas bailam no estômago
Livremente

Amo-te com doçura e encanto
És o Sol a tocar minha face
Ao teu lado sou riso sem disfarce
E nem pranto

Amo-te com o mais verdadeiro de minh’alma
És meu porto-seguro de tempestades
És o cântico dos pássaros no fim de tarde
És calma

Amo-te assim como és
E te rimarei enquanto houver dia
Mesmo que para minha melancolia
Prenda esse meu amor, num convés.


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AMOR LIBERTO

Ah! Quando meus olhos encontram os seus
Transporto-me para o mundo dos sonhos
E para mim não há nada de errado!
Pois é o momento que me entrego a esse sentimento meu
Momento único que me ponho
Ao seu lado.
Ah meu amado!
Perdoe essa alma que tanto te ama
Que em seu silêncio recôndito seu nome chama
És chama calma que aquece meus dias nublados.
A mim mesma havia jurado
Manter esse sentimento guardado
E jamais a ti revelar
Mas cresceu a ponto de ser transbordado
E hoje meus versos, põem-se a gritar!

Simone Cristina da Silva



SONIA NOGUEIRA
Brasil

SODOMA E GOMORRA

Segundo a literatura bíblica o Senhor fez cair sobre as cidades de Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e fogo para dizimar a população, visto que, todos estavam tomados pelo pecado. Abraão apelou para os justos que havia na cidade. Quererás tu, Senhor aniquilar os justos com os iníquos? Caso tivesse 50, 45, 40, 30, 20, 10? Não havia. E as cidades foram destruídas.

Os geólogos afirmam que há 4.000 anos a.C. naquela região houve terremotos e o Vale de Sadim, no Mar Salgado ou Mar Morto, que compreendia as cidades de Sodoma, Gomorra, Admá, Zebolim e Bela foram destruídas.

Ora leitores, o humano não mudou nada. Apesar das letras, causadora dos saberes, do avanço tecnológico, da medicina a galope nas descobertas, o mundo continua uma Sodoma constante, apenas aperfeiçoada, com mais critérios, truques avançados, inteligência apurada com crimes hediondos, corrupção, sexo livre, drogas, pedofilia, assaltos, prostituição infantil, roubos sofisticados, famílias destruídas...

Não vejo conserto para a humanidade, parece sina ou praga do Criador, cruz credo me perdoa. Difícil entender os mistérios da criação. Sei, porém que há uma força maior, diante de nós pobres mortais e indefesos, diante da força do universo.

Quando os terremotos pretendem fazer uma visita, não avisam e tragam justos e pecadores; as enchentes banham as águas querendo dizer, o espaço é meu levaram a areia, as dunas sumiram, darei um banho espetacular, salve-se quem puder; os ventos ou tornados reclamam: ah, estou sem trânsito, a vegetação em falha, tantos cortes queimadas, prédios sufocam-me. Quando atuo neste espaço, com direitos naturais, minha força possante arrebata moradores, casas animais e tudo mais que embargar minha passagem viaja comigo.

O humano? Que degenerado! O assaltante cumpre seu projeto de vida, usufrui o que não é seu, não foi educado com regras e rigores de direitos e deveres. As crianças inocentes puras, sem completar o ciclo da vida, estupradas, mortas. A ganância de poder e status dividem os povos. Os fortes sobrevivem, os fracos lutam para sobreviver. O bem e o mal se digladiam numa tomada de poder assustador.

Dinheiro, sexo e liberdade em excesso é que alimentam as “Sodomas” e Gomorras do mundo. A dignidade perdeu seu valor. O pseudomodernismo derrubou o alicerce dos lares, separou os casais, aumentou a prostituição, firmou a infidelidade antes sagrada e consagrada.

Parece que Deus afirma: é o livre arbítrio gente, para cada um, a colheita do fruto que plantaram. Nem mais nem menos, na medida e tamanho certos, lugar, hora e tempo certos, sem distinção de classe social, cor ou credo.

Tenho dito. Amém.

Sonia Nogueira
  


SUELI DO ESPÍRITO SANTO
Brasil

Nosso tempo aqui é muito breve
então, deixemos para trás
as angústias e pressões
e tantas outras decepções.
Assim a vida se torna mais leve
para podermos encontrar a paz.

Sueli do Espírito Santo



SUSANA SAVEDRA
Rio de Janeiro - Brasil

LUMIAR

Lumiar...
Você foi à luz
Que encantou meus pesadelos
Quando te descobri me perdi
Teus bares tortos hão de ser astutos
Que cachoeiras!
Que banham minhas inexistentes auréolas
Criarão diamantes para meu ser!
Tuas trilhas imóveis e tontas
São as fontes que movem minha frutífera imaginação
Que busca amantes para te apresentar, pois és uma lenda
Lumiar...
Ilumina amantes meus

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BREJO

I

Neste lúbrico pôr-de-sol
Imagino que leva-me a um brejo
Brejo de breus...
Brejo de blues...
A utopia desta amante
Tu és quem pulveriza minha carne triturada por teu estro
Neste brejo brejeiro
Entre estas matérias fecais sinto-me mirabolante decapitando-o
Entre os duendes que escarram nos breus

II

Eu, melena neste rio do brejo
Serena nesta noite nua
O amarei até que chores
Resplandecendo no castelo de meu colo

III

Puritanos concupiscentes
Esfarrapados entre orgias
Deixam-nos ervas e cogumelos

Susana Savedra




TÂNIA TOONELLI
Brasil

QUEM SÃO OS MEUS HERÓIS?

Quando era pequena me diziam se fosse uma boa criança
No Natal o Papai Noel me daria um presente
Na Páscoa o Coelhinho Pascal um ovo de chocolate!

Na juventude comentavam que deveria
Vestir-me igual às atrizes famosas
Dançar como os cantores famosos!

Quando fiquei adulta muitos políticos afirmavam que diminuiriam
O desemprego, a fome e violência
Após algum tempo descobriam a corrupção de muitos!

Sem querer descobri que a literatura me ajuda a sobreviver no mundo
Jesus Cristo foi um homem santo porque amou e acolheu os excluídos
José de Alencar, Machado de Assis e Lima Barreto
Em suas obras denunciaram as injustiças sociais!

Precisamos amar o nosso Planeta Terra
Com pequenos gestos nos prevenimos de epidemias e diminuiremos a poluição
O respeito e a solidariedade são as melhores armas para combatermos a violência!
A natureza é o melhor exemplo a nossa vida
O sol brilha para todos e os animais defendem a sua própria espécie
Com nossas boas ações seremos felizes
Além de ajudarmos a construir um mundo melhor as futuras gerações!

Tânia Toonelli



TEODORA RAMOS URCINO
Taguatinga (DF) – Brasil

TRISTEZA E SOLIDÃO

Como me tornar alegre e feliz
Se a tristeza
toma conta do meu coração...
Me atormentando sem dó,
nem compaixão...
Vem beija-flor,
me tirar logo da solidão
Olhos castanhos
esverdeados, cor de mel
Não pode dar lugar
para tantas tristezas
Todos os dias, ao cair da tarde
O arco-íris e  teus olhos
vêm me fazer brilhar.
Nenhuma tristeza e  solidão
vai me tirar o brilho do olhar
A chama renasce no coração
Estou disposta a todos amar.

Teodora Ramos Urcino



VALTER BITENCOURT JÚNIOR
Brasil

Ser grande ou pequeno
Ser grande ou pequeno?
Ser grande e matar
O ego, ser pequeno
Sem ser arrogante,
Não importa o tamanho.
Matar a vaidade,
Viver cada momento
Em conjunto,
E quando sozinho,
Continuar vivendo.
Não importa a fama,
Não importa os bens materiais,
O que importa é a vida,
O trabalho, e um bem maior
Chamado família.
Ser grande ou pequeno?
Não importa o tamanho,
Buscar o conhecimento,
Ganhar a inteligência,
Desenvolver os dons,
Coletivamente ou individualmente.
Ser grande ou pequeno?
Não importa! Espalhar
Os bons sentimentos, e assim
Sempre seguir em frente.

Valter Bitencourt Júnior


VANDA FERREIRA
Brasil

TOMEI NA VIDA

Já tomei de tudo. Água pura e com gás, tomei no pé do ouvido, na boca do estomago; tomei limonada, noites inteiras, engoli luas cheias de mistérios e tomei choros na madruga. 
Tomei filhos, tomei amores doces e amargos, tomei vento gelado e sol quente. Tomei café de todas as formas que encontrei e até tomei cafés que inventei.
Tomei chá quente e gelado, chá de flor, de raiz e de folha; tereré e chimarrão, e tomei uma amiga pela mão para facilitá-la dobrar esquinas.
Tomei banhos à luz de vela, banhos de cachoeira, de córrego, de lama e de sal. Tomei banho de chuva, banho de enxurrada de desgraça e também de sorte.
Tomei fumaça nos olhos, tiros certos no coração, doses de ilusão, de encantamentos e de saudade. 
Tomei agulhadas na cabeça, no pé, na costa, no verso e na linha do pensamento. Tomei litros de mentira e quase igualmente de verdade, e cálices de segredos.
Tomei entardeceres inteiro, tomei canções do vento, tomei punhal de canavial para sangrar o sufoco das nuvens; Tomei liberdade para surfar em pranchas de sonho; tomei remos para navegar ao longe.
Tomei intimidade com a noite e com o dia, com a brancura e secura.  Já tomei de quase tudo. Tomei roteiros divergentes, sopa de letras, de ervas e de lagrimas santas.
Tomei dores alheias de gente, de arvores e de bichos; Tomei histórias mal contadas, bem contadas, falsas e verdadeiras. 
Tomei paredes de recordação, gavetas de cheiros, suores e janelas de coisas feitas. Tomei paciência, humildade, displicência, pavor, sandice e eloquência. 
Tomei medo e vergonha, de vários tipos e tamanhos, tomei desaforos, tomei pelos olhos, pela testa pelas mãos e pés.
Tomei hóstia, ovos, vinho tinto, branco e rose. Tomei na vida, na morte e na ressurreição.
Já tomei de quase tudo, falta-me tomar cuidado.


Vanda Ferreira



VARENKA DE FÁTIMA ARAÚJO
Salvador (BA) - Brasil

DEDICO A CHARLES BAUDELAIRE

As flores não fazem mal
Então, todas exalam um perfume
Cobrem corpos moribundos
No véu que cobre seu corpo, poeta
O seu rosto sem riso numa metáfora
O amor calou como um sopro
Sem ter provado um amor ardente
As rosas bailavam numa dança fúnebre
Sem tocarem em seus delírios
Jazia seu cérebro sem letras
Elas adornavam flutuando
Formando no infinito
Passos em sua homenagem
O poeta das “Flores do mal”


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HOMENAGEM AO DR. NILVANO DE ANDRADE

Ó Dr Nilvano Andrade
A teus pés tens uma paciente
Que vencida por amor, pelos seus gestos bondosos
És o condutor da fraternidade por teus irmãos
Há um fascínio no teu olhar
Que suaviza as angustias dos enfermos
A lista de proibições não me afetam
Quero ouvir os sons e, a tua voz branda
Homem aterrado na cura dos outros
Fizeste três proezas para imortalidade
Escreveste o livro: "Olhos de Prata"
Entre outros para  Medicina
Plantaste uma árvore
Tiveste um filho e, neto
Caridade! este teu nome revela em uma placa
Unidade Otorrinolaringologista  Dr. Nilvano Andrade
No Hospital Santa Isabel
E, que os sons sejam inspiradores, Dr. Nilvano

Varenka de Fátima Araújo

 

VERA PASSOS

APENAS UM RIO

Nasce aqui dentro do peito um rio
Antes disparava buscando a vida, abria caminhos
Hoje segue o silêncio da caminhada observando a brisa
Se  embriaga polindo pedras na sua rudez
Encanta-se com os peixinhos brincando de corre - corre
Esse rio trouxe a infância e hoje deságua no coração
Muitas vezes atravessou desertos, caatingas e subsolo
Fugiu da intempestiva maldade humana
O meu rio já não tem pressa de avançar
Segue coerente no seu viajar
A ansiedade de outrora fez sua história
Nos dias de hoje meu rio traz as flores
Que um dia semeei nas margens
Como aquele ingazeiro que abraçava as águas
Na correnteza do rio como serpente.
E eu no meu desvario, tentei me agarrar, para sempre.
E minha Vó me dizia: não queira semente...


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EU CRIANÇA

Eu criança, estou aqui trancada, nessa grade humana
Sigo nessa clausura à procura dos risos que da alma emana
E o tempo leva sem pena e dó
Como posso escapar desse campo minado se fora a guerra impera?
Como libertar a criança que jogou bola na rua, empinou arraia, brincou de boneca?
E o mundo, era só PRIMAVERA
Como deixá-la cair na estrada, se as balas perdidas, consomem vidas?
Eu quero  a criança que sonha e brinca nas praças
Que as escolas sejam campos do saber
Que eu possa ouvir e ler estórias com finais felizes
Que minhas CICATRIZES, SEJAM MARCAS DE AMOR e possam voar nas portas de casa
Que todas elas tenham o direito de escolher o caminho a seguir
QUE  vejam a chuva fora da  vidraça,
Que  seus barcos de  papel  sigam a enxurrada
Porque os sem noção não querem sorrisos?
Eu quero minha esperança de volta.
Eu quero minha infância de volta pra casa.

Vera Passos
  


VILMA MATOS
Fortaleza (CE) – Brasil


Visita à linda cidade de Lisboa - Portugal (do livro Odisséia em Ulisséia)



Com o passar do tempo, as antigas quintas do senhor Pina transformaram-se. Agora, restam as lembranças das hortas e dos espaços abertos de outrora, ficou a Alameda Don Afonso Henriques da Fonte Luminosa. O Alto do Pina era formado por um conjunto de quintas, outrora os grandes jardins da Capital. Verdadeiros exemplares da harmonia entre o Homem e a Natureza, propriedades das famílias abastadas de Lisboa, era nestes espaços privilegiados que trabalhava grande parte da população que residia na encosta Santa Apolónia. A maioria ganhava o seu sustento nas terras altas, as quais eram atravessadas por grandes artérias que ligava a cidade ao interior. Eram propriedades do senhor Pina, uma família de Pina Manique (Intendente de Polícia na época do Marquês de Pombal), e da rainha Dona Maria Iª. Assim, o nome do bairro deve-se essencialmente à população que batizou as terras altas por Alto do Pina. Esta zona escolhida para o lazer dos habitantes, nos dias de festas, domingos e feriados, que aproveitavam a sombra das árvores, cantavam fados e modinhas, acompanhados à viola e à guitarra. Ao longo dos caminhos, ficavam os "famosos retiros", locais de boêmia, de apreciadores da "boa mesa", da Literatura e do Fado. Estes eram tão apreciados pelo povo como pelos fidalgos redidentes no Areeiro. Atualmente, este bairro representa grande parte da freguesia de São João e vai até à do Beato. Hoje, o Alto do Pina é um bairro de contrastes, onde se misturam arquiteturas da Lisboa de Outros tempos com as deste fim de século, como por exemplo as Olarias e a Fonte Monumental da Alameda Dom Afonso Henriques. Este lugar, ainda hoje é preferido pelos mais jovens para brincarem e jogar à bola, e também pelos mais idosos que aproveitam a sombra para descansarem e jogar cartas.

Vilma Matos



VON TRINA
Samora Correia - Portugal

OLHOS DE VER

Livremente os olhos olham
se empenhados e fraternos conseguem até ver
o que demasiados e frívolos não ousam querer
outros - dotadamente reabilitados -
rompem trevas impossíveis vislumbrando
imagens que aqueles que não querem saber
insensíveis jamais poderão saber
insensíveis jamais poderão ter

olhos que vêem codificam matreiros
o amor que o coração não tentou esquecer
raciocínios que o espírito quis fazer
ou factos como a alma os quer entender

olhar com olhos de ver
além das máscaras
aquém dos espelhos
vergastas de dilacerantes realidades
sedas que acariciam sensualmente os sentidos
mas sempre em maior acto de Liberdade
p prazer da busca sonhos pela verdade

Von Trina



WILSON DE JESUS COSTA
Brasil

TALVEZ...

Talvez amanhã eu não passe por aqui
Provavelmente estarei em lugar incerto,
Como incerto é o que eu te digo agora
Não importa o sim ou não adiantado da hora,
Pois talvez amanhã não venha por aqui.
Tenho andado pelo mundo hora após hora
Você não sabe, mas pelo mundo tenho andado,
E quando não vejo você, em qualquer canto choro,
O choro de toda criança que no castigo chora
Como chora o homem ao perder sua fiel amada...
Me sigo andando por velhos caminhos
Talvez nem sejam velhos caminhos, mas ando;
Sou ave a escolher a melhor árvore para fazer o ninho
Sou rio entrando na correnteza até alcançar a foz
Quem sabe sou aluno de cantar um canto sem voz...
Mas amanhã talvez não mais esteja por aqui
Estarei esperando você voltando a nosso ninho
Nosso ninho é casa de porta para sempre aberta
Porém terei partido por esse mundo afora,
Mas me espere que poderei voltar a qualquer hora...

Wilson de Jesus Costa



YNA BETA
Brasil

AS HORAS

Aqueles instantes esperados
Na angústia das horas passando
Os pensamentos voam apressados
Dos doces momentos... Aguardando.

Quando sonho com aquela loucura
De nossos corpos entrelaçados
Na volúpia da ânsia e doçura
De estarmos bem abraçados.

O desejo de nossa paixão única
Para nos amarmos até à exaustão
Sentir-te em minha entranha úmida
Ouvindo o bater do teu coração!


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À FLOR DA PELE
                     
 Ah... Que saudade de teus  abraços
 Estreitando-me em teus braços.
 Do aconchego em teu colo amado
 Rever aquele teu sorriso assanhado.

 Cobrir de beijos teu corpo, levar-me ao gozo
 Te amar daquele modo ardente e gostoso!
 À flor da pele sinto o queimar desse ardor,
 Que aquece esse nosso desmedido amor.

Sofrendo nessa louca paixão, nesse ensejo...
Morro, perdendo-me em inconfessos desejos
Que vão além, muito além de simples beijos!


Yna Beta